Emerson quer distância do gol durante o Mundial
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quinta-feira, 20 de abril de 2006
Sílvio Barsetti<br> Agência Estado 
Rio - O Brasil estava pronto para a estréia na Copa do Mundo de 2002, contra a Turquia. O jogo seria disputado no dia seguinte no Estádio Munsu, de Ulsan, uma rica cidade portuária e industrial da Coréia do Sul. O time escalado pelo técnico Luiz Felipe Scolari realizava um leve treino de reconhecimento do gramado. O capitão Emerson, um dos mais animados, pediu um par de luvas e uma camisa de goleiro para defender seu time. Metade do campo era utilizada para a recreação. Logo no início, Rivaldo deu um chute forte e Emerson se atirou para fazer ótima defesa. Caiu de mau jeito e sofreu séria luxação no ombro. Foi cortado do grupo.
Quatro anos depois, alçado de novo ao posto de titular da seleção, Emerson quer distância das luvas. ''Nada de brincar de goleiro, nunca mais.''
Destaque da Juventus na temporada, bem perto de ganhar o Scudetto, o título do Campeonato Italiano, o volante despreza comentários sobre mudança de atitude de atletas próximos de disputar um Mundial. Para ele, nenhum profissional vai se poupar na Juventus para impedir uma contusão inesperada. ''A seleção é muito importante, é motivo de orgulho, mas temos uma responsabilidade diária com o clube'', disse, em entrevista por telefone à Agência Estado.
Para melhorar a forma física, o jogador contratou um fisioterapeuta particular e uma cozinheira. Emagreceu três quilos. Perdeu peso, mas manteve o otimismo: acredita no título. No entanto, com uma ressalva, que é um alerta. ''Não vamos cair na armadilha dos adversários: eles afirmam a todo instante que o Brasil já é o campeão. Querem deixar o foco apenas no nosso time. Mas a seleção brasileira está imune a isso.''
Agência Estado - A Juventus lidera o Campeonato Italiano a 49 dias para o início da Copa do Mundo. É a hora de evitar choques, divididas, jogadas bruscas?
Emerson - De jeito nenhum. A Juventus tem de confirmar o seu favoritismo nessa reta final do Italiano e os jogadores, incluindo os que vão defender outras equipes na Copa, não podem perder a concentração. A seleção é muito importante, é motivo de orgulho, mas temos uma responsabilidade diária com o clube. No campo, estamos expostos a tudo. Na verdade, nenhum atleta imagina que algo ruim lhe possa ocorrer. Quando a Juventus saiu da Copa Itália, foi até bom por um lado, porque o número de jogos do clube diminuiu. Ficamos então mais concentrados no Campeonato e na Liga, da qual também saímos após os dois confrontos com o Arsenal. Então agora é força total no Italiano.
AE - Nem mesmo você imagina algo desagradável às vésperas de uma Copa, como ocorreu um dia antes da estréia do Brasil no Mundial de 2002?
Emerson - Não posso pensar nisso. Estou muito tranquilo. O meu corte em 2002 fez parte do risco da minha profissão. Em 1998, também por causa de uma contusão, o Romário deixou o grupo e eu entrei na vaga dele.
AE - Se no dia anterior ao jogo do Brasil com a Croácia alguém lhe oferecer um par de luvas para o treino recreativo, qual será sua reação?
Emerson - Vou dizer muito obrigado, não vou aceitá-las. Nada de brincar de goleiro, nunca mais.
AE - Qual o segredo de sua forma física, tão elogiada pela comissão técnica da seleção?
Emerson - Chego sempre um pouco antes do horário marcado para os treinos na Juventus e faço um reforço na sala de musculação. Minha alimentação tem sido regrada. Trouxe do Brasil um fisioterapeuta, meu amigo (Rodrigo). Ele não tem nada a ver com a Juventus, embora eu tenha antes consultado o clube, e já estamos trabalhando juntos há dois meses. Montei uma pequena academia em casa, com aparelhos básicos, bicicleta. Até nos dias de folga não fico parado.
AE - A alimentação mais cuidadosa é por causa da Copa?
Emerson - Também por isso. São muitas competições na temporada. Estou fazendo as refeições mais em casa, emagreci três quilos. Meu peso ideal é de 86 quilos. Estou com 83. Contratei uma cozinheira. No clube, os atletas dispõem de nutricionista. Claro que já tenho noção do que posso ou não comer, se posso ou não abusar. Mas antes eu estava frequentando muito os restaurantes de Turim. Era comida pesada. Estou cada vez mais aderindo a sucos e frutas. Nada de adoçante. É muito ruim. Não abro mão de açúcar.
AE - Você tem feito gols na Juventus. Já na seleção...
Emerson - É diferente. No clube, eu tenho toda liberdade de ir para a frente, desde que a defesa fique bem protegida. Meu time tem dois laterais, Zebina e Zambrotta, que são fortes na marcação. Na seleção, a orientação é para ficar ali no meu setor, obstruindo o ataque adversário. Posso até me adiantar uma ou outra vez, dependendo do momento da jogada, de onde está a bola. Se for pelo lado direito, fica mais fácil, pois o Zé Roberto me cobre. Além disso, um time com quatro homens de potencial na frente, como vem atuando a seleção, acaba um pouco vulnerável na marcação.
AE - Depois da Copa de 2002, você ficou um tempo fora da seleção. Como foi seu retorno à equipe?
Emerson - O técnico Carlos Alberto Parreira passou a me conhecer melhor durante a Copa das Confederações de 2005, na Alemanha. Eu fui muito bem na competição, principalmente na final contra a Argentina. Há situações que reforçam a confiança do treinador no atleta. Nunca havia trabalhado com o Parreira antes de a CBF contratá-lo em 2003. Nas Eliminatórias do Mundial, estive em alguns jogos como titular, assim como em vários amistosos.
AE - Manifestações de racismo no futebol merecem punição severa?
Emerson - Sou a favor de penas fortes, sim. Mas que não atinjam a equipe. Ela não pode ser prejudicada por causa de um torcedor. Se houvesse uma situação dentro de campo, que partisse de um atleta, então seria diferente e eu concordaria com a pena à equipe. Eu nunca sofri nada disso aqui na Europa. Ouço e tenho visto algumas histórias. Isso é triste.
AE - Viver em Turim lhe deixa com saudades do Rio Grande do Sul?
Emerson - Moro sozinho e sinto falta da família, que está em Pelotas. De meus pais, Aluísio e Terezinha, meu irmão Edson, dos demais parentes. Claro que queria estar sempre com eles. Tenho minha filha, Karolayne mais por perto, morando em Roma, com a mãe, de quem estou separado. Quando posso, vou visitá-la, são uns 50 minutos de avião. A Karolayne pouco vem a Turim, por causa dos compromissos na escola. Sempre nos falamos por telefone.
AE - O hexacampeonato é um sonho, uma promessa ou uma obrigação?
Emerson - Pode ser tudo isso ou nada disso. Pode ser ainda o resultado de uma competição dificílima. Não vamos cair na armadilha dos adversários: eles afirmam a todo instante que o Brasil já é o campeão. Querem deixar o foco apenas no nosso time. Mas a seleção brasileira está imune a isso.


