Berlim - Embora algumas de suas opiniões mais gerais sobre a Copa do Mundo de 2006, inclusive a respeito da participação do Brasil, tenham ficado conhecidas por conta de seu trabalho como comentarista para o canal de TV alemão ZDR e uma coluna distribuída a publicações de todo o mundo, Pelé ainda aborda com mais detalhes assuntos não tão diretamente ligados ao que acontecia no campo. Porém, em entrevista concedida à Agência O Globo, por e-mail, o atleta do século analisa a eliminação da seleção diante da França e aproveita para revelar que suas relações com os jogadores da geração do penta são bem melhores do que se imagina.
O Globo: Por que o Brasil foi eliminado da Copa?
Pelé: A expectativa criada no mundo inteiro em torno da seleção brasileira foi enorme. Para o brasileiro e os torcedores em geral, não basta ao Brasil vencer. O público e a mídia sempre esperam espetáculo da nossa seleção. Portanto, na minha opinião, o peso psicológico, o tempo necessário para uma preparação física mais adequada, uma melhor organização tática e, principalmente, a baixa produção de jogadores de altíssimo nível técnico nos momentos decisivos, foram fatores importantes na eliminação do Brasil.
O Globo: Ronaldinho Gaúcho, o maior jogador do mundo, teve uma participação tão apagada na Copa, não ?
Pelé: Quando se vence, todos vencem. Quando se perde, dirigentes, comissão técnica e jogadores, todos são derrotados juntos. É inútil individualizar a responsabilidade pela participação e eliminação da Copa, dizer que foi este ou daquele atleta, ou o Parreira. O Ronaldinho Gaúcho, para mim, continua sendo o melhor jogador do mundo, mas normalmente a maior estrela acaba tendo um peso maior nas costas do que os outros. É preciso ver que no Barcelona o Ronaldinho treina e joga o ano inteiro conhecendo todos os movimentos do time dirigido pelo Rijkaard. Na seleção brasileira, o tempo para o entrosamento de todos é muito menor.
O Globo: Por que o Brasil não consegue ser campeão quando é favorito, como aconteceu em 1966, 74, 82, 98 e 2006 ?
Pelé: Antes da Copa, em diversas entrevistas pelo mundo, já tinha dito que o favorito nunca chega. Este sempre foi o meu maior receio, porque em 74 a Holanda era favorita e deu Alemanha. Em 82 o Brasil do Telê Santana e uma grande geração de jogadores eram favoritos. Venceu a Itália. Em 2002, Argentina e França eram favoritas e aí deu Brasil. Lamentavelmente, aqui na Alemanha está acontecendo o mesmo. É uma coincidência, porém.
O Globo: Mas em 62 também eramos favoritos e acabamos ganhando o bi, apesar da sua contusão...
Pelé: Em 62, nós tivemos dificuldades na fase de classificação e eu me machuquei. Mas o grupo tinha uma ótima base ainda de 58 e, nas fases seguintes, superou-se com as grandes atuações de Garrincha, Amarildo e Zito.
O Globo: Pelé ainda é o único jogador a conquistar três títulos mundiais. Ronaldo e Cafu estiveram perto de igualar esta marca duas vezes, mas não conseguiram. Esse recorde ainda dura muito?
Pelé: Conquistas e recordes fazem parte da carreira de grandes jogadores. Sinceramente, nunca estive preocupado se os recordes vão durar muito. De coração, preferiria que ambos os amigos Ronaldo e Cafu tivessem conseguido a façanha, pois o povo brasileiro hoje estaria comemorando o heptacampeonato.
O Globo: Como o torcedor Pelé se sente? E que diria para consolar outros companheiros da arquibancada ?
Pelé: Na noite de sábado, como todos os brasileiros, estava decepcionado e triste. Tive que fazer o comentário após o jogo com a França para a ZDF e a entrevista junto com Beckenbauer ficou constrangedora quando ele, a um certo ponto disse: 'Amigo, se a Alemanha passar pela Itália, o melhor adversário para nós seria o Brasil de hoje'. Tive que confortar amigos, ligar para os meus filhos e minha mulher. Para a torcida da arquibancada, diria que na vida é preciso saber ganhar e perder.Espero realmente que essa inesperada derrota sirva de grande exemplo para as próximas Copas.
O Globo: Como o jogador Pelé se sentiu com a eliminação em 66? O que o jogador Pelé pode dizer para os colegas de profissão eliminados sábado?
Pelé: Em 66, fomos eliminados na fase de classificação e foi duro. Para muitos, era o fim de uma era. Porém, daquela derrota se tirou a lição para a formação do grupo de 70, e nós conquistamos o tricampeonato. Creio que a maioria dos jogadores brasileiros desta geração estará presente na Copa de 2010. Portanto, digo que, a partir de hoje, temos que corrigir os erros e trabalhar com grande empenho para a reconquista da Copa na África do Sul.
O Globo: Há quem diga que você tinha de estar mais presente junto à seleção, visitando a concentração ou aparecendo mais nos estádios, como o Maradona fez com a Argentina. Concorda?
Pelé: Devido a minha intensa agenda na Copa há compromissos com patrocinadores, contratos de televisão o Pelé e sua equipe têm um trabalho enorme, antes e durante o torneio. Trabalho todos os dias até de madrugada. Gostaria muito de um dia assistir à Copa junto a minha família e aos amigos, sem tantos compromissos. Nesta Copa, porém, em diversas ocasiões eu enviei mensagens para o Cafu e o Ronaldo, e transmiti ao Parreira nosso apoio e confiança na equipe. Pessoalmente, na época em que eu era jogador, nunca gostei quando vinham políticos ou personalidades visitar a concentração. E não seria agora que eu ia fazer assim.
O Globo: Muito tem sido publicado sobre suas opiniões a respeito da seleção.Tem-se a impressão de que o Pelé e a geração do penta não se dão bem. Se o relacionamento é bom, por que tanta animosidade por parte de Ronaldo, por exemplo?
Pelé: É absolutamente falso que exista qualquer animosidade entre a minha geração e a geração atual, e mesmo comentários sobre comportamento de atletas etc. Não gosto deste tipo de polêmica, que é feita por uma pequena parcela da imprensa, que visa colocar na minha boca palavras e conceitos que jamais expressei. Sabemos perfeitamente quem é essa parcela. Por isso, através do meu assessor, eu conversei com o Cafú durante a Copa e enviei uma carta cumprimentando o Ronaldo pelo recorde de maior artilheiro de Copas. Mensagens de coração aberto, que não precisam ser divulgadas.
O Globo: Ao mesmo tempo, parece que o brasileiro, seja o jogador ou o torcedor, não sabe aceitar sua opinião sobre a seleção. O Pelé se sente perseguido?
Pelé: Não acredito, porque se trata, como disse antes, de uma pequena parcela da imprensa que está querendo modificar a versão real dos meus comentários. Eu jamais falei em entrevista coletiva sobre fatos da vida pessoal de qualquer atleta. Como sempre, dou minha opinião na parte técnica, entende? No caso de Brasil x França, eu nunca disse que a França venceria, mas sim que tradicionalmente é um adversário difícil como foi sábado. Todos devem se lembrar que, em 1986, a França eliminou o Brasil no pênaltis e que em em 1998 batera o Brasil na final. Esta é a verdade.
O Globo: Como você viu a situação do gol de Henry?
Pelé: Passei a Copa inteira vendo que, em todo o episódio de falta lateral da direita ou esquerda, ninguém estava aproveitando o segundo pau. No Santos eu sempre combinava isso com o Coutinho quando o Pepe cruzava ou batia falta. As defesas sempre se preocupam mais com o primeiro pau e o meio da área. A França e o Henry aproveitaram-se justamente disso. Independentemente da falha de marcação, que houve.
O Globo: Estamos numa das Copas mais bem organizadas de todos os tempos. O que diz sobre as chances de o Brasil sediar o Mundial de 2014?
Pelé: O Brasil tem chance de organizar o Mundial de 2014 e terá que decidir no prazo dado pela Fifa até 2008. Creio que o empresariado privado e o governo, para cumprirem o caderno de encargos da Fifa, devem acelerar os trabalhos e principalmente olhar o sucesso de organização da Alemanha. O Brasil tem de estabelecer logo as bases para uma comissão organizadora respeitada e competente, que transmita confiança à Nação.

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