Agência Folha
De Vigo e Sidney
Duas situações distintas marcaram as apresentações da seleção brasileira neste final de semana, na Europa e na Oceania. Em Vigo, na Espanha, o time principal, dirigido pelo auxiliar técnico Candinho, empatou com o selecionado espanhol, sem gols, sábado à tarde, numa partida marcada pela desorganização brasileira dentro e fora de campo. Em Sidney, na Austrália, comandada pelo técnico Wanderley Luxemburgo, a equipe sub-23, que disputará o torneio Pré-Olímpico em Londrina no ano que vem, derrotou com facilidade o time ‘da casa’ por 2 a 0, na madrugada de ontem.
O fraco desempenho da seleção diante da Espanha, em uma partida marcada pela falta de entrosamento dos jogadores, levou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) a pensar em pelo menos outros dois amistosos antes do início das eliminatórias para a Copa de 2002. Pela primeira vez sob o comando do assistente Candinho (o técnico Wanderley Luxemburgo acompanha o time pré-olímpico na Austrália), a seleção realizou somente um treino tático para o jogo, convocando seus dois goleiros apenas dois dias antes.
Como consequência, se expôs a tomar até uma goleada, não fossem as boas defesas do goleiro Marcos, aliadas à sorte – duas bolas pararam na trave. O empate em 0 a 0 de um time integrado pelos principais astros do futebol brasileiro que atuam na Europa era festejado como vitória pela comissão técnica e pelos atletas ainda ontem em Vigo.
A CBF havia descartado novos amistosos, em princípio, para evitar uma nova divisão de sua comissão técnica, como ocorreu na Espanha, uma vez que a partir de agora as atenções deveriam estar voltadas para seleção pré-olímpica, que irá disputar um torneio classificatório para a Olimpíada de Sydney em janeiro e fevereiro próximos, em Londrina.
Duas datas foram reservadas em fevereiro, nos dias 24 e 27, para que a seleção principal possa se entrosar melhor antes de enfrentar a Colômbia em seu primeiro jogo pelas eliminatórias da Copa, prevista para março, em Bogotá (Colômbia). Os adversários e os locais devem ser definidos até meados de dezembro. ‘‘Nossa preferência é pela Alemanha. Inglaterra e Itália também seriam interessantes. Pena que a França vem se recusando a disputar amistosos com o Brasil. Queremos um adversário forte para preparar a equipe para as eliminatórias’’, disse Candinho.
A desorganização nos trabalhos de preparação foi responsável pelo futebol sem brilho apresentado na partida de sábado à tarde, em Vigo, na visão dos jogadores brasileiros. ‘‘A gente estava desorganizado. E, ainda assim, conseguimos o empate. Imagine se estivéssemos organizados’’, afirmou o atacante Elber.
Na Austrália – A violência da equipe australiana foi, para a seleção brasileira, o maior problema do amistoso disputado na madrugada de ontem, que o time de Wanderley Luxemburgo venceu, sem dificuldades, por 2 a 0, gols de Álvaro e Alex. No final da partida, pelo menos quatro atletas brasileiros reclamavam por terem sido duramente atingidos pelos adversários.
Os casos mais sérios foram os do lateral Dedê, que machucou o joelho direito, e do meia Alex, que levou uma cotovelada no nariz. O primeiro, inclusive, terá de ficar pelo menos três semanas afastado do futebol e hoje mesmo retorna à Alemanha, onde deve iniciar tratamento médico. ‘‘O grande culpado foi o juiz (o australiano Brett Hugo). Ele deixou a coisa correr muito solta e deu no que deu’’, criticou Luxemburgo, após a partida.
‘‘A Austrália jogou muito pesado e poderia até ter causado consequências mais graves para o futuro do Dedê como jogador profissional’’, afirmou,
antes de reclamar também de entradas faltosas em Athirson, substituto do próprio Dedê, e Denílson. ‘‘Assim que acabou o jogo eu fiz questão de falar com o três deles (o zagueiro Moore) e pedir para da próxima vez ele ir na bola.’’
Pelo menos a violência dos australianos serviu, do ponto de vista do treinador brasileiro, para verificar a maturidade da seleção pré-olímpica. ‘‘Eu gostei do grupo pela reação que eles tiveram. Ninguém entrou na provocação dos adversários. Podemos ser um time (jogadores com menos de 23 anos) jovem em idade, mas mostramos experiência.’’
Luxemburgo aprovou também o esquema tático implantado, que difere do usado no time principal. ‘‘Na maior parte do jogo, tínhamos quatro no ataque (Alex, Denílson, Ronaldinho e Fábio Júnior). Como eles não voltam muito, os volantes (Marcos Paulo e Mozart) têm de jogar mais fixos, não podem avançar tanto como um Vampeta ou um Marcos Assunção.’’
Além da dupla de volantes e de Alex, os zagueiros Álvaro (‘‘Ele grita com todo mundo’’) e Fábio Bilica também foram muito elogiados pela comissão técnica. Álvaro, atleta do Goiás, foi o autor do primeiro gol da seleção, anotado aos 32min do primeiro tempo, de cabeça, após cruzamento de Ronaldinho. O segundo foi feito por Alex, depois de um passe de Denílson, aos 39min da fase inicial. Antes de marcar o gol, ele perdera boa chance, aos 23min, quando chutou com perigo para fora.
No ataque brasileiro, a decepção ficou por conta da atuação apagada de Ronaldinho. ‘‘Ele saiu dizendo que estava meio tonto, fora de sintonia, não sei se ainda sentindo o fuso, talvez problema de alimentação’’, explicou Luxemburgo. ‘‘Para o próximo jogo (quarta-feira, em Melbourne), colocamos uma tomada de 220 volts para ver se ele acorda.’’
O meia-atacante Denílson – com a ausência de Ronaldo, o novo capitão da equipe – também gostou de sua performance. ‘‘Tentei mudar um pouco a minha maneira de jogar. Ao invés de insistir tanto nas jogadas individuais, toquei mais a bola e participei mais da partida’’, afirmou.
O jogador, no entanto, acha que o Brasil caiu de produção no segundo tempo, porque estava satisfeito com o resultado. ‘‘A gente recuou muito e deu moral para o adversário. No próximo jogo, vamos manter o ritmo até o fim.’’

EM VIGO
Espanha 0
Molina; Michel Salgado, Abelardo, Paco e Sergi; Guardiola, Luis Henrique (Mendieta), Etxeberria (Monitez) e Valerón (Ursaiz); Raúl (Alfonso) e Morientes (Egonga). Técnico: José Antônio Camacho
Brasil 0
Marcos; Cafu, Antônio Carlos, Aldair e Roberto Carlos; Emerson, Marcos Assunção, Zé Roberto (Giovanni) e Rivaldo (Zé Elias); Elber e Ânderson (Jardel). Técnico: Candinho
Árbitro: Hans Temmink (Holanda)
Estádio: Balaidos, em Vigo (Espanha)
Público: 28 mil (recorde)
Renda: não divulgadaSeleção principal, com Candinho, fica aliviada após empate com a Espanha
Equipe olímpica, com Luxemburgo, marca 2 a 0 no botinudo time australiano
France PresseEMPATE SUADORivaldo contra Mendieta: desorganização dentro e fora de campoFrance PresseVITÓRIA TRANQUILABrasileiros comemoram o gol de Alex: sistema tático aprovado

mockup