Uma criança que já não fala mais palavrão. Uma outra que pega gosto por uma modalidade esportiva. Outra que aprende que o respeito é fundamental na vida. Esses são os presentes que o ex-atacante Élber ganha a cada visita que faz à Escola Oficina Pestalozzi, em Londrina. São as provas de que a bondade dele, que preside a Fundação Élber Giovane, e a vontade de dar um futuro melhor para algumas crianças carentes da cidade valem a pena.
O ex-jogador é o principal entusiasta da entidade, que recebe cerca de 140 crianças do Jardim Franciscatto II. É um londrinense que deixou a cidade para ganhar o mundo e não se esqueceu de voltar para retribuir.
''Graças a Deus eu posso ajudar. Isso aqui não é meu, é das crianças. Elas iriam estar na rua, aprendendo sabe-se lá o quê. Aqui elas têm o lanche delas, o reforço escolar, atividades físicas, culturais...'', disse o ex-jogador. ''Elas aprendem bons modos, são disciplinadas desde pequenas. A gente via que elas chegavam aqui e não respeitavam ninguém. E isso vai mudando''.
A cada ida do jogador nas unidades da Pestalozzi em Londrina é uma festa. As crianças tentam demonstar carinho de todas as formas, seja brincando, seja abraçando, agradecendo. A maioria nem sabe quem foi o Élber jogador, mas isso nem importa para elas, pois sabem que se não fosse por ele, certamente elas estariam na rua. E ele entra no embalo e faz a festa. ''Eu chego e elas não sabem quem eu sou, aí vou para a quadra jogar bola com eles e falam: 'olha, o tio é bom'''.
A história começou em 1994, quando Élber defendia o Sttutgart, da Alemanha. Um amigo dele completou 45 anos e pediu aos amigos que lhe dessem de presente, um valor em dinheiro, que seria repassado ao jogador, para que viesse ao Brasil, comprasse algumas cestas básicas e distribuísse. ''Vim e entreguei. Quando levei as fotos das crianças recebendo, eles gostaram muito e decidiram fazer a cada ano algo maior e já são 15 anos do projeto'', contou.
A base de sustentação do projeto continua em Sttutgart. Por lá, empresários se unem para levantar fundos a serem enviados para Londrina. Já Élber, faz a parte social por aqui. Todo ano traz cerca de 25 alemães para a cidade a fim de conhecer o projeto e aproveita para vender Londrina como local para investimentos empresariais. No mês passado, três empresários alemães foram até a Pestalozzi do Jardim Franciscatto II. Um deles fez uma doação de US$ 10 mil. Desde 94, ele já conseguiu arrecadar cerca de R$ 1,8 milhão, dinheiro com o qual estruturou a escola e a manteve em funcionamento.
''O difícil é manter em pé. Construir, constrói, mas e depois? O que os jogadores ou as pessoas conhecidas da cidade têm que fazer é se juntar. Amanhã ou depois eu não estou mais aqui e o projeto anda'', cobrou. ''Estou conseguindo, pouco a pouco, envolver a comunidade de Londrina. A comunidade é muito carente e precisava de um lugar. Construímos a estrutura, mas precisamos de grana para manter, senão acaba''.
Uma grande festa está sendo preparada para arrecadar dinheiro para o projeto. Será no dia 25 de abril, em Sttugart. O cantor brasileiro Edson Cordeiro, que mora em Berlim, irá se apresentar sem cobrar cachê.
Maior transação
Élber foi vendido pelo Londrina ao Milan em 89 por US$ 1 milhão - é a maior transação da história do clube -, mas pouco ficou na equipe que hoje tem Ronaldinho Gaúcho, Alexandre Pato, Dida e Thiago Silva no elenco. Consolidou sua carreira na Alemanha. Primeiro no Sttutgart, depois no Bayern de Munique, onde é ídolo e faz parte da seleção do todos os tempos, ao lado de nomes como Jurgen Klinssmann e Lothar Matthaus. Élber é uma personalidade na Alemanha e usa isso em prol de sua Fundação.
Em 2007, o ex-atacante promoveu um bazar beneficente com materias oficiais do Bayern de Munique. As vendas renderam R$ 250 mil à Pestalozzi. O valor, porém, poderia ser bem maior não fosse a burocracia do governo brasileiro. O material doado pelo clube alemão ficou três anos preso na fiscalização e, quando foi liberado, uma parte sumiu. ''Isso me deixa muito chateado. Essa burocracia para a gente ajudar um projeto social. Eles (políticos) não vêm aqui ver o que estamos fazendo, o que as crianças precisam. Todo centavo que entra lá na Alemanha é fiscalizado pelo governo alemão. Não há o que esconder. Essa é a única mágoa'', desabafou, bastante indignado.
Élber se satisfaz com o carinho que recebe das crianças e dos voluntários que ajudam no projeto. ''O que ganho deles é bem maior do que o que dou. Até alemão, que é frio, chora quando vem aqui. Na Alemanha, as crianças têm um futuro, tem o governo por trás. Aqui, as crianças retribuem em forma de carinho, o que não se tem lá'', afirmou.
Élber está ajudando outra entidade. Ele conseguiu incluir a Casa do Caminho num programa parecido com o Criança Esperança, da Rede Globo, e a entidade ganhará um berçário novo. ''Muita gente se mobiliza no Natal, mas e o resto do ano? Como as crianças ficam?'', questionou.


‘­Eles ­usam o meu exem­plo de ­vida’
  Pa­ra con­se­guir uma va­ga na Pes­ta­loz­zi, as crian­ças têm que es­tar es­tu­dan­do. Ain­da as­sim, pas­sam por uma tria­gem pa­ra en­trar aque­las que são ­mais ne­ces­si­ta­das. Mui­tas já não tem o pai em ca­sa pa­ra dar su­por­te. ‘‘­Eles ­usam o meu exem­plo de vi­da e en­xer­gam que po­dem ­vencer’’, dis­se, sa­tis­fei­to, o ex-ata­can­te Él­ber.
  ­Além do re­for­ço es­co­lar, as crian­ças aten­di­das na Pes­ta­loz­zi re­ce­bem au­las de mú­si­ca, ca­poei­ra, can­to, es­por­tes em ge­ral e Gi­nás­ti­ca Rít­mi­ca, mo­da­li­da­de que ca­ti­vou as me­ni­nas. ‘‘É mui­to le­gal, fa­ço aber­tu­ra, pon­te e ga­nho ­medalha’’, co­me­mo­rou a pe­que­na Ga­brie­la de Oli­vei­ra, de 10 ­anos. A ami­ga Ma­ya­ra Mo­rei­ra Fer­rei­ra, tam­bém de dez, é ou­tra alu­na em­pol­ga­da de GR, mas tem ou­tra pai­xão. ‘‘Pen­so em ser jo­ga­do­ra de fu­te­bol. Mas te­nho que apren­der an­tes ci­da­da­nia, não bri­gar, não ­xingar’’.
  A en­ti­da­de ain­da tem uma se­gun­da uni­da­de, ­mais cen­tral, vol­ta­da pa­ra ati­vi­da­des pro­fis­sio­na­li­zan­tes de ado­les­cen­tes. (T.M.)

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