Em crise, Galo Guerreiro agoniza
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sábado, 03 de abril de 2004
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Duas datas, dois momentos opostos no coração do torcedor do Grêmio Maringá. Na semana em que o ''Galo Guerreiro'' de outras décadas comemorou 40 anos da conquista do título paranaense de 1963, o primeiro do clube, a torcida e a cidade ganharam de ''presente'' o rebaixamento para a Série Prata do Campeonato Paranaense.
Em 30 de março de 1964, a equipe conseguia um empate em 2 a 2 com o Ferroviário, na Vila Capanema, em Curitiba e levava a taça mais importante do Paraná para a ''Cidade Canção''. No dia 28 de março de 2004, o Grêmio era goleado pelo Paraná Clube por 4 a 1, em pleno Willie Davids, resultado que sacramentava a passagem para a Segundona. Agora, o Galo não canta mais. Ele, que foi guerreiro e reinou soberano pelos terreiros paranaenses durante anos, agoniza e já não faz mais jus ao apelido.
A situação lamentável é resultado de uma crise que começou no meio do ano passado. O presidente Aurélio Almeida, 42 anos, que não sabia nem mesmo a data a ser comemorada na semana passada, foi preso por ter utilizado policiais como seguranças numa audiência judicial. Com isso, os problemas estouraram de vez, principalmente os financeiros.
Os salários dos jogadores, em média R$ 2 mil, estão atrasados desde agosto de 2003. O pagamento dos aluguéis dos dois imóveis que abrigam os atletas também não está em dia e muitas outras contas não estão sendo pagas. ''Nunca passei por uma crise dessa. Já vou para o décimo mês sem receber, a não ser uns valinhos. Minha sorte é que a minha senhora e a minha filha trabalham. Se aparecer alguma coisa boa eu saio, mas não vou trocar seis por meia-dúzia. Ainda tenho esperança que vou receber tudo'', contou o roupeiro Eli Lima, 48, que trabalha no clube desde 1976 e ganha R$ 800 por mês.
Já os jogadores preferem não falar sobre o assunto com medo de não receberem e não conseguirem liberação para procurarem outros clubes.
De acordo com o dirigente, que já foi jogador, treinador e hoje é empresário do futebol, como se auto denomina, responsável, segundo ele, por várias negociações de jogadores com o exterior entre eles a do meia-atacante Giovane, que trocou o Cruzeiro pelo Barcelona , seriam necessários R$ 150 mil para pagar as dívidas e ''começar do zero''.
''Depois do Paranaense iria buscar recursos em países como a Espanha e o México, mas fui preso e por isso a situação chegou a este ponto. O clube ficou meio largado e as pessoas que coloquei para cuidarem das coisas pegaram o dinheiro que tínhamos sem prestar contas'', justifica Almeida. O dinheiro que ele se refere são cerca de R$ 100 mil provenientes de uma espécie de escola de futebol para juvenis e juniores em que os atletas pagavam uma anuidade de R$ 3,8 mil e que foi motivo para o despejo do clube do Estádio Willie Davids.
Almeida ficou preso durante sete meses e 20 dias e passou pelo Presídio de Chapecó (SC), Centro de Triagem de Curitiba, e Colônia Penal Agrícola (CPA), em Piraquara. Ele ainda cumpre pena no regime aberto, que lhe impõe algumas restrições judiciais. Uma delas é a proibição de sair do Brasil. ''Morei por 20 anos no exterior e tenho muitos contatos fora. Fiz um pedido para ir para a Suíça, México e Espanha para buscar recursos'', afirmou o dirigente, garantindo que assim que puder deixar o Brasil pagará todas as dívidas.
A prisão de Almeida, como ele mesmo diz, influenciou diretamente no rendimento do time. Prova disso foi a ''pré-temporada'' para o Paranaense, realizada na região metropolitana de Curitiba. Ao invés de realizar amistosos preparatórios contra equipes profissionais o time enfrentou uma equipe formada por detentos da CPA, onde o presidente do Galo estava.
A falta de pagamento originou uma debandada de jogadores durante o campeonato. Só nas últimas três semanas, 11 atletas abandonaram o Grêmio.
''Sou conhecido por pagar bem até demais. Ninguém ficou sem receber. Foram feitos alguns vales. Tirando três ou quatro jogadores, o restante não têm condições de jogar em time nenhum, nem amador'', acusou. ''Como estava preso, não pude ver quem estava chegando''.
O presidente ainda acredita que o clube possa permanecer na Primeira Divisão. Um recurso do Paraná Clube contra o Francisco Beltrão será julgado na próxima quinta-feira pelo Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da Federação Paranaense de Futebol (FPF). Nele, o clube do Sudoeste é acusado de escalar irregularmente o meia Alex Franco na primeira fase do Estadual. Se perder, o Beltrão será rebaixado. Neste caso, o Grêmio precisaria vencer o Nacional ontem pelo Torneio da Morte e torcer para no mínimo um empate de Prudentópolis e Paraná Clube.
Mas mesmo que se confirme o rebaixamento, o presidente não pretende abandonar o barco. ''Não vou sair da cidade e o Grêmio não acabará. É preciso morrer para nascer novamente. Vamos ressuscitar. Tenho um compromisso comigo e com o torcedor de não deixar o Grêmio morrer''.
E faz até promessas pouco prováveis de acontecerem. ''Já estamos trabalhando para montar o time para a Série C (do Campeonato Brasileiro), se disputarmos. A nossa meta é levar a equipe para a Primeira Divisão do Brasileiro, onde é o lugar do Grêmio. Não é um sonho, é um objetivo e Deus vai me ajudar'', garante.


