Em Londrina, Ariel Palacios lança obra sobre o lado B do futebol

Em conversa com a FOLHA, jornalista reforçou amor pelo Londrina e comentou aspectos de seu novo livro, que será lançado na cidade nesta semana

Publicado sábado, 16 de maio de 2026 | Autor: Matheus Camargo às 06:00 h

O jornalista e escritor Ariel Palacios lança em Londrina nesta terça-feira (19), na Livraria da Vila, no Aurora Shopping, a partir das 19h, seu novo livro, "Futebol Lado B: Entre deuses, dribles, ditadores e delírios", obra em que mergulha em temas pouco explorados do esporte mais popular do planeta. Argentino de nascimento e brasileiro por criação, Ariel mantém laços profundos com o país, especialmente com a cidade onde viveu por mais de 20 anos.

Formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), ele nunca esconde o apreço por Londrina e especialmente pelo Tubarão. “O Londrina sempre esteve presente na minha vida. Outro dia comentei isso com meu barbeiro. Disse que torço para o Londrina Esporte Clube; ele torce para o Huracán. Ele perguntou como era torcer para o meu time e eu respondi: muitos baixos, alguns altos, mas, pelo menos, o clube saiu da terceira divisão no ano passado”, contou Ariel, em tom bem-humorado.

A ligação começou ainda na infância. “Torço para o Londrina desde os nove anos, quando vi o estádio do Café sendo construído. Do último andar do edifício Alaska, observava aquela estrutura esbranquiçada crescer dia após dia. Meu avô tinha me dado um binóculo, e eu via de longe o estádio tomando forma, sem prédios no caminho”, relembra o jornalista, hoje correspondente do Grupo Globo em Buenos Aires.

Ariel afirma que essa relação com o clube o fez vivenciar o futebol de maneira mais autêntica. “O Londrina teve seus momentos de glória, mas é uma montanha-russa. E, por não torcer para um time ‘winner’, desses sempre na crista da onda, acabo vivendo um futebol mais real. Isso é mais lúdico”, explica. O Londrina, inclusive, aparece brevemente em dois trechos de Futebol Lado B.

Para ele, essa espontaneidade define o modo como enxerga o esporte. “Sinto o futebol de forma muito lúdica, algo que muitos torcedores de clubes grandes talvez não sintam. Para eles, o jogo pode ficar muito comercial, distante da vida real. O Londrina é um futebol mais próximo do cotidiano.”

Um olhar holístico sobre o futebol

Em "Futebol Lado B: Entre deuses, dribles, ditadores e delírios", Ariel aborda o que chama de visão “holística” do esporte, explorando episódios que dialogam com política, sociedade e história mundial. Segundo ele, a obra interessa não só a apaixonados por futebol, mas também a leitores que desejam compreender fenômenos sociais dos últimos anos.

“O livro tenta olhar o futebol de maneira ampla. Traz muitos temas, inclusive conflitos bélicos", pontuou.

A obra também discute como política e futebol se entrelaçam: dirigentes que viraram presidentes, jogadores que chegaram ao poder e ditaduras que utilizaram o esporte como ferramenta, de Benito Mussolini com a Itália em 1934 às estratégias de manipulação durante a Copa do Mundo de 1978, durante a ditadura argentina.

O autor percorre histórias de países que desapareceram e mostra como o futebol, hoje essencial no cotidiano de milhões, é relativamente recente, com cerca de 170 anos, embora versões primitivas existissem muito antes. Ariel recupera modalidades ancestrais. Lembra que, durante uma visita do presidente chinês Xi Jinping a Manchester, há cerca de uma década, dirigentes ingleses afirmaram que haviam “inventado o futebol”. Xi respondeu mencionando o cuju, um jogo chinês praticado mais de dois séculos antes de Cristo e considerado semelhante ao futebol moderno, inclusive reconhecido pela Fifa como a forma mais antiga do esporte. “O livro percorre todos esses aspectos, sem foco em estatísticas, mas buscando ir além”, explica.

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Copa do Mundo

Tomando seu livro e o “lado B” do futebol como ponto de partida, Ariel Palacios demonstra grande curiosidade sobre os desdobramentos da Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México. Seu interesse envolve tanto o cenário político, especialmente o papel do presidente americano Donald Trump, quanto o impacto esportivo e de audiência da primeira edição com 48 seleções, incluindo países pouco tradicionais.

“Acho que veremos um teste importante sobre como Donald Trump vai se comportar em relação ao torneio”, afirma Ariel. “O futebol não é o esporte favorito dos americanos. Apesar do crescimento recente, ainda não está entre os principais do país, especialmente no masculino. Tenho curiosidade em saber de que maneira Trump poderá explorar politicamente o evento. Como o peso cultural do futebol nos Estados Unidos é menor, não sabemos se ele tentará pegar carona caso a audiência surpreenda, ou se simplesmente deixará o assunto de lado.”

Ele cita exemplos recentes de uso político de grandes competições esportivas. “A Copa do Catar foi usada pela ditadura para melhorar a imagem do país, e a Arábia Saudita caminha para algo semelhante em 2034. É o chamado sportswashing. Esse fenômeno havia perdido força nas décadas de 1980 e 1990, com a redemocratização em diversos países da América Latina, África e Ásia. Agora, porém, volta a ganhar espaço, e isso será um desafio nos próximos anos.”

Ariel também observa um ambiente global de crescente radicalização política, no qual extremismos e populismo avançam. “O esporte, inevitavelmente, acaba sendo utilizado por esses movimentos.”

Ariel cita ainda outros exemplos da relação entre esporte e política. “Há uma tendência populista em curso. Um caso é o do presidente argentino Javier Milei. Lionel Messi nunca se pronunciou sobre presidentes e sempre evitou envolvimento político. Nos últimos meses, porém, ficou evidente que Messi tem evitado Milei: participou de diversos eventos em Miami e, em todos eles, saiu antes ou chegou depois, justamente para não cruzar com o presidente”, afirma. Segundo ele, situações como essa poderão render novos capítulos em futuras edições de seu livro.

A próxima Copa, segundo Ariel, traz um cenário inédito, com seleções improváveis como Uzbequistão, Curaçao e Cabo Verde. Para ele, isso cria um ambiente quase surreal. “É curioso observar o espaço que essas novas seleções têm conquistado e imaginar, por exemplo, confrontos diretos entre essas equipes menores.”

Ariel destaca ainda a “inflação” do torneio. Em 1930, no Uruguai, a Copa reuniu apenas 13 seleções e 18 jogos, todos em Montevidéu. Em 2026, serão 48 equipes e 104 partidas. “É uma loucura logística. Uma Copa longa, com 39 dias de competição, espalhada por três países e dezenas de cidades”, afirma.

O escritor avalia que o novo formato tende a encarecer a experiência. “Será um evento caro, praticamente inacessível. Uma Copa para poucos, para ricos. Não sei se esse modelo vai empolgar o público ou se, ao contrário, poderá gerar saturação.”

Ariel observa que a Fifa parece concentrar seus esforços no aumento de lucro e na ampliação do alcance das transmissões, especialmente para países menores — argumento usado para justificar o número maior de participantes. Por outro lado, reconhece que o novo formato cria oportunidades de interesse. “Ver Haiti, Cabo Verde, Curaçao ou Uzbequistão em campo desperta curiosidade, ainda que isso não signifique que o fascínio será generalizado”, conclui.

“Acho que veremos um teste importante sobre como Donald Trump vai se comportar em relação ao torneio”, diz Ariel Palacios sobre a Copa nos EUA
“Acho que veremos um teste importante sobre como Donald Trump vai se comportar em relação ao torneio”, diz Ariel Palacios sobre a Copa nos EUA | Foto: Arquivo Pessoal

Serviço

Livro: Futebol Lado B: Entre deuses, dribles, ditadores e delírios

Autor: Ariel Palacios

Editora: Globo Livros

Lançamento e noite de autógrafos

Data: Terça-feira, 19 de maio de 2026

Horário: 19h

Local: Livraria da Vila - Aurora Shopping - Avenida Ayrton Senna da Silva, 400, 2º piso

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Screenshot | Foto: Divulgação
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Matheus Camargo

Matheus Camargo

Repórter de Esportes, com foco no Londrina Esporte Clube.

Repórter de Esportes com foco no Londrina EC e cobertura do cotidiano da cidade.