Ênio Vecchi: Sou mais feliz em Londrina do que fui na seleção
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sábado, 06 de março de 2004
Thiago Mossini<br>Reportagem Local 
No noticiário esportivo diário uma informação tem cadeira cativa: a demissão de técnicos. Basta algumas derrotas, ou até mesmo algumas vitórias, para que o comandante da equipe seja dispensado do cargo. Nesta realidade, pode-se encontrar alguns guerreiros que conseguem sobreviver às adversidades da profissão. O técnico do Londrina/TIM, Ênio Vecchi, é um deles. Em 2004, ele completa oito anos à frente do basquete londrinense e não pretende sair tão cedo.
Por trás daquela cara fechada, das broncas severíssimas, durante os jogos, que chega até a dar medo em alguns torcedores, se esconde uma pessoa sensível, que se preocupa com o futuro do esporte. Um pai de família, que se apaixonou por Londrina e encontrou na cidade local ideal para a criação dos filhos. Dono de uma personalidade forte, e de um bigode que o acompanha há anos e se tornou sua marca registrada, Vecchi abre o jogo e fala sobre os oito anos de Londrina, da passagem pela seleção brasileira, da polêmica com Oscar e de muito mais. Confira a entrevista exclusiva do técnico:
Folha: Como você chegou ao Londrina?
Vecchi: O (Luis Eduardo) Cheida era prefeito e me convidou para assumir a equipe e dar sequência ao que o Medalha (ex-técnico) tinha feito.
Folha: Você não teve medo de apostar em um projeto novo?
Vecchi: O Sírio tinha acabado e eu estava sem equipe. Desenvolvia alguns trabalhos em São Paulo, mas não efetivamente como técnico. Aguardava uma oportunidade e apareceu Londrina. E para mim foi um novo desafio. Um lugar em que poderia impor as minhas idéias, as minhas filosofias, criar raízes e foi o que naturalmente acabou acontecendo. Era uma oportunidade de se criar um novo pólo de basquetebol deste nível nacional.
Folha: Você já ficou tanto tempo em algum outro clube?
Vecchi: Essa é uma característica que eu tenho. No Continental eu fiquei por mais de 17 anos. No Sírio foram só dois porque o time acabou. Onde eu tenho passado as pessoas acreditam na sequência e tivemos oportunidade de dar essa sequência. E eu me orgulho muito disso. Ser visto pelos adversários, amigos, inimigos, pessoal de fora e de dentro do basquete, com essa identificação minha com o basquete de Londrina. Isso pra mim é orgulho, um prestígio.
Folha: Como foram esses oito anos aqui dentro?
Vecchi: Sempre tivemos apoio das administrações públicas. Esse apoio eu sempre tive para poder colocar Londrina no cenário nacional, estruturar e desenvolver um projeto e introduzi-lo. É claro que a estrutura nunca está completa, mais ela é razoável pelas circunstâncias, em relação aos outros anos. Agora o nosso salto de qualidade seria a quarta posição no Nacional deste ano. Queremos alçar vôos mais ousados. Nestes anos todos temos a molecada jogando, estagiários nas escolas ensinando, a criação da Liga Metropolitana. Tudo isso, vai fazer com que apareça muita garotada praticando e bons jogadores. A gente senti orgulho disso. Plantamos e as raízes são muito fortes.
Folha: Qual é a diferença de quando você chegou para agora?
Vecchi: Em termos de trabalho o salto de qualidade é muito grande. Pode não aparecer em termos de resultados, mas somos um dos times mais regulares e sérios do campeonato. O que temos tentado mudar e que eu acho que houve um queda foram os campeonatos paranaenses das categorias menores. Hoje, os jogadores chegam com 15, 16 anos e somos obrigados a mandá-los para outros clubes. A Federação (Paranaense de Basquetebol - FPB) tem que ter um trabalho mais arrojado, mais presente regionalmente. A gente sabe o potencial do Paraná, mas tudo feito pela vontade dos clubes e não por um trabalho motivacional da federação. Mas a evolução do basquete de Londrina foi muito grande desde que cheguei aqui, em todos os aspectos, inclusive no envolvimento de todos e na estruturação e seriedade da Fundação (de Esportes de Londrina), que é a nossa grande patrocinadora.
Folha: Você falou da FPB. Você acha fraco o trabalho que ela desempenha?
Vecchi: Não é uma federação presente, atuante e a gente acaba fazendo o que pode aqui. Não dá para esperar. Mas isso está servindo para motivar para a gente fazer outras coisas, como é o caso da Liga Metropolitana, que reúne vários times, escolinhas e está atraindo gente de outras cidades da região. É mérito do Marivalzinho (Marival Júnior, presidente da Liga), da FEL, de a gente estar junto, como espelho, o que vai motivando a garotada.
Folha: Quais foram as alegrias destes oito anos?
Vecchi: Primeiro, a imprensa aqui é forte. Dá uma cobertura boa. Sendo boa crítica ou má crítica, sempre tem um espaço para o basquete o que é difícil você encontrar em qualquer lugar do Brasil. Vocês ajudam a trazer o torcedor e as pessoas se interessam. Isso é um orgulho. Você está na rua e as pessoas estão te cobrando, dando parabéns, criticando, mas de uma forma ou de outra, estão acompanhando o que está acontecendo. Isso é uma alegria muito grande. É uma alegria pessoal minha poder dar essa alegria para a cidade. O astral das pessoas muda. Parece que não é nada, mas é importante. As vezes a pessoa está com algum problema e pode estravasar. A geografia da cidade também me encanta muito. Da onde você estiver você pode ver tudo e você se sente mais próximo das coisas da vida. Falo isso do fundo do meu coração. A qualidade de vida que a cidade oferece para os meus filhos aqui é muito melhor. São estas coisas que me deixam felizes. E, é lógico, o convívio com as pessoas que estão envolvidas no basquete.
Folha: Algum jogo especial?
Vecchi: Um momento que eu guardo especial foi de um jogo contra Franca, em 2000. Nós estávamos dois pontos atrás e o Walters (Aikens) converteu três lances livres com o cronômetro zerado. É uma emoção que eu guardo. Eu vi ali o quanto o torcedor estava querendo ajudar o time e o tanto que nós precisávamos daquilo. Valeu a pena. Houve invasão de quadra.
Folha: Tristezas?
Vecchi: Quando a gente não vê o time colocar dentro de quadra todo esse entusiasmo do torcedor. Tristeza quando perdemos porque nós não cumprimos a nossa missão, e não porque tivemos garra determinação, mas o outro time foi melhor.
Folha: Decepções?
Vecchi: Falta de reconhecimento de algum atleta. Você trabalhou, deu o seu conhecimento, vamos dizer, a sua alma, e o atleta não reconhece.
Folha: Você já recebeu propostas para sair?
Vecchi: Recebi alguns convites, do Vasco, Mogi, e alguns outros.
Folha: Não aceitou por quê?
Vecchi: Se você está legal num lugar, está feliz, contente, financeiramente também está tendo suporte, não tem porque ficar mudando porque financeiramente vai ser melhor, ou se a proposta em termos de trabalho e estrutura, a princípio seja melhor. Eu recusei outros convites porque eu gosto daqui, me identifico e tenho uma relação muito forte com Londrina. O carinho que tenho aqui sempre pesa.
Folha: Alguma vez você já pensou em sair por pressões externas, interferência no trabalho, ou algum outro motivo?
Vecchi: Essas são decisões que você não pode ficar em cima do muro. Nunca me passou pela cabeça esse tipo de coisa. Sempre vou de encontro ao problema, seja ele qual for e tento resolvê-lo.
Folha: O investimento este ano foi bem maior em relação a anos anteriores e a campanha não é melhor é idêntica. Por que não é melhor?
Vecchi: No campeonato passado a nossa expectativa era modesta e, surpreendentemente, foi bem superior. A química do time deu muito certo. Este ano, como você colocou, o investimento é maior e nós temos uma expectativa. Mantendo a base e reforçando com alguns jogadores, o mínimo que se espera é que mantenha a campanha. A expectativa está abaixo do que era esperado. O que aconteceu foi o seguinte: quando se esperava pouco veio muito e agora, que se esperava muito, e, por enquanto, ainda é pouco. Nós sabemos disso.
Folha: O que fazer para reverter isso?
Vecchi: Trabalhar. Saber enfrentar os problemas. Não tenho como te apontar é esse ou aquele problema. Temos que neutralizar a questão psicológica para que os jogadores readiquiram a confiança.
Folha: O grupo é melhor do que o de 2003?
Vecchi: Eu acho que sim, em termos de conjunto, de identificação. Reforçamos com jogadores experientes. Mas a nossa química ainda não é a mesma.
Folha: O que o torcedor pode esperar para este restante de campeonato?
Vecchi: Esperamos que o jogador incorpore o entusiasmo do torcedor dentro de quadra. Só depende da gente essa melhor atitude, a vontade dentro de quadra, o tesão.
Folha: Como foi a experiência na seleção?
Vecchi: Não foram bons momentos. Eu vim de um clube onde o trabalho era muito mais profissional do que na seleção. Não foi um momento de alegria pra mim. Fiquei muito mais feliz em Londrina, independente de resultado, tive muito mais prazer do que na seleção. A responsabilidade para mudar alguma coisa foge muito mais do alcance do técnico na seleção do que no clube. A postura na seleção tem ser de uma garra muito maior do que no clube e isso não acontecia. Mas como aprendizado serviu. Fui o técnico mais novo a assumir a seleção, com 32 anos. Vim de um clube pequeno, sem estrutura e a gente via todas as condições para o jogador produzir na seleção e ainda assim estava insatisfeito. E você acaba também ficando infeliz. Mas estou trabalhando para voltar para a seleção.
Folha: Esse seria o teu sonho no basquete?
Vecchi: Seria minha meta pessoal. Meu sonho é dar um título para Londrina e fazer da cidade o que Franca foi para o basquete paulista, com muitos jogadores jogando em todas as categorias.
Folha: Como você vê o momento atual da seleção fora da última olímpiada e da próxima?
Vecchi: A disputa é muito mais forte e mais acirrada do que qualquer outro esporte. Equipes de tradição também estão ficando fora. Mas independente disso, os ginásios estão sempre cheios. Temos três jogadores na NBA e alguns na Europa. Os jogadores são bons, a comissão técnica também, mas, infelizmente, não conseguiram. Temos que ter muito mais jogadores e ter como referência a Argentina, que têm muitos jogadores na Europa e os resultados estão aparecendo.
Folha: Quem são seus amigos no basquete?
Vecchi: O Hélio (Rubens, técnico do Unit) é mais do que um amigo. Já o admirava quando eu era criança e o via como jogador e depois que passei a trabalhar com ele conheci muito mais a nobreza, a seriedade e a moral de um homem.
Folha: Inimigos?
Vecchi: O Oscar
Folha: Por quê?
Vecchi: Porque ele, através da sua projeção, da sua qualidade como jogador e do seu poder com a mídia, procurou me jogar contra uma cidade (Londrina) e contra todo mundo. Acho que isso não é uma condição moral de uma pessoa que tem a posição que ele tem. Não respeito ele, não tenho nenhuma coisa a mais do que isso, mas a gente sabe que é um inimigo.
Folha: Quem é o melhor técnico brasileiro?
Vecchi: O Hélio Rubens
Folha: E o melhor jogador?
Vecchi: Fora do Brasil, o Leandrinho, o Nenê, o Alex e o Sandro Varejão são referências. Aqui no país temos vários, o Valtinho do Unit, o Hélio, aqui de Londrina, o Renato do COC/Ribeirão Preto.
Folha: Como você define o Ênio Vecchi?
Vecchi: Sou obstinado, persistente nos meus objetivos. Reconheço quando estou erado, mas capaz de enfrentar qualquer situação quando estiver com a razão.


