EM BUSCA DO PÊNALTI PERDIDO
Paulo Briguet
O goleador ajeita a bola na marca da cal. Zero a zero.
(O pênalti perdido nasce de uma hesitação, de um frio na barriga, de um sorriso irônico do goleiro. O pênalti perdido nasce de um grito na arquibancada, de uma lembrança amorosa, de uma briga de infância.)
Ele corre e chuta. A bola sobe em diagonal e explode no travessão. Os companheiros de equipe tentam consolar o goleador. Isso acontece.
A partida continua. Nova penalidade. Ele ajeita a bola e pensa: Um raio não cai duas vezes sobre a mesma cabeça.
(O pênalti perdido nasce de uma confiança exagerada, de uma ambição sem limites, de uma vontade sem energia. O pênalti perdido nasce de um erro de cálculo, de uma cantada sem sucesso, de um medo atávico.)
A bola sobe outra vez em diagonal. Dessa vez, voa livre para o tiro-de-meta.
A partida caminha para o final. Mais uma vez, o goleador ajeita a bola na marca. É uma questão de honra. Ele avança em direção à bola, como o homem que atravessa o corredor da morte.
(O pênalti perdido nasce de um desespero, de uma obsessão, de uma auto-engano. O pênalti perdido nasce de um país inteiro, de uma transmissão ao vivo, de um valor de passe.)
A bola morre fraca nas mãos do goleiro.
Os companheiros de equipe nem o consolam mais: parecem bravos. O placar exibe 3 a 0. O goleador fez história.
(O pênalti perdido nasce por geração espontânea, azar e destino. O pênalti perdido nasce das probabilidades, da geometria e do inconsciente. O pênalti nasce da angústia, do caos e da incerteza.)
E você - nunca perdeu um pênalti?





