ENTREVISTA: AMARILDO VIEIRA MARTINS 'O momento é da Portuguesa'
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sábado, 16 de setembro de 2006
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Ele é um lutador. Sozinho, conseguiu manter a Portuguesa Londrinense viva até que conseguiu reunir um grupo forte de parceiros para colocá-la de volta na Primeira Divisão do Campeonato Paranaense. Amarildo Vieira Martins, homem-forte da Lusinha, dirigente mais folclórico da Era moderna do futebol londrinense, é só alegria. Ele mudou, está mais calmo, menos encrenqueiro e mais dirigente do que torcedor.
Em entrevista exclusiva à Folha, o cartola falastrão abre o seu coração. Fala das dificuldades, da rivalidade com o Londrina, dos famosos pés de frango e do futuro lusitano ou do Grande Londrina.
Folha: Qual a sensação de ter voltado à Primeira Divisão?
Amarildo: Sensação gostosa, de dever cumprido, que você entende de futebol e não é tão bobo assim. Se sente valorizado. Eu montei com muito carinho esse grupo, com jogadores daqui ou que passaram várias vezes por aqui. Eu tinha certeza que iria alcançar o objetivo. Principalmente com a chegada do Dirceu (Mattos, técnico). Foi um casamento perfeito: Dirceu, Amarildo, jogadores, diretoria. Nós tropeçamos em dois jogos, mas abraçamos a causa. Apostamos no grupo e chegamos. Ganhamos de tudo e de todos. Foi Davi contra Golias.
Folha: Você sempre teve como característica o temperamento forte, principalmente com treinadores. Às vezes demitia o técnico antes mesmo dele estrear. Este ano você mudou. O que aconteceu?
Amarildo: Um dos motivos da mudança foi a chegada de Dorival Pagani na Portuguesa, meu braço direito. O Amarildo aprendeu muito com o Pagani. O Amarildo é novo ainda e tem muito a aprender e ele vem aprendendo, amadurecendo, mudando bastante. Tenho mais tranquilidade na hora de tomar decisões.
Folha: Esse Amarildo ''paz e amor'' continuará na Primeira Divisão ou voltará o temperamental?
Amarildo: Depende do momento, da hora. O Amarildo muda bastante. Agora, ele não é paz e amor, não. Você viu quarta-feira lá (no jogo contra o Iguaçu). Precisei dar uma cutucada forte na arbitragem. Com ele não tem dia, não tem momento, ele fala o que tem que falar. Nunca levou desaforo pra casa. Agora está mais tranquilo, mais calmo, mais sereno. O seu Paulo Muniz (empresário e colaborador do time) também ajudou bastante. O prefeito Nedson Micheletti (PT) me ajudou.
Folha: Qual foi a maior dificuldade?
Amarildo: A dificuldade sempre é grande em todos os sentidos. A Portuguesa não tem um caixa forte. Os diretores não podem colocar a mão no bolso e dar R$ 5 mil. Futebol hoje é muito caro. Temos dois times em cada categoria. Empregamos mais de 70 pessoas. A dificuldade é muito grande para arrumar dinheiro. Mas graças a Deus pagamos os salários certinhos, os prêmios das duas primeiras fases certinho. Aqui, todo dia tenho que ajudar alguém, fazer vale pra alguém, mas a recompensa é grande. Um exemplo é o João Marcos, que morava em uma favela. Hoje está ganhando US$ 2 mil, na Costa Rica. E tem outros exemplos. Damos oportunidades a todos os meninos que nos pedem.
Folha: E as dificuldades extra-campo?
Amarildo: Nossa, é terrível. A preocupação sempre é grande na Portuguesa. Sempre fomos contra a administração Moura (Onaireves, presidente da Federação Paranaense de Futebol), então, sempre vivemos na desconfiança se seremos prejudicados ou não. Mas agora, vamos ser parceiros do Moura. Cansei de ser oposição. Somos nós contra todos. Todo mundo faz média e nós vamos lá e batemos. Daqui pra frente vamos ser parceiros do Moura.
Folha: Você acha que vale a pena?
Amarildo: Nunca ganhei nada sendo oposição. Nós estamos há dez anos votando contra o Moura e deixando claro que somos oposição, mas nunca ganhamos nada. Agora, vamos abraçar a causa pra ver se conseguimos algo mais.
Folha: E essa história de que aqui os atletas só comem pé de frango?
Amarildo: De jeito nenhum. Cada um fala o que quer. Isso dá ibope pra quem fala e muitos acreditam. Se você compra dez frangos, vem 20 pés, mas acredito que as cozinheiras nem servem. Temos uma estrutura boa, com comida boa. Só a Fundação Paulo Muniz nos doa 400 quilos de frango por mês, mas temos carne, linguiça e muitas outras coisas. A comida daqui é igual ou melhor do que da minha casa. São mais de 100 pessoas que comem todos os dias aqui.
Folha: Você vai levar adiante essa batalha pelo nome de Grande Londrina?
Amarildo: Vou. O Londrina poderia ter facilitado e ajudado, mas a Força-Tarefa foi muito a fundo no negócio. Vai ter uma decisão final do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) nos próximos 15 dias. Entramos na briga, gastamos aí R$ 5 mil ou R$ 6 mil. Quem pulou no mar tem que se molhar e nós estamos na guerra.
Folha: Você acha que isso instiga ainda mais a rivalidade com o Londrina?
Amarildo: Naquele momento sim. Hoje é diferente. Tive uma conversa muito saudável com o Peter Silva. Ele mostrou todas as boas intenções de ajudar a Portuguesa e ajudar o Londrina. São dois times da cidade e precisamos ter pelo menos um forte. A primeira equipe da cidade de verdade é o Londrina Esporte Clube. O passado é muito grande, a camisa vale muito, é pesada. Mas o momento hoje, infelizmente, é da Portuguesa. Quem vive um momento bom tanto na parte financeira, de organização e diretiva, com uma diretoria grande, que trabalha no dia-a-dia, é a Portuguesa, que vive um momento especial. O Londrina tem que tomar cuidado, porque senão a Portuguesa passa e atropela o Londrina. Não seria o que eu queria, sou um cara apaixonado pela entidade Londrina Esporte Clube. As duas entidades são parceiras.
Folha: Essa falta de torcida incomoda você?
Amarildo: Pra ser sincero, nos últimos jogos fiquei orgulhoso. A Portuguesa vem conseguindo muitos adeptos. Tivemos 300, 400 pessoas nos últimos jogos. O gostoso é que a gente vê que eles vão para torcer mesmo. A Portuguesa está conseguindo seus adeptos. Recebi o apoio dos clubes da região que juntaram R$ 10 mil para dar para os meninos como prêmio pela conquista. A Portuguesa e o Amarildo têm muita culpa por essa falta de torcedores. Nós ficamos muito tempo no meio do caminho, pererecando, nesse vai ou não vai. Nós falamos que a Portuguesa esse ano iria começar a ser grande, que voltaríamos para a elite do Paraná, que iria melhorar a sua estrutura e que no ano que vem iria disputar uma competição nacional. E as coisas estão dando certo.
Folha: O que esses poucos adeptos podem esperar da Portuguesa daqui para frente?
Amarildo: O que o Amarildo prometeu. Nós vamos fazer uma campanha boa nessa Copa 100 Anos, vamos fazer o possível e o impossível para conseguir essa vaga na Copa do Brasil e na Série C do Campeonato Brasileiro.
Folha: Ficou alguma mágoa?
Amarildo: Mágoa não. Ficou algum ressentimento com alguns atos de algumas pessoas. Não vou citar exemplo para não magoar ninguém. Tem aí umas cinco ou seis pessoas que procuram atrapalhar a Portuguesa. Mas nada atrapalha ela (a equipe), que passa por cima de tudo e de todos. Quem tem Jesus Cristo na frente vence e a Portuguesa vai ser uma vencedora.


