Em 90 minutos, torcedor vive uma eterna ciranda
Vida de torcedor é realmente uma ciranda: varia da euforia à raiva, do amor ao ódio em parcos 90 minutos de jogo. Ontem não foi diferente no Estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), em Londrina. Os fanáticos pelo Tubarão, que chegaram apostando na necessária goleada para continuar a saga de volta à Série B do Brasileirão, saíram azedados pelo sabor amargo da derrota miúda sofrida diante da nada excepcional equipe do Ceilândia.
Antes do apito inicial, o ambiente na concentração da Falange Azul era de esperança. ''Independente do resultado, queremos ver garra e determinação. O grupo é limitado mas bem unido e esperamos que isso se repita hoje. Que entrem em campo com o espírito de time guerreiro, que é a cara da atual diretoria'', elogiou Luciano de Castro, relações públicas da maior torcida organizada do Londrina Esporte Clube, com cerca de 850 integrantes. Para ele, os dois mil ''abnegados'' torcedores que sempre acompanham as partidas do clube iriam fazer a diferença.
A expectativa do torcedor era tamanha que o maratonista cinquentão que fazia bico de cambista, Jurandir Pereira do Carmo, compôs até sambinha para a vitória: ''Tubarão vem do mar e provoca arrepios; o Ceilândia outra vez vai ficar a ver navios; vai levar de quatro a zero entre vaias e assovios.''
Até um casal de gringos foi ao estádio ver a alegria que envolve a maior paixão nacional. Levados pelo amigo Valdir Flora Batista, os missionários norte-americanos Francis e Betty McManamon, gostaram de tudo. Ainda bem que a pouca fluência no português dos dois os impediram de ouvir os impropérios ditos pelos torcedores ao final da partida.
Do alto de seus 78 anos, seo Júlio Fajardo usou a experiência de 30 anos acompanhando o LEC para não arriscar nenhum resultado. Com o radinho comprado há 33 anos colado aos ouvidos acompanhou todos os movimentos até o Ceilândia abrir o marcador no início do segundo tempo. Depois, pegou suas coisinhas e foi para casa. Talvez, fazendo comparação entre o presente e o passado, quando certa vez viu o LEC estar perdendo de três a zero para o rival regional Arapongas e conseguir virar o jogo.
Quem também conhece a história do Londrina como poucos é o professor de educação física Jefferson de Lima Sobrinho. O autor do livro mais recente, ''e completo'', sobre a trajetória do Tubarão, ontem viu o time virar mais uma página de seus quase 50 anos. Desta vez, pena que o final não foi feliz. ''Não é um time ruim mas falta uma referência em campo. Faltam peças mas isso custa dinheiro'', observou.
Comentaristas E como torcedor sabe sempre o que deu errado na derrota, aqui vão algumas análises. ''Foi má orientação técnica. O time não tem conjunto e jogou na correria'', disparou o aposentado Antônio Gregório Maiolini. ''O Tubarão jogou muito retrancado'', criticou Valmir Cardoso. ''O LEC jogou bem mas o adversário ficou atrás e não teve jeito de furar a barreira armada'', lamentou Élcio Pinheiro.
No final, os únicos com algo a comemorar foram mesmo as 30 testemunhas vindas de Ceilândia para assistirem ao jogo. Legítimos candangos, o grupo teve que sair escoltado pela Polícia Militar, mas foi corajoso para abrir a bandeira alvinegra em pleno gramado do VGD. ''Hoje vai ter festa no Planalto Central'', avisou o ''Gato Maníaco'' Édson Fernando.
Aos torcedores do Londrina restou apenar protestar na saída dos vestiários. Mas até nisso, foram frustados pelo cordão de isolamento feito por dezenas de policiais.





