Especialista critica calendário esportivo
Membro diretor da Sociedade Brasileira de Traumatologia Desportiva, presidente do 42º Congresso Brasileiro de Ortopedia e coordenador do Departamento Médico do Brasiliense Futebol Clube, o ortopedista Paulo Porto é um especialista nas lesões de joelho. Com conhecimento de causa, critica o calendário esportivo, cada vez mais apertado para atender interesses de vários setores, ignorando a capacidade física dos atletas.
Nos Estados Unidos, são em média 100 mil cirurgias para reconstrução de ligamento cruzado anterior, o que é mais comum de romper. No Brasil, ainda não há estudos sobre o assunto, mas já há uma mobilização para discutir o tema baseado em números nacionais. No ano passado foi criada a Associação Brasileira dos Médicos do Futebol. ''Desde então todos os médicos do times das Séries A e B (do Campeonato Brasileiro) se comprometeram a enviar relatórios de todas lesões ocorridas no seu clube, visando termos de estatística própria'', apontou.
Para Porto, são três os motivos do ''boom'' de lesões de joelho. ''Primeiro porque a população de atletas tem aumentado a cada ano. Segundo porque apareceram outras modalidades esportivas, muitas delas radicais. Terceiro porque os diagnósticos são mais precisos e a mídia tem dado maior destaque'', enumerou.
Ele, entretanto, não descartou a influência dos treinamentos cada vez mais puxados a que os atletas são submetidos e critica o calendário esportivo. ''Não há duvidas que o treinamento físico, apesar de termos bons profissionais no país, quando exagerado, principalmente nas categorias de base, propicia um maior número de lesões, principalmente as musculares. Não podemos esquecer o calendário das nossas competições, feito por dirigentes que nada entendem, e que obrigam atletas participarem de três ou mais atividades de competição por semana'', apontou. ''Especialmente nas lesões do LCA (ligamento cruzado anterior) o acometimento na mulher atleta é seis vezes maior devido à anatomia do joelho no sexo feminino, problemas hormonais e musculatura mais fraca'', continuou.
Os pisos inadequados de quadras e os gramados esburacados também são vilões dos atletas, na opinião do ortopedista. ''Pisos irregulares e material esportivo inadequado contribuem para entorses do joelho, em especial alguns tipos de grama sintética. Existe um dado estatístico da Federação Australiana de Futebol que em períodos de pouca chuva (portanto piso mais duros) o índice de lesão ligamentar do joelho é maior'', destacou.
Outro ponto de bastante questionamento é a precocidade dos atletas. Os jogadores estão entrando em equipes profissionais cada vez mais jovens. Muitas vezes, ainda sem estarem com a parte muscular e óssea totalmente desenvolvida, entram nesse ritmo de treinamento físico frenético do esporte de alto rendimento. ''Crianças precisam brincar e não competir. Hoje vemos meninos com 11, 12, 13 anos, tendo seus pais já se comprometendo com empresários visando transferências para o exterior'', condenou Porto.
Mas como mudar esse quadro? ''Seria necessário uma política pública de maior incentivo ao esporte, consciência dos pais em diminuir o espírito de competições, profissionais de educação física que eduquem e não transformem atletas em potencial, em robôs. Enfim, é tarefa de uma aldeia. A Fifa, inclusive, tem um protocolo que é seguido por muitos serviços visando prevenção das lesões nos atletas profissionais'', finalizou. (T.M.)





