'É a melhor fase da natação brasileira'
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sábado, 26 de setembro de 2009
Renato Oliveira<br> Reportagem Local 
Até César Cielo trazer o primeiro ouro Olímpico da história da natação brasileira, em 2008, ninguém tinha dúvidas: Gustavo Borges era o principal nome das piscinas. Até então, foram quatro medalhas em Olimpíadas, sendo duas de prata (Barcelona 1992 e Atlanta 1996) e duas de bronze (Atlanta 1996 e Sidney 2000). Atualmente, o ídolo se dedica aos negócios - é sócio-proprietário de uma rede de academias - e desenvolve trabalho de base com futuros nadadores.
Sobre o atual panorama do esporte, acredita que ''é a melhor fase da natação brasileira de todos os tempos, indiscutivelmente'' e considera César Cielo como ''a grande estrela'' da nova geração. Em entrevista à FOLHA, ele falou ainda sobre o fenômeno Michael Phelps, nomes para o futuro nas piscinas e disparou: ''Sou totalmente a favor dos super-maiôs''
FOLHA - Por que você resolveu abrir uma academia?
Gustavo Borges - A primeira ideia surgiu de uma conversa entre amigos. Eu e o Renato Ramalho (ex-nadador olímpico). A proposta seria de fazer alguma coisa diferente daquilo que fazia dentro da piscina, que não sabia exatamente o que seria, porque o atleta passa por uma fase de transição em determinado momento da carreira que precisa ter sentido. E a academia parecia uma coisa muito natural, porque tinha natação, esporte e fitness envolvido. Então, essa transição foi fácil. Abri primeiro em Curitiba, devido a proximidade do Renato, e fomos dando sequência passando por São Paulo até chegar em Londrina (a academia na cidade completou 1 ano ontem).
FOLHA - O que tem feito hoje para revelar talentos?
Borges - Nossa metodologia faz isso indiretamente. As academias vão gerar matéria-prima para os clubes trabalharem com atletas. Nós temos uma pequena interferência aí. Dentro de uma unidade existe uma equipe que cuida da parte de trabalhos competitivos, em Curitiba, que está entre os cinco melhores clubes filiados à federação. Essa é uma contribuição para o lado competitivo, mas não nosso foco principal, que são famílias que buscam qualidade de vida e bem-estar.
FOLHA - Como você vê o atual momento dos brasileiros na natação mundial?
Borges - É a melhor fase da natação brasileira de todos os tempos, indiscutivelmente. Nós temos um grupo de talentos muito bom, com medalhistas, miolo e base. O resultado que nós conseguimos no mundial (de Roma) foi surpreendente. Dezoito finais não é qualquer coisa, entre finalistas, campeões e recordistas. Tem de tudo, lógico que liderados pelo César Cielo que é nossa grande estrela, e que vai manter esse trabalho. Essa é a prova do bom momento.
FOLHA - Como vê declaração do César Cielo, que afirmou que se inspirou em você?
Borges - Bacana isso. Quando participei da última prova lá em Atenas, era de madrugada aqui no Brasil (seis horas da manhã), o Cielo estava com minha família assistindo lá de casa. Ele é um cara muito talentoso e fico feliz por ter ajudá-lo na sua formação.
FOLHA - Em quem você aposta para o futuro?
Borges - O Felipe França ainda precisa desenvolver mais os 100 metros nado livre. Ele é realidade na prova dos 50 metros, foi recordista mundial e é o atual vice-campeão na prova. É um dos quatro melhores nadadores dos 100 metros, no Brasil, e com certeza é uma das forças para 2012. Eu aposto nele para estar numa final nas próximas olimpíadas e em todos que pegaram final no mundial, como Thiago Pereira, Henrique Barbosa, Gabriela Silva e Daynara de Paula. São atletas que trouxeram resultados expressivos que vão gerar alegrias no futuro.
FOLHA - Como você analisa a equipe feminina?
Borges - Ainda é um pouco instável. Em 2004, a natação feminina deu show e foi melhor que a masculina. Foi uma grande evolução. Joanna Maranhão e o revezamento supreenderam e tiveram forte presença na Olimpíada. Em 2008, teve a Gabriela chegando na final e a Joanna voltando de um período difícil. Em 2009, senti que consolidou um pouco, tem um equilíbrio de atletas que nunca observei. É o reflexo de um trabalho feito lá atrás, mas que ainda dá para evoluir.
FOLHA - Michael Phelps é o grande nome da natação?
Borges - Vai demorar, no mínimo, uns 20 anos para surgir outro como ele. É coisa para cinco ciclos olímpicos.
FOLHA - O que você acha dos super-maiôs?
Borges - Eu sou totalmente a favor dos super-maiôs. Quando se fala em tecnologia não tem volta atrás. Acho que tem que fazer restrições. Entre 'pode tudo' e 'não pode nada', eu estaria indo para o 'pode tudo' com restrições. O que é isso? Permitir níveis de flutuabilidade, permeabilidade e gramatura do equipamento. A grande discussão é sobre a legitimidade do tecido, sobre o que é ou não é. Essa é a grande dificuldade e como a FINA (Federação Internacional de Natação) não se antecipou, eu acho que vai voltar para a sunga e maiô. Essa é a maneira mais fácil de controlar o nível de exposição do corpo a um material que possa flutuar. Eu sou contra.
FOLHA - Essa polêmica surgiu devido a quê?
Borges - São dois fatores: quem fabrica e os recordes que caíram. Se a Speedo tem um equipamento melhor que os demais, quem vai reclamar? Os outros. Como tem uma brecha na lei, a Speedo estava coerente. Com a mesma brecha, outras empresas fizeram um produto diferente, que também podia. O negócio é que foram 108 recordes, durante um ano, e 50 no outro, só até o Mundial de Natação 2009, onde foram quebrados outros 42. Só isso já gera polêmica. E tem a briga entre os que acham que o recorde ficou banalizado. O problema é que foi tudo muito rápido, numa escala estratosférica.
FOLHA - Os casos de doping do atletismo pode ter reflexos em outras modalidades, como a natação brasileira?
Borges - Existem vários casos, em médio porte, na natação do Brasil. O mais recente é o da Rebecca Gusmão. Imagino que nos últimos anos a frequência é maior do que deveria. Não como no atletismo, mas isso só foi pego porque começaram a fazer um antidoping. O atleta não pode ser ingênuo. Tem que agir com ética e a pior coisa para a carreira é ser pego no doping.


