E Londrina já sente saudades do Pré
Lúcio Horta
De Londrina
Foram exatamente 36 dias respirando Seleção Brasileira. O time do técnico Wanderley Luxemburgo chegou a Londrina no dia 3 de janeiro, logo após o Reveillon, e só foi embora ontem de manhã, carregando na bagagem o título do Pré-Olímpico. Durante este período, o cotidiano da cidade se transformou. Em todos os lugares e rodas de bate-papo, o assunto sempre passava pelo torneio. Desde o desempenho da equipe até as fofocas sobre supostas noitadas envolvendo jogadores, comissão técnica e jornalistas famosos.
Para quem estava próximo do Crystal Palace Hotel, residência oficial do time durante estes dias, a transformação era mais evidente. Impossível para qualquer cidadão comum não botar um olhar curioso quando percebia a presença do ônibus verde-amarelo. Sem contar o vai-e-vem de tietes, jornalistas e cabos de televisão.
Mas, depois da partida, a cidade começa a voltar ao normal. É como se fosse uma ressaca pós-carnaval bem no início de fevereiro. Apesar de todo trabalho que tivemos, com certeza vai dar para sentir falta, disse ontem o recepcionista Ricardo Tamanini, 26 anos, que trabalha no Crystal.
Aliás, o hotel não era o mesmo depois da partida da Seleção. Ao contrário da correria diária, tão comum durante o Pré, ontem à tarde a calmaria no hall era um contraste gritante. A única evidência de que a Seleção esteve por ali era a van da CBF estacionada em frente. E que vai embora hoje de manhã, junto com os últimos integrantes da delegação.
Nunca tivemos um evento tão agitado, com tantas exigências. Mas nos acostumamos e o pessoal da CBF foi extremamente bacana, completou Tamanini, que colecionou algumas histórias curiosas. Por exemplo: gente que pedia informações sobre hospedagem mas que só pensava em arrancar um autógrafo dos jogadores.
Também chamou a atenção o número de telefonemas que o hotel recebia. Os funcionários estavam orientados a filtrar as ligações, pedindo para que a pessoa ligasse direto para o celular do jogador. Mesmo que quem estivesse do outro lado da linha fosse a mãe do jogador Ronaldinho Gaúcho. Algumas insistiam, diziam que estavam sem o número. Só o Ronaldinho Gaúcho arrumou umas 30 mães em Londrina, brinca Tamanini.
Realmente nunca tinha visto um movimento tão grande. Agora que está parado, já começa a fazer falta, concorda Rodrigo Andrade e Silva, 20 anos, que trabalha na Panificadora Family, ao lado do hotel. Tinha muita gente da imprensa, muita agitação. Até o Rivellino veio aqui tomar café, lembrou, com orgulho.
Na Lotérica Camargo, ainda no Calçadão, ontem foi dia de desarrumação: as bandeiras e bexigas com as cores verde e amarela foram removidas com o fim do torneio. Aqui tornou-se uma loucura, com muita fila, muita gente. Tivemos até que aumentar o número de funcionários, disse Sérgio Lopes Alves, 51 anos, sócio-proprietário da lotérica onde foram comercializados, no total, 17 mil ingressos dos jogos do Pré.
Em 16 anos, essa foi uma experiência inédita, completou o taxista José Luiz Ferreira de Abreu, 50 anos. Ele trabalha no ponto da Rua Hugo Cabral com Avenida Paraná, ao lado do hotel. No entanto, Ferreira anotou uma vantagem com o fim do Pré: o trânsito ficava muito complicado quando ele tinha que sair do ponto na mesma hora em que a Seleção estava saindo do hotel. Tudo que é demais é ruim. Mas espero que um dia volte a acontecer.
Outro que já está sentindo falta da Seleção é o comerciante Luiz Antônio Martinez, 33 anos, da Banca Brasil, na Rua Sergipe. Ele conta que o que mais chamou a atenção durante o Pré foi a presença de estrangeiros, sobretudo os vizinhos sul-americanos. Curioso é que, tirando os argentinos, eles pechincham muito. Mas no geral foi muito bom.
No Estádio do Café, palco das grandes vitórias e alguns fiascos da seleção, os torcedores deram lugar ao pessoal da limpeza. As cores verde e amarelo, que predominavam durante os jogos, foram substituídas pelos sacos pretos de lixo. No gramado castigado, nada de craque tratando a bola. Sobraram apenas o vazio e a saudade.Após 36 dias respirando Seleção brasileira, cidade tenta retomar seu cotidiano. Do torneio, restaram algumas histórias...
César AugustoTamanini, recepcionista do Crystal: Vai dar para sentir faltaCésar AugustoRodrigo, da Panificadora Family: Até o Rivelino veio aquiCésar AugustoLuiz, da Banca Brasil: Fora os argentinos, todos pechinchavamJosoé de CarvalhoPALCO VAZIONo Estádio do Café, pessoal da limpeza substitui torcedores: bandeiras e camisas verde-amarelas dão lugar a sacos pretos de lixo





