Curitiba - O mar de lama nos bastidores do futebol paranaense parece mesmo não ter fim. Pelo menos é o que evidenciam as inúmeras denúncias de manipulação de resultados, ''bruxos'', entre outras coisas. Desta vez, a bomba é revelada pelo ex-tesoureiro da Associação Paranaense de Árbitros de Futebol (Apaf), Airton Nardelli. Atual membro do Sindicato dos Árbitros do Paraná (SAP), o contador acusa o presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF), Onaireves Nilo Rolim de Moura, de ser o grande mentor de toda a corrupção no esporte local. Nardelli questiona o destino de R$ 366.854,44, valor do dinheiro que teria ''sumido'' dos cofres da associação entre os anos de 1997 a 2000. Por iniciativa própria, o ex-tesoureiro da Apaf decidiu trazer a denúncia, com documentos originais, para a redação da Folha em Curitiba.
A Apaf, órgão ligado à FPF, tem como objetivo qualificar e selecionar os árbitros que podem compor o quadro disponível para as escalas da Comissão de Arbitragem. Seus recursos vêm de porcentagem nas taxas de arbitragem, doações, inscrições para cursos, mensalidades, entre outros. Os gastos, na teoria, deveriam ser exclusivamente para bens da própria associação e sua manutenção.
No entanto, Nardelli acredita que isso não aconteceu no período em que foi tesoureiro, de 2000 a 2004, e também anteriormente. O contador, de 53 anos, hoje empresário e tesoureiro do SAP, diz que foi convocado para compor a diretoria da Apaf em 2000, pelo então presidente Nelson Orlando Lehmkuhl. À época, o vice era Fernando Luiz Homann e o Conselho Fiscal do órgão era formado pelos árbitros Carlos Jack Rodrigues Magno, Cleivaldo Bernardo, Henrique França Triches, Juarez Rodrigues, Rogério Carlos Rolim e Sirlei Piva.
''O Nelson me convidou para ser tesoureiro e não aceitei pela fama de desonesto que ele tinha. Mas ele insistiu e, quando cheguei, pedi documentos de 97 a 2000. Ele me enrolava, dizia que os documentos estavam perdidos em caixas. Quando ele percebeu que eu era rigoroso, não quis me passar. Simplesmente porque esses documentos não existiam'', revela Nardelli.
Assim, o ex-tesoureiro se recusou a assinar as prestações de contas emitidas por Lehmkuhl. Os documentos vinham todos irregulares, sem detalhes da procedência e destino da verba arrecadada. ''Mostrei o total dos valores que passaram pelo banco para fazer a conciliação e ele (Lehmkuhl) me disse: 'O relatório tem que ter só o que foi pago, não precisa de mais nada. Eles (os árbitros) são todos burros!''', afirma.
Assim, Lehmkuhl teria procurado outro contador, que assinou como o responsável pelas prestações de contas. Entre tantos indícios de corrupção, Nardelli diz que resolveu então fundar o SAP, hoje presidido pelo ex-árbitro Amoreti Carlos da Cruz, um dos indiciados pelo ''caso Bruxo'', recentemente.
Aproveitando a onda de denúncias no futebol, Nardelli decidiu soltar 'a bomba'. ''O sindicato está parado porque o homem (Moura) não deixa os árbitros se associarem. Ele ameaça retirá-los do quadro de árbitros. Tinha procurado outras pessoas para falar sobre isso, até mesmo jornalistas, mas estavam todos mancomunados com ele. O que eles cometeram é pura lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal. E querem sacrificar os árbitros. Não digo que eles (árbitros) são santos mas, se fizeram, foi a pedido do Moura'', desabafou. Nardelli foi convocado a depor sobre o caso, ainda nesta semana, no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Paraná.

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