A semana brasileira em Sydney começou reluzente. Ontem o Brasil teve um dia de gala: conquistou duas medalhas de ouro, com Roseane Ferreira no lançamento de disco e Ádria Fernandes no 100 metros rasos. De quebra, o corredor Luis Garcia Andrade chegou em segundo na final do 100 metros e conquistou a prata. O maior e mais bonito Estádio Olímpico do mundo, onde, até então, não havia sido tocado o hino brasileiro, foi palco de dois momentos inesquecíveis para o desporto paraolímpico nacional. ‘‘Sem comparações com os atletas olímpicos, temos que comemorar nosso grande dia em Sydney; estas medalhas vão ajudar muito o esporte para deficientes’’, disse, emocionado, o presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), João Batista de Carvalho.
O Brasil ocupa a 24ª colocação com sete medalhas – três de ouro, três de prata e uma de bronze. A liderança é da Austrália, que já ganhou 58 medalhas – 24, 17 e 17.
Roseane Ferreira dos Santos, 29 anos, conquistou o ouro e ainda bateu o recorde mundial na prova do arremesso de peso feminino categoria F58 – para atletas que competem sentadas. A competição começou às 10h15 de segunda-feira em Sydney (21h15 de domingo em Brasília). Em seu segundo arremesso (cada competidora tem direito a seis tentativas), a pernambucana superou o recorde mundial por dez centímetros, com a marca de 9 metros.
Ainda se passariam quase duas horas de competição antes do resultado final, mas foi com esse lance que a brasileira garantiu o ouro. ‘‘Eu sabia que seria segundo lugar; ter ficado com o primeiro foi uma surpresa enorme’’, disse a atleta, que tem a perna esquerda amputada e treina há três anos no Recife. ‘‘Treinei para vencer a melhor do mundo e, graças a Deus, consegui’’, disse ela, chorando, após a prova.
A medalha aumenta a confiança para a prova do lançamento de disco, sua especialidade. Ela volta ao gramado central do estádio para essa competição às 10 horas do próximo dia 26.
100 metros – Apenas 24 horas após bater o recorde mundial nos 100 metros rasos, a brasileira Ádria Santos confirmou o favoritismo e é a mulher mais rápida do mundo na categoria T11/T12 (deficientes visuais). Em apenas 12 segundos e 46 centésimos, a atleta alcançou o ouro paraolímpico no final da tarde do dia 23 (madrugada do dia 22 no Brasil). Depois da conquista, ela contou que ouviu emocionada a vibração de brasileiros que comemoravam muito a sua chegada em primeiro lugar.
Ao final da prova, ela recebeu um abraço rodado do guia, Gérson Knittel, dando a garantia de sua chegada à frente das demais corredoras. ‘‘Treinei muito para isso, mas não foi fácil chegar. Essa foi a resposta para todo meu esforço’’, contou a atleta.
Para o técnico Francisco Mathias, Ádria é uma das melhores corredoras do mundo e vai provar isso em Sydney. ‘‘Espero outras medalhas para ela; sei que está bem preparada.’’
Prata – Por muito pouco mesmo, menos de três centésimos de segundo, André Luiz Garcia de Andrade não consegue mais uma medalha de ouro para o Brasil. O corredor chegou em segundo lugar na final dos 100m para deficientes visuais (T13). Ele fez o tempo de 11s39 e chegou a liderar a prova, mas foi surpreendido com um sprint fantástico do sul-africano Norbert Natthameyer. ‘‘Até o meio da disputa pensei que poderia levar o ouro, não deu, mas fico feliz mesmo assim’’, disse Andrade, depois de confirmado o segundo lugar.
A disputa com o sul-africano foi tão acirrada que Andade, deficiente visual com 17 graus de miopia, esperou para conferir o resultado pelo placar do estádio.
André Luiz tem 19 anos e treina atletismo desde os 15, três horas por dia, na Ulbra (Universidade Luterana Brasileira), situada em Canoas, na Grande Porto Alegre, onde é aluno do primeiro ano de biologia. A universidade lhe oferece alimentação, ajuda de custo e bolsa de estudos. É a primeira Paraolimpíada que André disputa. O atleta volta ao Estádio Olímpico para as provas de 200m e o revezamento 400 x100 .
Futebol – O Brasil empatou por 1 a 1 com a Espanha no futebol PC. O gol de empate do Brasil aconteceu nos cinco minutos de acréscimo. Trouxe alívio para o selecionado brasileiro, que ainda está na briga pelo pódio paraolímpico. O gol foi marcado pelo capitão Douglas. ‘‘Vocês vão ver um time completamente diferente contra a Austrália’’, prometeu o técnico Paulo da Cruz, depois de os jogadores saírem revoltados com o mau desempenho que tiveram em campo. ‘‘Eles não jogaram nada e sabem disso’’, disparou Cruz.
O Brasil volta a jogar na quarta-feira, dia 25, às 16h (3h da madrugada em Brasília), contra a Austrália, já sabendo do resultado que precisará para obter a classificação, pois na preliminar jogam Rússia e Espanha.
Esgrima – A esgrimista Andréa de Mello, 29 anos, está fora dos combates de esgrima na categoria B das Paraolimpíadas. A desclassificação na modalidade espada, especialidade de Andréa, aconteceu no dia 23, no Parque Olímpico. Outra vez, Andréa foi prejudicada pela imposição do Comitê Paraolímpico Internacional (CPI) em imobilizar sua mão direita. A restrição foi justificada pelo fato de seu braço direito posicionar-se, involuntariamente, na altura do peito, o que obstrui o alvo do adversário durante o combate.