ENTREVISTA: NATÁLIA FALAVIGNA - 'Cobranças para o Pan serão grandes'
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2007
Jaime Kaster<br> Reportagem Local 
A paranaense Natália Falavigna Silva, 22 anos, nascida em Maringá e radicada em Londrina, é o principal nome do taekwondo brasileiro na atualidade, ao lado do paulista Diogo Silva. A atleta da Academia Fernando Madureira, de Londrina, foi a primeira brasileira a conquistar um título mundial na modalidade, na Espanha, em 2005, e em maio irá defender o título no Mundial de Pequim, na China, na categoria até 72 kg.
A lutadora tem, porém, outras duas competições vistas até com maior prioridade para este ano. A primeira são os Jogos Pan-Americanos do Rio, em julho, pela pressão que vem sendo exercida sobre os atletas pela mídia e pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), devido ao fato de os Jogos serem no Brasil.
A outra, que é considerada por Natália como seu objetivo principal do ano é a Seletiva Olímpica na Inglaterra, no segundo semestre. ''Como a Olimpíada é o sonho maior de qualquer atleta e é o coroamento de um trabalho de quatro anos, tenho que garantir vaga nesta seletiva, pois não quero ficar fora de jeito nenhum (da Olimpíada)'', enfatizou.
Na entrevista a seguir, concedida no apartamento da família, em Londrina, Natália fala sobre a sua preparação para a temporada e sobre como tem lidado com as pressões por resultados.
Folha: Você terá três grandes competições este ano: o Mundial, o Pan e a Seletiva Olímpica. Como está se preparando?
Natália: Este é um ano em que vou ter um volume menor de competições. Vou treinar mais e competir menos. A Confederação (Brasileira de Taekwondo - CBTkd) tem um calendário cheio. Dentro dele vou escolher o que é melhor para mim. Se for uma das atletas escolhidas, pretendo ir para os torneios europeus (na Holanda e Alemanha), agora em março, e depois para o Mundial, o Pan-2007 e a Seletiva para as Olimpíadas. Os dois torneios na Europa seriam mais para pegar ritmo para as outras competições.
Folha: No Mundial você vai defender o título que conquistou em Madri. É um campeonato mais importante que o Pan, por ter os melhores atletas do mundo?
Natália: Não. Acho que o importante para mim este ano é ganhar os Jogos Pan-Americanos, que serão no Brasil, e me classificar para a Olimpíada, que é a competição maior para qualquer atleta. Já para o Mundial, estou fazendo um trabalho visando ele e quero ser campeã de novo. Tenho que usar a minha capacidade emocional, o meu nome, o título que eu obtive para me sair bem no Mundial. Mas não vejo como uma obrigação ganhá-lo, por causa do calendário, que colocou o Mundial muito perto do Pan. Mas vou para as duas competições e tenho que usar a inteligência para tentar ir bem nas duas.
Folha: E a busca da vaga olímpica?
Natália: Vou ter que buscar nessa seletiva na Inglaterra. Porque mesmo um título no Pan não me garante nada. De todos os campeonatos que vou disputar este ano vejo essa seletiva como o mais importante. Se não me classificar lá, de nada terá adiantado todo o trabalho que fiz nos últimos anos. A gente faz um planejamento para quatro anos, que é o ciclo olímpico. E quero chegar ao topo deste ciclo, que é estar na Olimpíada e buscar lá uma medalha. Vou dar o meu máximo para estar na Olimpíada.
Folha: Este acúmulo de competições pode te atrapalhar?
Natália: Não. O atleta tem que estar consciente da sua capacidade, do momento em que ele se encontra e do campeonato que ele vai disputar. São três competições diferentes que não me trazem mais pressão, nem responsabilidade. Tenho esse calendário para cumprir e o que vai me deixar feliz é se eu conseguir cumprir o planejamento que fiz para o ano.
Folha: O nível das competições mundiais é mais alto que o do Pan?
Natália: São coisas diferentes. Num Mundial são mais categorias e aí luto só contra meninas do meu peso. Já no Pan-Americano são as categorias olímpicas (apenas quatro para mulheres e quatro para homens), o que aumenta a concorrência. O taekwondo é um esporte que depende muito de incentivos do governo. E os governos e comitês olímpicos de muitos países sul-americanos têm retorno somente nos Pans e Olimpíadas, que são eventos polidesportivos. Por isso, para muito atleta de taekwondo um Pan é a chance da vida dele. Daí ele luta tudo o que pode porque tem que mostrar resultado e sofre muitas cobranças.
Folha: E para vocês brasileiros? Haverá muita pressão pelo título por parte do COB?
Natália: Sim, mas eu acho que o COB tem mesmo que esperar por bons resultados porque é um órgão que está investindo no esporte. Ele tem esse direito (de cobrar). Mas cabe ao atleta saber aonde ele quer chegar, o que ele pode, o seu sonho e a sua real condição para ser campeão. Essa coisa da pressão por competirmos no Brasil é muito complicada. O atleta pode sentir pressão, mas se ele se preparar bem, a torcida e a imprensa local podem fazer a diferença a seu favor. Acho que o segredo é evitar o oba-oba, estar centrado e não desfocar do treinamento. Porque pode ter certeza que a mídia e os interesses vão aumentar à medida que se aproximar o Pan.
Folha: Os maiores adversários no Pan são quais países?
Natália: Eu não descarto ninguém. Na minha categoria serão nove lutadoras e o taekwondo pode ser decidido num dia. Um detalhe pode fazer a diferença. Se você descuidar de uma menina de Porto Rico, por exemplo, pode não ir para uma semifinal. Como são poucas categorias, vão para o Pan somente as melhores de cada País. Os Estados Unidos são fortes, mas eu coloco todo mundo como adversário difícil. Tem o Canadá, o México, Cuba, Venezuela, República Dominicana, todos...


