Élber, um goleador de solidaridade
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domingo, 13 de dezembro de 2009
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Uma criança que já não fala mais palavrão. Uma outra que pega gosto por uma modalidade esportiva. Outra que aprende que o respeito é fundamental na vida. Esses são os presentes que o ex-atacante Élber ganha a cada visita que faz à Escola Oficina Pestalozzi, em Londrina. São as provas de que a bondade dele, que preside a Fundação Élber Giovane, e a vontade de dar um futuro melhor para algumas crianças carentes da cidade valem a pena.
O ex-jogador é o principal entusiasta da entidade, que recebe cerca de 140 crianças do Jardim Franciscatto II. É um londrinense que deixou a cidade para ganhar o mundo e não se esqueceu de voltar para retribuir.
''Graças a Deus eu posso ajudar. Isso aqui não é meu, é das crianças. Elas iriam estar na rua, aprendendo sabe-se lá o quê. Aqui elas têm o lanche delas, o reforço escolar, atividades físicas, culturais...'', disse o ex-jogador. ''Elas aprendem bons modos, são disciplinadas desde pequenas. A gente via que elas chegavam aqui e não respeitavam ninguém. E isso vai mudando''.
A cada ida do jogador nas unidades da Pestalozzi em Londrina é uma festa. As crianças tentam demonstar carinho de todas as formas, seja brincando, seja abraçando, agradecendo. A maioria nem sabe quem foi o Élber jogador, mas isso nem importa para elas, pois sabem que se não fosse por ele, certamente elas estariam na rua. E ele entra no embalo e faz a festa. ''Eu chego e elas não sabem quem eu sou, aí vou para a quadra jogar bola com eles e falam: 'olha, o tio é bom'''.
A história começou em 1994, quando Élber defendia o Sttutgart, da Alemanha. Um amigo dele completou 45 anos e pediu aos amigos que lhe dessem de presente, um valor em dinheiro, que seria repassado ao jogador, para que viesse ao Brasil, comprasse algumas cestas básicas e distribuísse. ''Vim e entreguei. Quando levei as fotos das crianças recebendo, eles gostaram muito e decidiram fazer a cada ano algo maior e já são 15 anos do projeto'', contou.
A base de sustentação do projeto continua em Sttutgart. Por lá, empresários se unem para levantar fundos a serem enviados para Londrina. Já Élber, faz a parte social por aqui. Todo ano traz cerca de 25 alemães para a cidade a fim de conhecer o projeto e aproveita para vender Londrina como local para investimentos empresariais. No mês passado, três empresários alemães foram até a Pestalozzi do Jardim Franciscatto II. Um deles fez uma doação de US$ 10 mil. Desde 94, ele já conseguiu arrecadar cerca de R$ 1,8 milhão, dinheiro com o qual estruturou a escola e a manteve em funcionamento.
''O difícil é manter em pé. Construir, constrói, mas e depois? O que os jogadores ou as pessoas conhecidas da cidade têm que fazer é se juntar. Amanhã ou depois eu não estou mais aqui e o projeto anda'', cobrou. ''Estou conseguindo, pouco a pouco, envolver a comunidade de Londrina. A comunidade é muito carente e precisava de um lugar. Construímos a estrutura, mas precisamos de grana para manter, senão acaba''.
Uma grande festa está sendo preparada para arrecadar dinheiro para o projeto. Será no dia 25 de abril, em Sttugart. O cantor brasileiro Edson Cordeiro, que mora em Berlim, irá se apresentar sem cobrar cachê.
Maior transação
Élber foi vendido pelo Londrina ao Milan em 89 por US$ 1 milhão - é a maior transação da história do clube -, mas pouco ficou na equipe que hoje tem Ronaldinho Gaúcho, Alexandre Pato, Dida e Thiago Silva no elenco. Consolidou sua carreira na Alemanha. Primeiro no Sttutgart, depois no Bayern de Munique, onde é ídolo e faz parte da seleção do todos os tempos, ao lado de nomes como Jurgen Klinssmann e Lothar Matthaus. Élber é uma personalidade na Alemanha e usa isso em prol de sua Fundação.
Em 2007, o ex-atacante promoveu um bazar beneficente com materias oficiais do Bayern de Munique. As vendas renderam R$ 250 mil à Pestalozzi. O valor, porém, poderia ser bem maior não fosse a burocracia do governo brasileiro. O material doado pelo clube alemão ficou três anos preso na fiscalização e, quando foi liberado, uma parte sumiu. ''Isso me deixa muito chateado. Essa burocracia para a gente ajudar um projeto social. Eles (políticos) não vêm aqui ver o que estamos fazendo, o que as crianças precisam. Todo centavo que entra lá na Alemanha é fiscalizado pelo governo alemão. Não há o que esconder. Essa é a única mágoa'', desabafou, bastante indignado.
Élber se satisfaz com o carinho que recebe das crianças e dos voluntários que ajudam no projeto. ''O que ganho deles é bem maior do que o que dou. Até alemão, que é frio, chora quando vem aqui. Na Alemanha, as crianças têm um futuro, tem o governo por trás. Aqui, as crianças retribuem em forma de carinho, o que não se tem lá'', afirmou.
Élber está ajudando outra entidade. Ele conseguiu incluir a Casa do Caminho num programa parecido com o Criança Esperança, da Rede Globo, e a entidade ganhará um berçário novo. ''Muita gente se mobiliza no Natal, mas e o resto do ano? Como as crianças ficam?'', questionou.
Eles usam o meu exemplo de vida
Para conseguir uma vaga na Pestalozzi, as crianças têm que estar estudando. Ainda assim, passam por uma triagem para entrar aquelas que são mais necessitadas. Muitas já não tem o pai em casa para dar suporte. Eles usam o meu exemplo de vida e enxergam que podem vencer, disse, satisfeito, o ex-atacante Élber.
Além do reforço escolar, as crianças atendidas na Pestalozzi recebem aulas de música, capoeira, canto, esportes em geral e Ginástica Rítmica, modalidade que cativou as meninas. É muito legal, faço abertura, ponte e ganho medalha, comemorou a pequena Gabriela de Oliveira, de 10 anos. A amiga Mayara Moreira Ferreira, também de dez, é outra aluna empolgada de GR, mas tem outra paixão. Penso em ser jogadora de futebol. Mas tenho que aprender antes cidadania, não brigar, não xingar.
A entidade ainda tem uma segunda unidade, mais central, voltada para atividades profissionalizantes de adolescentes. (T.M.)


