O alpinista curitibano Gil Piekarz foi o único integrante da expedição Cingapura-América Latina a chegar à cratera do vulcão mais alto do mundo: Ojos del Salado, a 6893 metros de altitude, localizado no Deserto do Atacama na fronteira do Chile e Argentina. Após a maratona de oito dias, entre o período de aclimatação e da penosa escalada castigada por duras nevascas, a expedição cumpre a etapa preparatória decisiva para o grande desafio de atingir, entre os meses de março e maio deste ano, o topo do Everest, a montanha mais alta do mundo, de 8.850 metros acima do nível do mar.
O chamado inverno boliviano, fenômeno climático que se origina na Amazônia, e assola em pleno verão a Bolívia, sul do Perú e norte do Chile com duras chuvas e nevascas, atingiu em cheio a expedição durante os dias em que tratavam de chegar ao cume de Ojos del Salado, a mais alta montanha do Chile e maior vulcão ativo do mundo.
O grupo composto por quatro integrantes, o líder David Lim (35) e Ting Sern (43), técnico em telecomunicações, de Cingapura, o argentino Jorge Cambiaso (30) e o paranaense Gil Piekarz (45), se reuniram na capital Santiago e partiram, primeiramente, para uma escalada de aclimatação no Cerro El Plomo (5440 msnm), localizado nos Andes Centrais a poucos quilômetros da capital. Este período é necessário para que os organismos dos atletas se adaptem à pouca quantidade de oxigênio e à baixa pressão das altas altitudes. Todo cuidado é pouco: El Plomo não deixa de ser uma alta montanha.
Felizmente os riscos ficaram para trás, graças aos dias limpos e ensolarados que ajudaram a expedição a concluir seu objetivo em seis dias sem maiores inconvenientes, com exceção do supremo esforço físico. Além do período de adaptação, no qual o corpo cansa mais rápido, os andinistas (escaladores dos Andes) não puderam contar com o auxílio de carregadores, o que resultou no peso de 30 quilos nas costas de cada um... O ataque ao El Plomo consumiu três dias de trekking, da estação de esqui La Parva até La Holla - acampamento base da montanha (4200 m) - um dia acampados, para melhor adaptar-se à altura, outro para chegar ao cume e mais um, em descida, de volta a La Parva.
O visual do topo emocionou Gil: ‘‘Quando cheguei ao cume tinha toda a cordilheira à minha frente! Estavam o Aconcágua , o Mecedário, o Tupungato...’’, relata o escalador identificando os picos mais famosos do continente. O cenário da cordilheira visto do topo de uma montanha impressiona. São inúmeros os cumes brancos, cobertos de neve eterna, enfileirados num mar de montanhas sem fim.
Hora do Ataque: Ojos del Salado
Confiados pela boa performance na escalada ao El Plomo, a expedição partiu para a verdadeira aventura, rumo a Copiapo, cidade localizada num vale verde, a 800 Km ao norte de Santiago, que os chilenos chamam de ante-sala do Deserto do Atacama. O grupo aproveitou a passagem pela cidade e visitou o Museu de Mineralogia (o mais completo do Chile), a Universidade do Atacama (1857) que guarda em seu pátio o primeiro trem que circulou na América do Sul (1851).
Após dois dias em Copiapo, a expedição, que a essa altura já tinha alugado uma 4 x 4, pegou a estrada em direção à região dos Andes que concentra o maior número de montanhas com mais de 6 mil metros de altitude. Novamente fez-se necessária a aclimatação. Desta vez o local escolhido foi a exuberante Laguna Verde, a 4300 metros de altitude. Uma lagoa salina, sem vida aparente, gelada no meio do deserto de fascinante cor esmeralda. Cercada por vulcões nevados, oferece um espetáculo único, num dos pontos mais inóspitos da Terra. Suas margens tem camadas de diferentes colorações, fruto da antiga atividade vulcânica, de lava e cinzas. Em certos pontos, ainda, ocorre o brotamento de águas termais, a 40 C... Sem dúvida, um lugar abençoado.
De Laguna Verde a equipe se dirigiu para o Refúgio do Atacama (5200 m), base do vulcão. Neste trecho não existe estrada e a camionete teve que seguir marcas de pneus deixadas por outros veículos. Já na chegada ao refúgio, o presságio da virada de tempo, causada pelo tal inverno boliviano, se confirmara: uma forte nevasca os recebeu deixando todos numa angustiante expectativa. Os dias de escalada no Chile estavam contados. A data de partida se aproximava e se não tentassem naquela semana, teriam que desistir.
Às quatro da matina, com o panorama branco e fofo da neve, iniciaram a caminhada, rumo ao abrigo dois, o Refúgio Tejos (5750) - nome de um piloto de helicóptero de uma empresa mineradora estrangeira que morrera nas proximidades. O segundo abrigo consistia num enorme container, desses de navio, que a empresa de minério colocara em homenagem ao seu piloto. Equipada com seis camas e cozinha, a enorme caixa de metal albergou os três escaladores, David, Gil e Jorge (o técnico ficara no abrigo um, reportando as impressões da expedição para o mundo), e mais dois alpinistas espanhóis que ali estavam pelo mesmo desafio. Todos decidiram esperar mais um dia para o ataque ao cume, na esperança que as condições melhorassem. A árdua tarefa seria a de vencer os mil metros de desnível com o agravante de escalar com neve que certamente passaria o nível dos joelhos. A nevasca era pontual, chegava às 3 da tarde e só amenizava às 2 da manhã. Na madrugada seguinte, as condições não mudaram. No Tejos o nível da neve passava as botas, o que diria aos 6800... Os espanhóis desistiram, mesmo assim a expedição resolveu tentar. David começou liderando os colegas, Gil lembra: ‘‘onde o David colocava o pé, eu pisava em cima. Tínhamos muito cuidado, era muito difícil prever a profundidade do terreno irregular da parede do vulcão’’. Mais adiante, tiveram que encarar uma ladeira que normalmente se vence subindo em ziguezague, mas com o perigo de afundar na neve, os três acompanhavam saliências cobertas de neve, dadas por rochas empilhadas no fundo. E o esforço da subida se multiplicou. Cambiaso parou um pouco por sentir o mal de altura, não estava bem aclimatado. Em seguida, David cansou e reduziu o ritmo, fazendo com que Gil tomasse a dianteira. A grande mancada da escalada ficou por conta do curitibano, que não levara as polainas (proteção que une a bota com a calça e não deixa entrar neve aos pés) porque julgou que no deserto não seria preciso... Seus dedos do pé encontram-se adormecidos até hoje, vai levar mais um mês para voltar à normalidade.
Mas foi com excepcional determinação que o paranaense conseguiu chegar sozinho à cratera, sem alcançar no entanto, o cume, pois ficava acima de umas rochas do outro lado do vulcão. Para infortúnio do aventureiro, o alto nível de neve o tornava inacessível nesse dia. Mas sinceramente, o que é uma pilha de pedras comparado aos suados 6893 metros de subida neste vulcão perdido no mapa?
Everest 2001: Expedição Cingapura - América Latina
Com as etapas de treino cumpridas, a singular expedição tem em seu horizonte a maior altitude de todas: os 8850 metros do pico Everest, o mais alto da Terra. Antes, porém, os integrantes devem negociar com empresas parceiras, que patrocinam o grupo, para cobrir a totalidade dos gastos orçados para a escalada. A expedição final reunirá quatro alpinistas de Cingapura e o paranaense Gil Piekarz, que será o único representante latino-americano, uma vez que os colegas de países vizinhos tiveram que desistir em função da falta de patrocínio. O projeto Everest 2001 foi lançado em março de 2000 pelo Presidente de Cingapura, S. R. Natan, e tem o objetivo de estreitar as relações entre a América Latina e este país. Para as empresas que tenham interesse em participar desta inédita aventura, os contatos com Gil Piekarz podem ser feitos pelo telefone 41 9102-4229 ou pelo email [email protected]. O site oficial da expedição é www.everest.org.sg.

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