Entrevista - Antônio Amaral
Entrevista - Antônio Amaral
É AVANÇAR
OU MORRER
Milton DóriaNOVO DESAFIOAntônio Amaral: após dois delicados períodos de transição, meta agora é eleger nova diretoriaArquivo FolhaCaldarelli começou a cair quando manipulou ata de reuniãoArquivo FolhaCentralizador, Marcos Alexandre, como Caldarelli, acabou isoladoArquivo FolhaCom o Célio Guergolleto, o Londrina colocou a casa em ordemNeste ano, o Londrina Esporte Clube cumpriu os objetivos traçados pela sua diretoria: no primeiro semestre, o time conseguiu, em campo, sem recorrer às viradas de mesa tão em moda no futebol brasileiro, retornar à Primeira Divisão paranaense; no segundo, com enormes dificuldades, manteve-se na Segunda Divisão nacional.
O alívio do presente não esconde, entretanto, a preocupação com o futuro. Na opinião do presidente do Conselho Deliberativo, o advogado e professor universitário Antônio Amaral, de 47 anos, chegou o momento de o Londrina avançar ou morrer.
Às vésperas da eleição que renovará o sistema diretivo do clube, marcadas para o próximo dia 5, Amaral é taxativo: o Londrina precisa se profissionalizar urgentemente nos moldes da Lei Pelé e encontrar uma parceria que dê ao clube os recursos necessários para a sua sobrevivência.
Caso contrário, diz Amaral, que comandou dois períodos delicados de transição, após a desastrada administração de Marcelo Caldarelli e a frustrante gestão da SAL, o Londrina pode cair para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro e, se isso acontecer, o clube corre sério risco de ser extinto.
Em entrevista exclusiva, concedida terça-feira à tarde, na Redação da Folha, aos repórteres Claudio Osti e Áureo Nogueira, Amaral faz um balanço do que aconteceu no Londrina dos últimos quatro anos, critica o método centralizador que marcou as últimas administrações, aponta erros e acertos, afirma que a casa está em ordem e garante: se o clube adotar um bom modelo empresarial, pode fazer parte permanentemente da elite do futebol brasileiro.
Folha O que deu errado na administração de Marcelo Caldarelli?
Antônio Amaral A intenção dele era muito boa. O Londrina tinha alguns funcionários antigos que estavam acomodados. Caldarelli queria sanear o clube e reduzir os custos. Não andou bem porque não soube encaminhar este processo de saneamento, o que redundou no expressivo aumento das dívidas do clube. Não teve o cuidado de planejar o processo de saneamento. Os funcionários acabaram indo para a Justiça.
Por outro lado, acabou fazendo novas contratações, inclusive de parente. Passou a centralizar a administração, deixou de discutir os problemas do clube. Chegou até a querer ser o técnico, como ocorreu no memorável jogo em Jandaia do Sul, quando saiu até tiro. Foi nessa situação que, como presidente do Conselho Deliberativo, comecei a agir.
Folha O que detonou o processo de afastamento de Caldarelli da presidência?
Amaral A gota dágua foi uma ata de reunião do Conselho Deliberativo. Após a reunião, recebi a ata para assinar e percebi que havia manipulação. Apesar de o assunto não ter entrado na pauta da reunião, a ata dava conta da aprovação da entrega do passe de vários jogadores para o Marcelo Caldarelli, para que pudesse ressarcir os prejuízos que ele teve. Exigi que o secretário retirasse os termos deste ponto não discutido nem aprovado.
Naquele dia senti que teria de tomar uma posição porque a coisa poderia tomar um caminho que colocaria em risco os próprios interesses do Londrina. Ato contínuo, Marcelo começou a se perder na administração. Ocorreu ainda uma venda, entre aspas, do ônibus do Londrina para o pagamento de uma dívida. Não referendei a venda, também porque o Conselho não foi consultado sobre o assunto. Foi quando chamei o Marcelo Caldarelli para uma demorada conversa, na qual demonstrei que sua situação estava ficando insustentável.
Folha E quanto aos passes de jogadores que ficaram com Caldarelli?
Amaral Justiça seja feita: esses passes foram cedidos na medida do dinheiro que ele colocou no Londrina. Mas não podíamos concordar com a manipulação da ata. Se ele efetivamente tivesse colocado o assunto em pauta, o Conselho poderia até aprovar como, aliás, já havia ocorrido com a diretoria anterior.
Folha Qual era o projeto da Administração Caldarelli? O que foi executado e o que resultou frustrado?
Amaral O projeto era interessante. A primeira meta era sanear a administração e revitalizar a sede social. Foi feito contato com a empresa especializada que revitalizou o Paraná Clube. Era previsto também investimento no clube, para atrair mais sócios e oferecer uma sede melhor estruturada. O projeto seria viabilizado em uma parceria com esta empresa especializada. O projeto era interessante e viável. Mas começou a naufragar porque o processo de saneamento foi mal executado e o projeto de revitalização da sede social não teve andamento.
Outra meta era o fortalecimento do trabalho de formação de jogadores, caminho mais curto e rápido para que o time seja competitivo e economicamente viável. Caldarelli fez algumas jogadas de marketing, como a contratação do ator Nuno Leal Maia para o comando técnico, mas acabou não encaminhando as propostas de campanha.
Folha E o que aconteceu?
Amaral Percebi que Caldarelli estava sofrendo profundo desgaste e já não tinha condições de administrar o time na disputa da Série B de 96. Já estava isolado, sem apoio do empresariado nem do prefeito. Procurei o presidente da Associação Comercial, Abílio Medeiros, para discutir a necessidade de investimentos no Londrina. Abílio concordou, mas ressalvou que seria muito difícil porque Marcelo Caldarelli era muito centralizador e não haveria condições de diálogo.
Para continuar o entendimento, exigiu o afastamento do presidente e de toda a diretoria. Então, conversei demoradamente com Marcelo e expus a necessidade de seu afastamento para viabilizar a participação do Londrina no Campeonato Brasileiro. Caldarelli concordou em se afastar e então foi criado o Grupo de Apoio ao Londrina, que administrou o clube no segundo semestre daquele ano.
Folha Houve irregularidades nesse período?
Amaral Os atos de Caldarelli não foram ilegais. Foram atos de mau administrador, de uma pessoa centralizadora que se isolou e sofreu um desgaste que levou à perda da credibilidade. Acabou não tendo alternativa a não ser a renúncia. Aí houve a articulação que levou à Sociedade dos Amigos do Londrina (SAL), que tinha o apoio de todos os setores, da imprensa, da torcida, do empresariado e dos ex-presidentes.
Folha O Londrina Esporte Clube desperta mais paixão ou mais interesse?
Amaral Ambos. A paixão é natural para quem se simpatiza com o clube, suas cores e com a própria imagem da cidade. E o interesse, porque é indisfarçável que o Londrina projeta quem o comanda. Convenhamos: todo o mundo tem vaidade.
Folha Desperta também interesse econômico?
Amaral Quanto ao interesse econômico, no modelo atual de administração, eu não o vejo. Para que isso ocorra é necessário que o clube passe por um profundo processo de reestruturação. Somente com um esquema profissional o Londrina vai se tornar economicamente viável e financeiramente interessante. Não há mais espaço para o futebol administrado de forma amadora, romântica, com interesse apenas pela paixão. O retorno que aparentemente possa haver é enganoso, porque os gastos são muito grandes e as receitas, reduzidas.
Quando surge um craque ou qualquer jogador é negociado, a receita serve basicamente para pagar despesas já realizadas. O futebol atual funciona como aquele que trabalha hoje para pagar o que comeu ontem. Hoje, o Londrina está em melhores condições do que há dois anos. Dispõe de um elenco de jogadores profissionais e amadores que são uma base para a formação de um time competitivo. Este patrimônio representa, por baixo, R$ 1 milhão.
Folha Como está a preparação para a transformação do clube em empresa? Como está a relação com os credores e o saneamento das dívidas?
Amaral O Londrina não tem condições de fazer retirada mensal para pagamento dos credores. Nem pensar na possibilidade de se licenciar por um período de dois ou três anos para sanear suas contas. Se executarem qualquer dessas hipóteses, os diretores serão imolados na Praça Rocha Pombo. A cidade, em especial a torcida e a imprensa, cobra muito do Londrina e exige que o time tenha um desempenho à altura da cidade. É uma roda viva que não dá fôlego.
A saída é uma parceria que possa injetar recursos novos. Acreditamos na possibilidade de encontrar um parceiro mesmo porque o Tubarão já tem uma estrutura de que não dispunha há dois anos e, principalmente, porque recuperou a credibilidade. Nesse período, o clube não ficou devendo nada a ninguém.
Folha O Londrina está pagando os credores?
Amaral Está. Mas de forma muito lenta, porque não dispõe de receita. Infelizmente só tem sido possível pagar os pequenos credores, aqueles que apresentam crédito de até R$ 2 mil. Negociamos com esses credores e a moeda utilizada é ingresso para os jogos, a nossa única receita. Dessa forma tem sido possível abater em muito essas contas. Mas os credores de importâncias mais significativas não tem sido possível pagar.
Folha Quem são os grandes credores do Londrina?
Amaral Os principais são os ex-empregados que estão reclamando na Justiça do Trabalho, o Fisco (basicamente INSS e Imposto de Renda) e antigos fornecedores como empresas de transporte e farmácias. Gostaria de esclarecer que essa dívida vem de diretorias passadas. Não há nenhuma pendência da atual diretoria.
Folha Como está o processo de sucessão no clube?
Amaral A atual diretoria decidiu não lançar candidatura porque entende ter chegado o momento de o Londrina acreditar que pode voltar a ser forte, pelo menos a médio prazo. O Londrina hoje está com suas contas organizadas, não produziu nenhuma dívida nos últimos dois anos e restaurou a credibilidade junto a todos os segmentos, de jogadores a fornecedores. E, principalmente, tem a perspectiva de voltar a ser grande, se bem administrado.
O Londrina é muito forte; tem nome e é uma mercadoria muito boa de se vender. Não vamos lançar nenhum candidato para facilitar o surgimento de algum interessado em investir no clube. Mas, se até o dia 16 (último dia para inscrição de chapas) não surgir interessado ou se comparecer uma chapa que não tenha o lastro financeiro e a credibilidade que entendemos necessários, então vamos apresentar chapa própria para garantir que o Londrina não passe por outra grave crise como já ocorreu recentemente. Não vamos deixar o clube órfão.
Folha O senhor pretende ser presidente do Londrina ou continuar no Conselho Deliberativo?
Amaral Pretendo continuar como conselheiro. Acho que ainda tenho com o que contribuir com o Londrina Esporte Clube. Mas não como presidente, nem do conselho nem da diretoria. Não nego que tenho a pretensão de ser presidente do clube. Mas somente daqui a uns 20 anos, quando já não tiver mais tantos compromissos como hoje o escritório de advocacia, aulas em duas universidades locais e, ainda, pós-graduação fora da cidade. Minha vida está extremamente atribulada e não posso assumir outros compromissos sem sacrificar minha carreira profissional e acadêmica, o que não posso fazer porque vivo disso. Quando tiver uma vida mais tranquila, certamente teria muita honra em presidir o Tubarão.
Folha Além dos grupos internos hoje representados na direção do clube e que decidiram não pleitear um novo mandato, há outros grupos ou pessoas que possam se interessar e administrar bem o Londrina?
Amaral Acredito que sim, porque está havendo uma grande movimentação na cidade. Acho que até o dia 16 deve surgir alguma candidatura com nomes até mesmo dos grupos que atualmente estão no poder. A preocupação da atual diretoria é exatamente garantir uma sucessão que assegure uma transição do atual modelo administrativo, ainda arcaico, para o sistema efetivamente profissional, com a captação de recursos através de parcerias ou qualquer outra forma de investimento.
Por isso, é muito importante o próximo mandato. A atual diretoria arrumou a casa e a próxima tem o desafio de fazer a transição para o modelo profissional. O Londrina, do jeito que está, nem pode subir para a Série A do Campeonato Brasileiro. Correria sério risco de subir num ano e cair no outro. E isso poderia representar o começo do fim. A cidade não iria suportar a decepção de um rebaixamento, nem da Primeira para a Segunda Divisão, nem da Segunda para a Terceira. O golpe certamente seria fatal.
Exemplo disso é o Criciúma, que estava na Série A, foi campeão da Copa do Brasil e agora caiu para a Série C. E também o Fluminense. É tão forte o golpe que o clube fica sem rumo pelo menos um ano até que consiga se conscientizar da situação e se organizar para o retorno. Por isso, enquanto o Londrina não dispor de uma infra-estrutura profissional mínima, o melhor lugar ainda é a Série B, para seu próprio bem.
Folha Para crescer e se consolidar, o Londrina precisa se estruturar profissionalmente. Como realizar esta tarefa?
Amaral O Londrina não precisa de muito. Basta uma receita de aproximadamente R$ 150 mil por mês para que possa ter uma administração profissional, um time competitivo e o departamento de futebol amador em condições de formar jogadores. Em três anos a partir desta organização, o Londrina teria condições de crescer, conquistar campeonatos paranaenses, subir para a Série A do Brasileiro e se manter na elite do nosso futebol.
Folha Com os atuais problemas políticos, administrativos e financeiros é possível viabilizar este projeto?
Amaral Hoje ainda não. Mas é exatamente esta a grande preocupação da atual diretoria. Já avançamos muito e precisamos ainda mais. Por isso, os atuais diretores, que não têm interesse em continuar à frente do clube, fazem questão de ficar como sentinela do processo eleitoral para ter a garantia mínima de que o próximo mandato possa concluir o trabalho já iniciado e deixar o clube em condições de transformar o modelo ainda amador para o profissional.
Folha Qual o melhor modelo?
Amaral Os recursos podem vir de um único investidor que pode até ser co-gestor do clube ou de um grupo de interessados, pessoas físicas e jurídicas. Podem ser local ou de fora. O Londrina é um ótimo produto e pode despertar o interesse de qualquer empresário. Entendo que o único senão, como em muitos investimentos, é o imediatismo. O Londrina é um excelente investimento desde que não se tenha pressa em obter o retorno.
Não tenho dúvida de que o investimento de R$ 150 mil por mês no Londrina Esporte Clube é retorno certo a médio e longo prazos. Aliás, este clube sempre foi administrado com preocupação imediatista: formar um time hoje para iniciar a disputa de um campeonato amanhã. O imediatismo, aliás, foi o grande erro da SAL.
Folha Explique melhor...
Amaral A SAL foi maravilhosa, muito importante na história do Londrina. Poderia ter sido a grande solução do clube e a consolidação da administração empresarial. Conseguiu incendiar a cidade, com iniciativas que empolgaram todos os setores, do empresariado à torcida. Mas cometeu um grande erro: apostou tudo na subida do Londrina para a Série A do Brasileiro. Desejou o retorno imediato. Infelizmente, encontrou o inspirado goleiro Nei, do Náutico, que acabou eliminando o Tubarão daquele campeonato. Este erro foi determinante porque nenhum investidor no segmento do futebol pode ter pretensão imediatista. É investimento para médio e longo prazos.
FolhaHouve outros erros?
Amaral Outro erro importante cometido pela SAL foi confiar em demasia na proposta do empresário Juan Figger, que indicou técnicos e jogadores. A administração acabou refém do empresário, do técnico e até de jogadores. Acho que a atuação de Figger poderia ser interessante, mas com participação diferente. Poderia até indicar técnico e jogadores, desde que se responsabilizasse também pelos salários. Os interesses do empresário que desejava colocar atletas na vitrina do futebol brasileiro foram atendidos. Mas o Londrina acabou refém desse acordo.
Além do erro de apostar tudo na imediata subida do time para a Primeira Divisão, o presidente da SAL (Marcos Alexandre) também foi muito centralizador e, como Caldarelli, acabou isolado. Começou com ações espetaculares, que mobilizaram toda a cidade, mas acabou sem recursos e com dívidas, rebaixado para a Segunda Divisão paranaense e sem time. Foi o fim da Era SAL.
Folha E como foi mais essa transição?
Amaral Convenci o Marcos Alexandre que naquele momento ele não tinha mais condições de continuar à frente do Londrina. Demonstrei que, por mais que ele fizesse, seria pouco, só iria se desgastar, sofrer, e que o clube precisava de uma solução urgente para não ser rebaixado também no Campeonato Brasileiro, e até ser extinto.
Num encontro com o prefeito (de Londrina) Antonio Belinati, enfatizei sobre os riscos de queda e extinção do Londrina. Nesta reunião surgiu a idéia da criação de uma coordenação geral. Ao final, o nome apontado para assumir a nova função foi o do vereador Célio Guergoletto. Convidado, Guergoletto aceitou, mas exigiu que o presidente do Conselho Deliberativo se envolvesse mais no dia-a-dia do clube. Conseguimos encaminhar mais uma transição. Agora, o desafio é eleger a nova diretoria.
Se continuar com o atual modelo de gestão, o Londrina não vai resistir e acabará exinto em dois ou três anos. A cidade é vencedora e exigente. Nesta via crucis que faz, o Londrina corre grande risco de queda para a Série C nos próximos anos. Principalmente porque a Série B está ficando cada vez mais competitiva. Se isso ocorrer, será a pá de cal. Rebaixado, o clube capitula.
Folha Como evitar isso?
Amaral Há alguns cuidados a serem tomados, sim. O primeiro é não entrar na exigência de técnicos que indicam e exigem determinados jogadores. O técnico é contratado para tirar o melhor do elenco de que o clube dispõe. E não o clube ser usado pelos jogadores do técnico. Segundo, não jogar nos ombros dos jogadores jovens a responsabilidade das vitórias. Os juniores devem ser muito bem preparados e entrar no time na medida do seu amadurecimento técnico e emocional.
Aproveitando que a atual diretoria arrumou a casa, a próxima deve alterar o estatuto do clube, para transformá-lo em uma sociedade anônima, como determina a Lei Pelé, sensibilizar o empresariado e, com o investimento, o retorno é viável. Ainda que o retorno não seja o mesmo proporcionado por clubes como o Flamengo, por exemplo, certamente virá. E a cidade terá um time competitivo no Estado e com todas as condições de subir e se manter na elite do futebol brasileiro.
Já há empresários que investem no Londrina. Uns, com o mero objetivo de colaborar com o time que representa a cidade. Mas há também outros que investem profissionalmente: acabam aproveitando a necessidade que o clube tem de fazer dinheiro, compram passes de jogadores jovens e acabam tendo significativo retorno neste negócio. Se hoje já é viável, com uma administração profissionalizada, escolhida, muito bem estruturada, para formar jogadores e time profissional competitivo, certamente será muito mais.





