ENTREVISTA: DAYANE CAMILLO - 'Foi uma fatalidade'
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sábado, 04 de setembro de 2004
Gilmar Agassi<br> Reportagem Local 
A ginástica rítmica (GR) brasileira entra em uma nova fase após a oitava colocação na competição de conjuntos dos Jogos Olímpicos de Atenas. A técnica Bárbara Laffranchi e a capitã e mais experiente atleta da seleção, a londrinense Dayane Camillo, 26 anos, anunciaram suas aposentadorias antes mesmo de viajarem para a Grécia. O resultado em Atenas, abaixo do esperado, e os amigos podem convencer Dayane a continuar defendendo o selecionado nacional, quem sabe até a próxima Olimpíada.
Dayane começou a praticar GR com seis anos. Há 14 anos integrando a seleção brasileira, ela é bicampeã dos Jogos Pan-Americanos venceu em Winnipeg e Santo Domingo , conquistou ainda o bronze no Pan de Mar del Plata-95, além de ter participado das Olimpíadas de Sydney e Atenas.
Aproveitando para descansar, após a dura rotina de treinos da seleção brasileira, Dayane recebeu a reportagem da Folha em sua casa para falar sobre a carreira, os planos para o futuro, os erros cometidos nas apresentações olímpicas, as conquistas. Em seu quarto, a ginasta guarda cartas e presentes recebidos dos fãs, medalhas e fotos da competições. Sobre a cama, uma bandeira do Brasil. ''Antes de viajar falei para minha mãe não tirar a bandeira de cima da cama.''
Folha: Você realmente está decidida a encerrar sua carreira?
Dayane Camillo: Tenho contrato com a Unopar até dezembro. Nesse período haverá o Campeonato Brasileiro e pretendo cumprir o contrato. Depois... o futuro a Deus pertence.
Folha: Existe a possibilidade de você continuar após o Campeonato Brasileiro?
Dayane: A mãe da Bárbara (Laffranchi, técnica) e ela já conversaram comigo e perguntaram seu ainda quero continuar ou não, se quero ficar um ou dois anos ou até a próxima Olimpíada. Elas acham que meu corpo aguenta ainda. Eu posso ser um pouco mais velha que as meninas na idade, mas é o que elas falaram meu corpo é muito resistente, entendeu? Eu salto bem, eu tenho várias qualidades. Mas eu não posso falar nada ainda. Não tenho certeza de nada porque ainda não parei para pensar na minha vida. Vou pensar nisso, realmente, depois do Brasileiro. Se for para continuar, quero me dedicar de corpo e alma, como sempre fiz. Por isso preciso pensar bem.
Folha: Você acha que foi prematuro anunciar sua aposentadoria antes da Olimpíada?
Dayane: É, isso que eu estava conversando com a Bárbara. Eu acho que não deveria ter falado tanto. A imprensa falou muito também. Pode ter sido aí que começou a cair a ficha que eu iria parar de treinar, e eu gosto muito disso, tenho amor pela ginástica rítmica. Tenho amor fazendo ginástica rítmica, faço de todo meu coração e não por dinheiro. Por isso, acho que deveria ter anunciado depois. Pode ser que tenha pesado um pouquinho na minha cabeça.
Folha: Além dessa questão da aposentadoria, o fato de você ser a mais experiente do grupo atrapalhou também?
Dayane: Eu não sei. Eu andei vendo algumas reportagens, com pessoas falando que sim, que eu não dormia. Eu fiquei um pouquinho mais ansiosa. Meu coração não estava preparado, ainda, para entrar em uma quadra sabendo que eu iria me aposentar, fazendo aquilo que eu mais amo. A ansiedade pode ter pesado um pouquinho, mas eu falei para a Bárbara não entrei na quadra pensando na aposentadoria. Entrei pensando que eu queria dar o meu melhor. Eu acho que foi uma fatalidade o que aconteceu. Quem está ali no meio está sujeito a isso mesmo. O erro do arco nunca tinha acontecido antes, não sei como pode ter acontecido aquilo.
Folha: Em que momento você percebeu que havia errado na apresentação?
Dayane: Isso é imediato. Você lançou, já sabe onde foi o aparelho. Na hora que eu lancei, eu gritei: 'Ana Maria (Maciel) pega', porque eu senti que tinha sido curto. Conjunto é isso mesmo. Esse é o problema de você lançar errado. Não tem como a outra corrigir, só se ela for muito rápida. É difícil isso. A Ana não estava acostumada com um erro desse. Esse é o lançamento mais fácil que tem na série. Por isso que eu falo que foi uma fatalidade. Quando eu errava nos treinos não era curto, porque, para lançar, eu sou muito forte e errava para longe. É algo que eu ainda não encontrei explicação.
Folha: Qual o sentimento após o término da apresentação?
Dayane: Eu fiquei triste. Eu sou muito perfeccionista comigo mesma. Talvez se outra tivesse errado, para mim, não teria tanto problema. Mas eu não me perdoô dos meus erros. Eu saí triste comigo. Eu me questionei: 'Como pode ter acontecido isso?' Tanta coisa difícil que eu faço na apresentação. Na série de arco e bola eu faço muita coisa difícil, eu lanço os dois arcos com o pé, passo no meio da Ana, são movimentos extremamente difíceis, que poucas pessoas no mundo conseguem fazer. E em um exercício tão bobo, eu errei. Agora, o erro da fita, para mim é tranquilo. Quem é leigo não sabe o que aconteceu. Não sabe que tinha um laço na fita. Quanto a isso estou tranquila, o problema foi mesmo o arco e bola.
Folha: Você já está recuperada dos erros?
Dayane: Não. Tanto é que parei para ver alguns vídeos, jornal não vi muito. Só vi algumas coisas, porque eu não queria ver muito. Eu sou e estou muito emotiva. Estou de coração apertado ainda. Mas acho que vai passar. Tudo passa na vida e ficam as recordações. Nem estou ficando muito em casa, para não ficar sozinha e chorando.
Folha: Esse foi o momento mais triste da sua carreira?
Dayane: Acho que foi, porque eu não sou acostumada a errar muito. É muito difícil errar nos treinos. Antes de entrar na quadra, eu estava um pouco insegura com o primeiro exercício de arco e bola, quando lanço os arcos com os pés. Na hora que passou eu me aliviei. Eu fiquei muito triste em errar no exercício mais fácil. Mas isso tudo não apaga nada que eu fiz pela ginástica rítmica. Hoje a GR está onde está porque eu ajudei também. Eu fui em Mundiais em que nosso conjunto era o último colocado. Tudo que eu faço tem um grau de dificuldade muito grande. São originalidades que o Brasil tem, que ninguém tem. Estou tranquila porque eu sei que fiz a minha história na ginástica rítmica. Eu me dediquei de corpo, alma e coração. Não posso esquecer tudo que fiz pela ginástica rítmica. As pessoas estão me ajudando bastante. Eu achava que era uma supermulher, que não podia errar. Mas estou aprendendo bastante com esse erro.
Folha: E qual foi o momento mais feliz?
Dayane: Tive vários momentos marcantes. Winnipeg (Pan-Americano) foi um, porque um mês antes havíamos perdido para o Canadá. A gente não estava esperando ganhar a medalha de ouro. Sydney (Olimpíada) foi um marco na minha história. Apesar da injustiça dos árbitros, o público vaiou as notas. Em Santo Domingo (Pan-Americano) a equipe estava totalmente renovada, meninas novas, e a gente conseguiu manter o título. Atenas vai me marcar muito. Estou tentando não lembrar muito. Mas me marcou bastante porque teve várias coisas boas que aconteceram, não só a competição. Depois que eu saí da quadra, após a apresentação, as meninas ficaram do meu lado. Me incentivaram bastante, falaram que se eu não estivesse ali, nós não teríamos chegado na final.
Folha: Quem é a sua sucessora na ginástica rítmica?
Dayane: Não sei. É o que a Bárbara fala: 'Quando você sair, vai ter que ensinar tudo que você sabe.' Não tem que escolher a melhor de todas, tem que pegar a que tiver mais coragem. E eu não sei dizer, nesse momento, qual delas seria minha sucessora. Talvez até mude o estilo de apresentação da seleção brasileira e no futuro não tenha as originalidades que têm agora. Acho que terão outras originalidades porque a Bárbara é muito criativa. Não posso responder como será. Caberá a Bárbara escolher. Você tem que confiar na menina. Às vezes você escolhe uma e não é aquela, e precisa escolher outra.
Folha: É difícil o convívio em equipe?
Dayane: É igual a uma família. Você conhece o lado bom e o ruim das pessoas, suas qualidades e defeitos. Mas todo muito se respeita ali dentro.
Folha: E a necessidade de controlar o peso?
Dayane: A menina quando entra na ginástica rítmica tem que saber que o biotipo é importante, vai ter que ser magra e saber que não pode comer de tudo. Mas essa equipe era tranquila, sabia de tudo isso. Apesar de ter ocorrido problemas de peso, é uma equipe bastante unida. Uma ajudava a outra, dava força quando a outra não estava bem. Acho que quase todas as meninas da seleção fariam tudo de novo. O que a gente passa ali é muito pouco pelas vitórias e conquistas que a gente recebe. E, tem outra, ninguém passa fome. Tem que regular, mas isso é muito pouco perto de tudo que você recebe de bom.
Folha: De que você abriu mão em sua vida pela ginástica rítmica?
Dayane: Deixei de lado muitas coisas, amizade, namorado, comida. Mas, volto a dizer: acho tudo isso muito pequeno por tudo que acrescentou a ginástica rítmica na minha vida. Agora, me perguntam: 'O que você perdeu em sua vida?' Eu não perdi nada, eu ganhei muita coisa com a ginástica. Ganhei muito mais do que perdi. O que eu perdi não era para ser meu mesmo. Eu amadureci muito cedo, sempre tive meu dinheiro. Não recebo o tanto que gostaria por estar na seleção, mas eu recebo. Todas minhas amizades fora da ginástica rítmica compreendem, sabem como funciona minha vida.
Folha: Você já afirmou que pensa em trabalhar com televisão. Você, realmente, pensa nisso ?
Dayane: Esse sempre foi um sonho. Mas depois que eu saí da quadra em Atenas não consegui pensar em mais nada. Mas esse sonho sempre vai estar comigo porque eu sempre amei a ginástica rítmica e alimentei esse sonho. Isso eu ainda não consegui concretizar, mas, talvez, ainda consiga. A única coisa que pensei nesses últimos dias foi na ginástica rítmica.


