Em 17 edições, apenas um rei e vários heróis
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sábado, 18 de fevereiro de 2006
Antero Greco<br> Agência Estado 
São Paulo - Os Mundiais têm caráter épico, por mais que, em 76 anos de história, se transformaram em negócio lucrativo, para cartolas, anunciantes e jogadores. Nas 17 edições da festa da bola, não faltaram vilões, mas sobretudo sobraram heróis. Alguns sobressaíram de tal forma que puderam ostentar o título simbólico de Reis de Copas. Se bem que, no fim das contas, rei do futebol rei mesmo, pra valer, digno da honraria só houve um... Pelé, ainda à espera de herdeiro.
Os registros antigos não se mostram muito generosos nas referências aos grandes destaques das primeiras Copas. Na competição inaugural, em 1930, chamaram a atenção o argentino Guillerme Stabile (artilheiro com 8 gols) e o uruguaio Hector Castro, ''El Manco'' e campeão do mundo. Quatro anos mais tarde, na Itália sob jugo fascista, brilhou a estrela de Giuseppe Meazza, goleador da vencedora 'Squadra Azzurra'. Um mito que virou nome de estádio o San Siro, de Milão.
A Copa da França, em 38, consagrou Leônidas da Silva, o ''Diamante Negro'', com seus 8 gols para a seleção brasileira terceira colocada e que já despontava como força internacional.
O Mundial de 50, aquele da derrota verde-amarela mais doída os 2 a 1 para o Uruguai sobre o Brasil, na decisão no Maracanã , consolidou a fama de Ademir ''Queixada'' como matador (foram 9 gols), além da arte de mestre Zizinho, de Jair, de Friaça. Mas Obdulio Varella, Schiaffino e Ghiggia voltaram para casa como os conquistadores por seu desempenho no campeonato. Os dois últimos, de quebra, ainda marcaram os gols da virada que rendeu a segunda estrela à ''Celeste Olímpica''. O Maracanazo jamais foi esquecido; em compensação, os uruguaios nunca mais foram os mesmos e há décadas desempenham papel secundário no futebol.
A Alemanha, em 54, assistiu a exibições primorosas dos húngaros Kocsis (11 gols), Puskas e Czibor. Eles formavam parte do ataque que espancava rivais com graça, arte e leveza. As vitórias vinham como se fossem treinos: 9 a 0 na Coréia do Sul, 8 a 3 na Alemanha Ocidental, 4 a 2 no Brasil, 4 a 2 no Uruguai. Aqueles malabaristas só não tiveram glória total porque caíram por 3 a 2 diante dos alemães ocidentais, na hora em que valia a taça. Fritz Walter foi quem saiu como ganhador.
Surge o Rei O marco na história das Copas e do futebol ocorreu em 1958, na Suécia. O Brasil havia cumprido seu mais bem elaborado plano de preparação e levava para as terras do rei Gustavo elenco com a dosagem certa entre veteranos e jovens talentos. Na estréia, bateu a Áustria por 3 a 0, com dois gols de José Altafini, o Mazzola, que depois do torneio foi para a Itália, onde vive até hoje. Na segunda partida, empate de 0 a 0 com a Inglaterra e o risco de eliminação.
Veio, então, a decisão que daí em diante encantou o mundo para sempre. O técnico Vicente Feola atendeu à sugestão de alguns líderes do time e resolveu fazer alterações para o duelo com a antiga União Soviética. A principal delas foi a de colocar em campo o adolescente Pelé, 17 anos e alguns meses, cria do Santos e, então, considerado a maior promessa do Brasil. Também entraram o volante Zito e Garrincha mas Mané é assunto para daqui a pouco.
A seleção bateu a URSS por 2 a 0, gols de Vavá, mas Pelé deixou críticos e torcedores com a pulga atrás da orelha, por conta de alguns dribles que fugiam à rotina. Nas quartas-de-final, o garoto desencantou, ao marcar o gol da vitória por 1 a 0 sobre o País de Gales era o primeiro dos 12 que faria em quatro Copas. A imprensa européia espalhou o zum-zum-zum e os enviados especiais se perguntavam: ''Quem é esse jovem?''
Pergunta que Pelé se encarregou de responder na semifinal, contra a França; ele anotou os três últimos gols nos 5 a 2 que deixaram o Brasil perto do título. A consagração veio na decisão contra os anfitriões suecos. Outra vez vitória por 5 a 2, dois gols um deles com chapéu em um zagueiro na área e enfim a conquista da taça Jules Rimet.
Enquanto Pelé dava a volta olímpica no estádio de Estocolmo e chorava, nos braços do goleiro Gilmar, a imprensa mundial constatava o nascimento do primeiro e até hoje único Rei do Futebol. Ninguém foi protagonista da Copas tão jovem. O maior astro do planeta bola sucumbiu a uma distensão, em 1962, no Chile, e não resistiu às pancadas dos portugueses, no fiasco nacional em 1966, na Inglaterra. No entanto, voltou a desfilar sua majestade em 1970, às vésperas dos 30 anos, ao comandar um grupo de virtuoses na campanha do tricampeonato. Naquele verão mexicano, Pelé foi o Rei, mas teve súditos de primeira grandeza, como Carlos Alberto, Tostão, Rivellino, Gerson, Jairzinho, Clodoaldo.


