Campinas, 26 (AE) - Os "gatos" no futebol nascem de duas maneiras e de forma bem simples, segundo revelou o técnico Ligio de Carvalho, que já foi obrigado a dispensar mais de 50 garotos por eles terem falsificado o ano de nascimento, durante as duas décadas em que trabalhou nas equipes de base do Guarani e da Ponte Preta. A primeira, basta alterar o ano em que o garoto nasceu na certidão de nascimento; a outra maneira dá um pouco mais de trabalho. O garoto pega a foto dele e a certidão de nascimento do irmão mais novo para tirar a cédula de identidade.
"A partir dai, se não houver trabalho de investigação junto aos cartórios de registro civil, fica difícil em descobrir a verdadeira idade do jogador", disse Carvalho, que, há dois anos trabalha na escolinha de futebol do zagueiro André Cruz. "Atualmente é muito fácil mudar o ano de nascimento porque a identidade pode ser tirada em vários lugares", acrescentou. Por esse motivo houve um aumento significativo, nos últimos anos, no número de "gatos" no futebol.
O treinador acredita que, apesar de ser fácil a mudar a data de nascimento no documento, os garotos não estão agindo sozinhos e que eles conseguem obter sucesso com ajuda de pessoas mais experientes.
Empresários e até os pais estão por trás desta verdadeira armadilha, que pode comprometer a carreira de um jogador e tirar o brilho de uma competição", comentou. Em pelo menos duas ocasiões o treinador disse que o time infantil da Ponte Preta, que ele dirigia na época, foi prejudicado na disputa da Taça São Paulo da categoria, na década de 80.
Na primeira, em 1986 perdeu a decisão jogando contra o Joinville, por 2 a 1. O adversário teria utilizado de forma irregular o lateral esquerdo Rocha. "Anos depois ele próprio confirmou que havia mudado o ano de nascimento para disputar a competição", contou Carvalho.
Na outra, em 1984, a Ponte Preta se deu melhor, mesmo perdendo a final para o Suzano, por 1 a 0, ficou com o título da categoria infantil, depois de provar na Federação Paulista de Futebol que o adversário havia atuado de forma irregular. "Muitos, quando desconfiam, não vão atrás porque o prazo para entrar com o recurso é muito pequeno e as taxas são elevadas", completou.

ENGANADO- O treinador Ligio de Carvalho disse que também foi enganado pelo zagueiro Bell, atualmente jogando no Botafogo de Ribeirão Preto, que nos últimos dias se tornou em um dos três "gatos" mais famosos do futebol brasileiro, ao lado do atacante Sandro Hiroshi e do meia Anailson, ambos revelados pelo Rio Branco de Americana (SP). Bell, que chegou a disputar o campeonato mundial juvenil em 1997 tem três anos a mais do que consta em seus documentos.
O zagueiro, que é de Artur Nogueira -cidade próxima a Campinas- começou na equipe dente-de-leite do Guarani. "Verificamos todos os documentos e constatamos que ele havia nascido em 1979", disse o treinador, que na época trabalhava no Guarani. "Não desconfiamos de nada porque é muito difícil jogadores do interior de São Paulo que, geralmente, são conhecidos de todos, falsificarem a data de nascimento", argumentou. A prática é bastante comum, ainda segundo o treinador com relação aos jogadores vindos de outros estados, principalmente do Nordeste, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e do Paraná. Os clubes de São Paulo estão pegando garotos com idade inferior a 16 anos: o que também vem contribuindo para aumentar o número de "gatos", já que os garotos de outros estados não se enquadram nesta faixa etária", ressaltou.
O Guarani, recentemente, foi duas vezes vítima de "gatos". A primeira, com o jogador Ednei Pilon, que era da Chapada dos Guimarães (MT). Ele dizia ter 16 anos, mas na verdade havia nascido em 1981. O outro, Elton Conceição Amorim, que teria nascido em Salvador (BA), em 1983, na verdade foi registrado em 1976. A diretoria descobriu o erro e mandou os dois embora.
O treinador Ligio de Carvalho conta que a polêmica envolvendo jogadores que falsificam o ano de nascimento está comprometendo lá fora a imagem do País. Muitos clubes estão tomando várias medidas para não serem enganados, como a exigência de toda a documentação, o que não era necessário antes", concluiu.

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