Trabalho de base em universidade de Londrina garante renovação da ginástica de ouro
Dorico da SilvaOS APARELHOSFita, bola, maça, arco e corda: desempenho de uma apresentação depende da harmonia dos movimentos com os aparelhosDorico da SilvaMESTRE E APRENDIZA aluna Gabriela e a professora Lígia, da Unopar: instituição londrinense mantém trabalho permanente de renovação para a Ginástica Rítmica DesportivaAlberto Macedo
De LondrinaA inédita e surpreendente conquista da medalha de ouro pela Ginástica Rítmica Desportiva (GRD) brasileira nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, domingo passado, é o assunto da semana em todo o País e, principalmente, em Londrina - onde a seleção treina e cidade natal das integrantes da comissão técnica e três das seis ginastas.
Para quem vive o dia-a-dia da modalidade, todo esforço tem seu preço. A Universidade do Norte do Paraná (Unopar) possui toda uma história de luta pela modalidade. A escolinha de GRD da Unopar - instituição que mantém 24 cursos das áreas de Humanas, Exatas e Biológicas nos campi de Londrina e Arapongas - leva o nome de ‘Escola de Campeãs’, pois foram inúmeras as atletas que passaram por ela, conquistando títulos nacionais e internacionais. E a medalha de ouro no Pan veio coroar todo este trabalhao, fazendo com que a modalidade cresça ainda mais em número de interessados.
E a resposta não demorou muito. Os telefones da Unopar não pararam de tocar ontem, com muita gente em busca de informações de como fazer para praticar a GRD.
- Muita gente queria saber como fazer para que a filha viesse a praticar a modalidade - conta a técnica Lígia Pissolato. Essa conquista vai fazer com que a GRD vire uma febre entre as meninas - ela acredita.
E a Unopar mantém um trabalho permanente de renovação. Hoje, 150 crianças vão realizar a iniciação em GRD.
- Todo começo de ano fazemos uma peneirada em Londrina e região, durante uma semana, em busca de crianças de cinco a dez anos, que estejam dispostas a aprender o que é a GRD - diz Lígia.
Os quesitos básicos para se saber se a menina têm as características ideais vão desde os testes específicos (a iniciante tem de possuir flexibilidade muito boa e umo biotipo adequado, de preferência magra e longilínea) e disponibilidade para treinar quatro horas por dia. Nas fases pré-competitivas - e quando estão na seleção -, o treinamento passa a ser de sete horas diárias.
Segundo a técnica Lígia Pissolatto, para se saber se a menina terá condições de se incorporar definitivamente ao grupo é necessário um ano de muito treino e observação, com a mesma passando por avaliações de três em três meses. Além das cerca de 150 meninas que estão sendo lapidadas, a Unopar possui 12 atletas na categoria pré-infantil, dez no infantil e dez no juvenil. A partir daí, quem se destaca passa a fazer parte do grupo adulto.
E é pensando nesta renovação que já existe uma equipe sendo treinada para substituir as integrantes da seleção que conquistou o ouro em Winnipeg. O pico de uma ginasta de GRD é dos 22 aos 25 anos. Daí por diante, muitas atletas passam a ser professoras, técnicas ou simplesmente exercem outra atividade.
- A meta das atletas agora, depois da conquista do Pan, é tentar uma vaga nas Olimpíadas de 2000. Caso alguma delas venha a parar após esta competição, já temos outras prontas para substituí-las - afirma Lígia.
A modalidade - A Ginástica Rítmica Desportiva é uma modalidade estritamente feminina, prevalecendo os movimentos harmoniosos, ritmos diferenciados, técnica corporal bem desenvolvida e uma execução perfeita dos movimentos. Uma equipe é composta de seis ginastas, sendo cinco titulares e uma reserva. Nas provas individuais, participam três atletas. Os aparelhos utilizados são corda, arco, bola, maças e fita.
Segundo Lígia Pissolatto, a coreagrafia é dividida em três partes: valor técnico, valor artístico e execução. No primeiro item, avalia-se as dificuldades verificadas na apresentação; no segundo, a avaliação é feita em cima da música e do movimento dos grupos em cada um dos aparelhos. ‘‘Aí é que entra a originalidade da coreografia’’, diz Lígia. Já na execução o que se observa é a forma como as ginastas realizam os movimentos.
As notas dadas pelos árbitros obedecem aos seguintes critérios: técnico, de zero a cinco; artístico, de zero a cinco; e a execução, de zero a dez, num total de 20 pontos.
- Uma das principais falhas é a falta de sincronia entre a equipe, pois quando elas entram para uma apresentação, todas têm que ser uma só. Se alguém destoar, o time perde ponto - conta Lígia. Os movimentos têm que ser uniformes - ela completa.
Também perde-se pontos quando um aparelho (arco ou bola, por exemplo), sai da área de apresentação ou fica longe da atleta; uma atleta termina a coreografia sem o aparelho; ou então perder o ritmo da música, entre outros detalhes.
A pequena Gabriela - Entre as lunas que estão treinando na Unopar, um dos destaques é a pequena Gabriela Maria Andrioli, de 13 anos, que aparenta no máximo dez anos. Loirinha, de olhos azuis, Gabriela começou a praticar a GRD há três anos.
- Eu nem imaginava como era este esporte. Uma prima me convidou para fazer uma aula e gostei muito. Daí para frente eu passei a praticar em casa até que resolvi me dedicar de vez - diz a garota.
A determinação de vencer na GRD fez com que Gabriela saísse de Toledo (Oeste do Estado), onde residem seus pais, para morar em Londrina no alojamento da Unopar, que abriga as futuras ginastas. A distância não faz com que Gabriela desista do objetivo maior.
- Meu sonho é participar de uma Olimpíada - diz convicta, ela que cursa a oitava série. A ginasta vai para casa uma vez por mês e diz que não tem muito tempo para as brincadeiras das crianças da sua idade.
- Os treinos são cansativos, mas não posso reclamar. Temos que treinar bastante se quisermos vencer - fala a ginasta, que tem como ídolo na modalidade a russa Yanina Kabaeva.
Neste final de semana Gabriela irá para casa, mas para competir, já que Toledo sedia o Campeonato Paranaense e, em seguida, irá treinar mais forte ainda, pois de 12 a 14 de novembro, disputará o Brasileiro, que será em Londrina.
Mas aqueles olhos azuis pensam muito, muito mais longe.

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