Foi um dia e meio de angústia até que veio o alívio. A expressão no rosto de Héber Roberto Lopes na sexta-feira, dois dias após ter sido acusado indiretamente na CPI dos Bingos pelo empresário Nagib Fayad, o Gibão, de manipular jogos de times cariocas no Campeonato Brasileiro, era a de quem estava com a sensação de que a justiça havia sido feita. Demonstrando tranquilidade, o árbitro londrinense recebeu a reportagem da Folha em seu apartamento para uma entrevista exclusiva. Desabafou e deixou no ar uma mágoa do ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho e do próprio Gibão. ''Ele abalou muito a minha vida'', revelou Héber, 33 anos, que cursa Jornalismo e pretende, no futuro, ser comentarista de arbitragem.
Folha: Primeiro o Edílson, indiretamente, envolveu você nessa história de manipulação de resultados. Agora ele afirma que foi um equívoco e que você não faz parte da máfia do apito. Como você viu isso tudo?
Héber: Primeiro, não é que ele me envolveu, ele envolveu todos os árbitros que atuavam em partidas no Rio de Janeiro. Segundo, o depoimento lá daquele cidadão, que eu não vou citar o nome, o Edílson, que já tinha uma intimidade com esse rapaz, opinou que apostasse naquela rodada, porque ele não ia trabalhar, nos clubes do Rio de Janeiro. Coincidentemente eu estava apitando um jogo do time do Rio, que ele sugeriu para que esse cidadão apostasse, mas a aposta não foi feita e mesmo assim ele ressaltou que o árbitro que atuaria naquela partida era caseiro e que tinha tendência a ajudar os times do Rio de Janeiro. Por isso fui citado indiretamente na CPI dos Bingos.
Folha: Mas por que você acha que Edílson fez isso?
Héber: Tudo o que o Edílson fala, você fica com o pé atrás, até porque, depois que a pessoa demora tanto para chegar ao quadro internacional e no meio dessa trajetória ele é perdoado porque tinha um diploma falso do segundo grau para entrar no quadro da CBF, então você vê que essa pessoa não tem uma boa conduta. Você não dá tanta credibilidade no que ele cita. E ele citou, já em outras vezes, que os árbitros que apitavam no Rio de Janeiro atuavam sobre pressão.
Folha: Você nunca foi pressionado?
Héber: Olha que eu tenho grandes jogos no Rio e nunca fui pressionado por nenhum dirigente, por nenhum membro da Comissão de Arbitragem nem por ninguém da CBF. Em nenhum lugar do Brasil. A única coisa que o seu Armando (Marques, ex-presidente da Comissão de Arbitragem, deposto pela CBF após o escândalo da máfia do apito) solicitava era para que entrasse e atuasse de forma correta, corresse o campo e desse para ele uma grande arbitragem. Depois dos jogos ele também ligava, porque se você tivesse feito uma arbitragem com algum tipo de erro você era corrigido e se tivesse feito um bom trabalho era exaltado. Jogos no Brasil, Libertadores, torneios internacionais, o seo Armando me ligou dizendo para representar bem o País. Nunca, nunca, nunca foi solicitado para que a gente tivesse qualquer tipo de benefício.
Folha: Você foi afastado preventivamente desta rodada, mas a CBF já adiantou que vai escalá-lo na próxima. Essa confiança demonstrada pela CBF e pela Comissão de Arbitragem foi importante para você?
Héber: O próprio Edílson citou que eu era protegido do seo Armando Marques. Mudou a comissão, entrou o doutor Edson Resende, e há três dias ele citou que eu estaria entre os três melhore árbitros do País. Com toda modéstia eu fico muito contente e em relação ao afastamento eu acho que foi uma atitude correta, pois se eu cometesse algum erro nesse final de semana, com certeza a coisa teria uma envergadura maior. Então, eu achei que ele foi correto na sua decisão. Fiquei feliz porque no dia seguinte Resende foi o primeiro a dar entrevista dizendo que eu não tinha nenhum vínculo com esse tipo de pessoa. Para a CBF eu sempre fui um arbitro de responsabilidade, que eles confiam. Fiquei feliz com esse respaldo.
Folha: Você se considera um dos três melhores árbitros do Brasil?
Héber: Não vou dizer entre os três melhores porque nós temos grandes árbitros. Eu acho que o Márcio Rezende de Freitas, que pára esse ano, é um excelente árbitro. Carlos Eugênio Simon e Wilson de Souza Mendonça têm um currículo invejável, o próprio Paulo César de Oliveira. O quadro da Fifa está repleto de grande árbitros e faltaria modéstia minha eu citar que estaria entre os três. Prefiro que as pessoas que analisam e comandam falem isso.
Folha: O Santos deve pedir a anulação do jogo contra o Botafogo, que você apitou. Isso incomoda você e teme que será sempre colocado em xeque?
Héber: Não, eu não temo. O tribunal que vai analisar e acho que não cabe a mim julgar o que o clube está tentando na Justiça. Ele tem todo o direito.
Folha: Você teme algum prejuízo na carreira?
Héber: Inicialmente, quando fui citado na CPI, eu estava meio transtornado, porque não sabia direito o que estava se passando, achei que seria uma coisa negativa. Mas depois, analisando, conversando com as pessoas, meus advogados e o próprio doutor Edson, eu senti que será uma coisa positiva. Com certeza será feita uma análise dos jogos que fiz, a própria Polícia Federal e o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) de São Paulo já disseram que têm mais de 20 mil horas de gravações e em nenhum momento meu nome foi citado. Voltando a atuar na competição, tenho certeza de que minha credibilidade aumentará. Vai ser positivo para com o público.
Folha: E como foi o contato com os torcedores desde a denúncia até agora?
Héber: Tenho recebido muito apoio, inclusive recebei cartas, telefonemas dos companheiros de arbitragem. Acho que recebi um telefonema de cada estado do Brasil. Aqui no prédio onde moro, os amigos todos me apoiaram. Atendi toda a imprensa londrinense e de fora porque quando você não teme a nenhum tipo de acusação você tem mais é que abrir o peito e ir atrás dos seus direitos.
Folha: Você tinha algum tipo de relacionamento com o Edilson?
Héber: Nós nos encontrávamos no meio do ano pra fazer os testes da Fifa e eu trabalhei com ele em uma partida da Libertadores, na Argentina, num jogo do River Plate.
Folha: Você se considera um árbitro polêmico?
Héber: Sou um árbitro comum, que apito com frequência como os outros árbitros do quadro da Fifa, só que os meus jogos e os meus erros são mais questionados na mídia do eixo Rio-São Paulo.
Folha: Isso acontece porque você é de fora desse eixo?
Héber: Não sou uma unanimidade entre os comentaristas de arbitragem. Não sei se é pelo comportamento, se é porque tive alguns jogos polêmicos no passado, como outros tiveram.
Folha: Você é perseguido?
Héber: Não digo perseguido, digo que os comentaristas poderiam, nos meus jogos, fazerem uma análise diferente. Tenho que tocar a vida e torcer para que isso mude.
Folha: A responsabilidade de agora em diante aumenta para você e para todos os árbitros?
Héber: Com certeza. Depois que o Edílson foi réu confesso, disse todas as bobagens que cometeu, nós já sabíamos que a coisa seria mais difícil, que nós seríamos mais vigiados e teríamos que ter mais cuidado nas nossas decisões.
Folha: Por que você decidiu ser árbitro?
Héber: Comecei muito jovem, com 14 anos já apitava nos clubes de Londrina. Surgiu convite para jogar (era atacante). Podería até atuar, mas surgiu o convite primeiro da Liga Londrinense de Futsal, através do Amarildo Vieira Martins. As oportunidades foram aparecendo e com 16 anos já me tornei árbitro da Federação Paranaense de Futebol (FPF). Com 17, já estava na CBF.
Folha: Só falta a Copa do Mundo para você se sentir realizado?
Héber: Primeiro tenho que voltar à regularidade dos jogos de 2002. Um dos objetivos é atuar em um torneio mundial de seleções. Em 2006, o Simon já é o convocado com todo mérito. Em 2010 não teremos mais o Márcio Rezende, o Simon e o Wilson, então vamos torcer para fazer um bom trabalho.
Folha: Para qual time você torce?
Héber: Londrina. Até peço para a FPF não me escalar para jogos do Londrina.
Folha: E essa ''máfia do apito'' paranaense?
Héber: O Evandro (Rogério Roman, árbitro que entregou os colegas corruptos) há um tempo já havia dito que houve alguma coisa na região de Cascavel. Ele só estava esperando conseguir as provas para ele ir até o tribunal e denunciar essas pessoas. Eu acho que ele foi feliz, corajoso. Esse é o caminho. Quem ficar no futebol tem de ser sério e idôneo. O futebol brasileiro não tolera mais essas pessoas que vêm só pra sujar o nome. Digo tanto na arbitragem, como diretorias e na própria FPF. É o momento da limpeza.

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