São Paulo - Pela primeira vez na vida, Edmundo esperou o telefone tocar e ele não tocou. A dois meses de completar 33 anos, o jogador percebeu as várias portas que seu gênio explosivo fechou. Mesmo estando disponível, não recebeu convite do Palmeiras, do Corinthians, do Santos nem do Cruzeiro, clubes que já tiveram o prazer de contar com seu futebol. E o desprazer de lidar com seu gênio explosivo.

''Só não fui jogar em São Paulo por falta de convite'', diz, sincero. A saída foi fechar com o sofrido Fluminense, levado pelas mãos de Romário. Depois de tudo que viveu, o atacante deixou escapar o que se passa no seu íntimo. ''Eu poderia ter sido o melhor jogador do mundo. Não fui porque não tive orientação'', reconheceu em duas horas de entrevista exclusiva à reportagem.

Na sua amada Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, o jogador fez uma análise sincera de pontos fundamentais da sua vida. Enfrentou com coragem assuntos que eram tabu, como o assassinato de seu irmão Luizinho por traficantes, seu filho com Cristina Mortágua, a acusação de agressão à mulher Adriana, a psicanálise e, principalmente, a condenação a quatro anos e meio de prisão pelo acidente em 1995, que causou a morte de três pessoas. Ele pode ser detido a qualquer momento.

Edmundo falou muito sobre futebol, o fim da briga com Romário (que possibilitou a sua volta ao Fluminense) e a aversão a Marcelinho Carioca. Assumiu que foi uma decepção na seleção brasileira; contou que foi o primeiro a agir no ataque epilético de Ronaldo na Copa da França; comentou a decepção com Zagallo, que o comparou a Amarildo duas horas antes da final da Copa de 1998 e a meia hora do jogo começar o dispensou sem a menor consideração. ''Comigo acaba a era dos bad boys no Brasil. Ninguém mais é sincero. Os jogadores de hoje estão domesticados.''

Agência Estado - Não dói ver jogadores piores do que você cultuados na Europa? Você não desperdiçou dinheiro e chances de ouro na sua carreira?

Edmundo - Nos últimos tempos, pensei muito sobre isso. E cheguei a uma conclusão: eu poderia ter sido o melhor jogador do mundo. Potencial eu tinha. Só não fui porque não tive orientação. Nasci pobre, na periferia do Rio. Meu pai era barbeiro e minha mãe, empregada doméstica. Sem perspectivas. Mas meu talento mudou tudo. Infelizmente faltaram pessoas que direcionassem minha carreira. Poucas pessoas pararam para pensar que o meu empresário de anos foi o Pedrinho Vicençote, que estava começando a carreira fora do futebol. Não era vivido. Mas não vou reclamar. Tudo que conquistei nasceu da sinceridade, do instinto. Se fosse falso e agisse com a razão, poderia estar muito melhor.

AE - Você rasgou dinheiro?

Edmundo - Graças a Deus eu não posso reclamar do que sobrou. Sou sócio de uma financeira em São Paulo e tenho imóveis. Vou viver muito bem até o fim da minha vida. Meus filhos também. Poderia ter ganho muito mais. Mas não me preocupo. Santos, Vasco, Flamengo e Napoli me devem. Tenho mais ou menos US$ 5 milhões para receber. Estou na Justiça contra esses clubes. Vai demorar, mas vou receber. Poderia ter aproveitado minha imagem de ídolo na mídia para fazer mais publicidade. Mas eu não reclamo.

AE - Por que tantas brigas nos seus rompimentos com os clubes?

Edmundo - Por vários motivos. Assumo que errei várias vezes. Fui sempre seguindo o meu coração. No Palmeiras, por exemplo, era feliz demais e não sabia. Era tratado bem demais, o time era excelente. Acabei caindo no conto do Flamengo. Fiquei empolgado para formar um grande time com Romário, Sávio... E estava cansado da palhaçada de ter de comer em churrascaria de graça depois dos jogos do Palmeiras. Os jogadores não comiam em paz. Tinham de ficar dando autógrafo enquanto os dirigentes comiam sossegados. O Palmeiras não precisava disso para economizar. Todos os jogadores estavam putos. Mas eu tive coragem de falar e acabei saindo. Depois veio o Santos, onde o presidente Marcelo Teixeira me contratou dizendo que tinha 20 mil alunos e meu salário estava garantido. Mas não pagou. No Corinthians foi tudo muito rápido. Depois falei aquela bobagem de que São Paulo para mim, só de avião. Agora não voltei para atuar em clubes grandes paulistas por falta de convite.

AE - O Vasco também ficou devendo muito dinheiro a você...

Edmundo - O meu problema com o Vasco foi muito analisado na terapia. Por ser o clube do meu coração, achava que as pessoas iriam fazer tudo para me proteger. Eu confiava cegamente nas pessoas. Principalmente no Eurico Miranda. Infelizmente, como muitas vezes aconteceu na minha vida, tive de me decepcionar para aprender. Mas aprendi da pior maneira que tenho de tratar o Vasco como trato os outros clubes. E isso foi muito difícil, não tenho vergonha de assumir.

AE - Suas passagens pelo exterior também tiveram confusões.

Edmundo - Meu grande erro foi ir para a Fiorentina. Estava no auge. Só que cheguei lá com a minha alma no Rio. Tinha saudade da praia, dos amigos. Fui porque havia assinado um pré-contrato. Queria ter ficado no Rio. O Milan e a Juventus se interessaram por mim, só que eu já tinha um acordo com o Eurico Miranda e voltei para o Vasco, que eu achava que era a minha casa. Bobagem. No Napoli foi insuportável. Você não pode sair na rua quando joga bem nem quando joga mal. Os torcedores não deixam você em paz.

AE - No Japão também você fez força para sair...

Edmundo - No Verdy até que foi tudo bem. A não ser uma briga que tive com o Lori Sandri. O time ganhava e a gente não se falava. Duro foi quando quis trocar. Fui para o Urawa. O Verdy e o Urawa ficam à mesma distância de Tóquio. Só não levei em consideração o trânsito. Troquei 20 minutos por duas horas. Depois começou o inverno, que é terrível. Eu fui com um amigo para lá. A namorada dele ficou grávida e ele teve de voltar. Não quis ficar sozinho e pedi para voltar ao Brasil. Com essas saídas, perdi dinheiro. Poderia ter enganado os clubes e fingir que jogava até acabar os contratos, mas não sou assim. Quando um trabalhador não está feliz na sua empresa, tem de sair. Foi o que fiz. E assumo minhas decisões.

AE - Não dá para entender a vantagem de ser bad boy.

Edmundo - A vantagem é fazer o que o seu coração manda. Mas pode ficar sossegado que comigo acaba a era dos bad boys. Ninguém mais é sincero. Hoje os jogadores estão domesticados. Todos têm empresários e assessores de imprensa que os orientam em cada declaração. Tudo que fazem, pensam mil vezes antes. Por um lado é muito bom, porque eles não se expõem. Mas tudo fica muito artificial. Só que não tem volta. Será assim daqui para a frente. Talvez seja melhor para esses garotos que estão surgindo agora.

AE - Por falar na relação entre jogador e ídolo, o que aconteceu de verdade entre você e o Romário?

Edmundo - Vou falar. Quando eu surgi no Vasco, fui logo adotado por ele. Ele era mais do que um companheiro para mim. Era um ídolo. Eu copiava, fazia tudo como ele. Larguei o Palmeiras e fui para o Flamengo por causa dele. Só que com o passar do tempo passei a ser rival. Passei a concorrer, fazer gols, jogadas, dividir a atenção da mídia. Competíamos em tudo.

AE - Inclusive mulheres?

Edmundo - É... também. Tudo é tudo. A amizade esfriou. Faltou maturidade dos dois. Depois fui para a Itália e soube que ele tinha colocado o meu desenho na porta do banheiro da boate dele. Eu estava sentado em uma bola murcha de frente para a Cristina Mortágua. Liguei para ele porque achei sacanagem. Ele respondeu que estava ''dando moral'' para mim. Fiquei puto.

AE - Mas vocês voltaram a jogar no Vasco...

Edmundo - Sim. Mas o relacionamento não era o mesmo. Houve confusões com faixa de capitão, pênalti... Nós nos afastamos, mas tínhamos muitos amigos em comum. Há pouco tempo fiz um churrasco na minha casa. Um amigo resolveu levar o Romário. Esse amigo o trouxe para perto e falou: ''Vocês dois precisam acabar com essa 'veadagem'. Nós nos olhamos, rimos e começamos a conversar. Senti que o que tinha passado, acabou. Foi melhor assim. Hoje posso jogar com ele no Fluminense sem o menor problema. Aprendemos a nos respeitar. Somos grandes jogadores e ídolos. Não dá mais para ser infantil.

AE - E o Marcelinho Carioca?

Edmundo - Ah, com ele é completamente diferente. Tem pessoas com as quais você não quer conviver. Com o Marcelinho eu não quero. Estava no Vasco em um time ruim e o Marcelinho chegou. Ele me procurou e eu o tratei muito bem. A equipe era fraca, perdeu cinco seguidas e eu me machuquei. Quando fiquei fora, o time ganhou uma, do Grêmio. Time pior que o nosso. O Marcelinho vai lá e fala que o Vasco finalmente tinha vencido porque jogou sem estrelismo. Ou seja: sem o Edmundo. Fiquei louco e parei de falar com ele. Depois ele vem me pedir desculpa longe da imprensa. Só que no mesmo dia tinha acertado com a Arábia. Abandonou o time que ele sabia que era fraco e deixou a impressão que saía porque tinha brigado comigo. Não quero saber de gente assim. Ele não arca com o que faz.

AE - Sua carreira nos clubes teve momentos maravilhosos. Por que não na seleção brasileira?

Edmundo - Sou sincero: não fui o jogador que poderia ser na seleção. Por minha causa. Sempre esperei que chegasse um técnico e me desse a segurança de que eu atuaria dez jogos seguidos entre os titulares. Não tive confiança. Minha característica sempre foi arriscar jogadas difíceis: dar meia-lua, jogar a bola no meio das pernas dos zagueiros. Nos clubes tentava dez dribles e tudo bem. Na seleção tentava duas fintas. Se não desse certo, olhava para o banco e via o treinador já conversando com o meu reserva. E bons atacantes o Brasil sempre teve de sobra. Hoje, mais vivido, sinto que o problema era meu. Não dava para ficar esperando pelos técnicos.

AE - O que aconteceu na final da Copa da França? Vamos por partes: primeiro, com o Ronaldo.

Edmundo - Olha, sei que muita gente até hoje não acredita, mas foi uma das coisas mais impressionantes da minha vida. Eu estava no meu quarto e levantei para ir ao banheiro. Passo e vejo no outro quarto o Roberto Carlos de walkman, olhando para cima. Do lado estava o Ronaldinho se tremendo todo. No começo pensei que era sacanagem. Mas depois vi que era sério e gritei para o Roberto Carlos, que chamou todo mundo. Eu segurei a boca do Ronaldinho, que estava roxa, e o César Sampaio segurou a língua para ele não engolir. Depois ele foi para o hospital. E o Zagallo me chamou.

AE - O que ele falou?

Edmundo - Ele veio com uma conversa dizendo que havia sonhado que eu seria aquele cara da Copa de 62 que entraria no time de surpresa e ganharia a Copa para o Brasil. Como é o nome dele? Sim, o Amarildo. Falou por uma meia hora. Só que o meu instinto não deixou vir aquele friozinho na barriga de quem vai entrar numa final de Copa. Foi o que me ajudou a suportar quando apareceu o Ronaldinho no vestiário. Nós tomamos um susto. Porque estamos acostumados com os hospitais brasileiros, que demoram horas para fazer exames. Na França foi rapidinho. Ninguém entendeu nada. E o pior é que ele estava tão bem que quando fomos contar o que havia acontecido ele pensou que fosse sacanagem.

AE - E o Zagallo? Como ele explicou que você não jogaria?

Edmundo - Ah, foi bem diferente da conversa sobre o Amarildo. Nunca vou esquecer. Ele disse: ''Edmundo, você vai esperar um pouquinho. O Ronaldinho vai jogar.'' Só. O pior não foi ficar fora. Foi o Ronaldinho não sair. Ele tinha quase morrido horas antes. Entrei depois do intervalo no lugar do Bebeto. Isso porque eu ia decidir o jogo. Imagine se eu não fosse decidir... Iria entrar quando?

AE - Mudando de assunto, sua vida pessoal também teve muitos traumas. Como foi para você a morte do seu irmão Luizinho?

Edmundo - Foi terrível. Eu estava no Japão quando soube da notícia (Luís Carlos foi encontrado morto, baleado, no porta-malas de um carro. Tinha 28 anos). Foi uma triste surpresa. É difícil para mim falar sobre isso (os olhos de Edmundo ficam marejados). Ele era viciado em cocaína. Eu paguei mais de 20 internações. Em uma crise, ele chegou até a ir à minha casa roubar televisão para trocar por pó, coisa de viciado. Minha mulher só chamou a polícia porque não tinha visto que era ele. Um dia, apareceu dizendo que estava curado. E parecia mesmo. Resolvi contratá-lo para trabalhar no meu escritório no Rio. Quando pensei que tudo estava bem, tive a notícia de que ele tinha sido assassinado. Foi uma cobrança de droga que acho que estava vendendo e não pagou. Nunca se soube ao certo. Quem mexe com droga sempre tem seu castigo. Mas eu tentei fazer de tudo para salvá-lo. Tudo.

AE - E sobre o filho que você tem com a modelo Cristina Mortágua fora do casamento? Como é o seu relacionamento com ele?

Edmundo - Infelizmente, nenhum. A situação é delicada. Eu e a Cristina não nos damos. Tudo que era complicado se tornou muito mais depois que ela passou a viver com o Djair. Ele é jogador de futebol, crescemos juntos, somos, ou éramos, amigos. O Alexandre tem 9 anos e fica no meio da confusão. Gostaria que convivesse com os dois filhos que tenho com a Adriana a Ana Carolina e o Edmundinho. Mas é impossível. Sinto muito por ele. Sou pai. Torço para que esteja bem.

AE - E o seu casamento? Como você conseguiu superar a crise, que teve até acusação de agressão?

Edmundo - Graças a Deus meu casamento está bem. Eu superei a maior crise com a Adriana. Não teve agressão coisa nenhuma. Nós tivemos uma discussão muito forte e nos agredimos por palavras. Fui para fora de casa e estávamos até tratando da separação. A Adriana arrumou um advogado que bloqueou todas as minhas coisas na Justiça. Nem conta corrente eu movimentava. A ganância desse sujeito estava nos separando de vez. Quando a Adriana entendeu isso, pudemos conversar. Ela disse que não queria meu dinheiro. Percebi de vez a mulher que tinha e não queria perder. Conversamos e nos acertarmos.

AE - Que bem lhe fez a análise?

Edmundo - Foi fundamental para descobrir o porquê de várias atitudes que tomei. Aprendi a me conter, compreender os outros e eu mesmo. Está sendo maravilhoso. Vou pelo menos duas vezes por semana.

AE- Você foi condenado a quatro anos e meio de prisão pelo acidente em 1995, quando três pessoas morreram. A sentença pode ser efetivada a qualquer momento. O que pensa disso?

Edmundo - Várias coisas. A primeira é que lamento de coração tudo o que aconteceu. Sinto muito pelas pessoas que morreram e suas famílias. Foi o pior momento da minha vida. Paguei tudo o que a Justiça mandou. Ficou provado que, mesmo saindo de uma choperia, eu não tinha álcool ou droga no sangue. O problema foi a curva, que era muito inclinada. Tanto que foi mudada depois do acidente. O garoto que bateu na minha Cherokee estava dirigindo um Uno, não tinha carta e o carro não era dele. Mesmo assim fui condenado e não posso usar o fato de ser primário.

AE - Por quê?

Edmundo - Paguei pela fama de ''Animal''. Fizeram várias matérias me prejudicando. Processei a Veja e um colunista do Globo. Ganhei essas ações na Justiça. Tudo que foi escrito influenciou muita gente. Tanto que o juiz que me julgou disse que por causa das atitudes em campo eu teria de ir para a cadeia. Ele misturou o atleta com o ser humano comum. Isso não tem cabimento.

AE - Você tem medo de ser preso?

Edmundo - Tudo está se arrastando desde 1995 e precisa ter um fim. De um jeito ou outro. Não aguento mais essa ameaça. Estou pronto para tudo. Quero resolver e viver mais sossegado. Paz é tudo que eu quero.

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