Quem disse que somente o Estado de Goiás tem tradição em revelar duplas caipiras? O Paraná teve uma que brilhou durante as décadas de 60 e 70. Só que essa não cantava. O palco de Paquito e Tião Abatiá eram gramados de futebol onde faziam o que sabiam fazer como ninguém: gols. Eles formaram a principal dupla de ataque da história do União Bandeirante e ficaram conhecidos como ''dupla caipira'' por serem do interior. Depois, brilharam também no Coritiba.
José Martins Manso, 56 anos, o Paquito, e Sebastião José Ferri, 58, o Tião Abatiá, infernizaram os adversários e foram responsáveis pelas campanhas vitoriosas do União. Ambos eram goleadores e se revezavam na artilharia dos campeonatos estaduais. O primeiro era técnico e o segundo jogador de área. ''Ele não perdia gol'', define Paquito, se referindo ao companheiro.
O apelido Paquito surgiu ainda quando era criança. Seu pai criava pacas e ele tratava dos animais, então a ''molecada'' o apelidou de Zé das Pacas, que mais tarde tornou-se o Paquito. Ele começou a carreira na Santacruzense, de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), em 1964, e foi levado para o time de Bandeirantes pelo então técnico Pupo Gimenez, em 65.
No mesmo ano, Tião, nascido em Abatiá por isso o apelido , foi dispensado do time. ''Eu era molecão e surgiu uma oportunidade de jogar na Cambaraense. Eu fui e me destaquei, depois o União me contratou'', lembra.
Há aqueles que contem outras versões sobre a ida do atacante para o União. ''Os outros membros da diretoria queriam dispensar o Tião, mas eu resolvi dar outra chance a ele. Foi quando começou a fazer gols'', garante o ex-diretor e um dos fundadores do União, Diácomo Gamaliel Meneghel, o Gama. ''O Abatiá aprendeu a jogar bola com o Paquito'', completa.
A dupla participou de três das cinco decisões estaduais que o União disputou. Em 66 e 69, Paquito foi o artilheiro com 13 e 22 gols, respectivamente. Em 71 foi a vez de Tião ser o goleador com 19 gols. Os dois protagonizaram outra briga pela artilharia. Em 76, Paquito jogava pelo Grêmio Maringá e Tião pelo Colorado. Os dois estavam empatados na artilharia com 24 gols e esta partida era a última dos times no campeoanto. Paquito marcou, Tião não e o jogador do Galo foi o goleador com 25 gols.
A história de Paquito com o clube vai além das quatro linhas. ''Tenho um carinho especial pelo União, pois foi o clube que abriu as portas para mim e projetou a minha carreira. Me deu muitas alegrias'', confessa o ex-atacante, que já treinou por duas vezes o time de Bandeirantes.
A única alternativa para fazer com que a dupla caipira parasse de incomodar era contratando-os. E foi isso que o Coritiba fez. O Coxa não começou bem o Brasileiro de 71 e foi buscar os dois no União. ''Chegamos na quarta-feira, treinamos na quinta e na sexta e jogamos no domingo contra a Portuguesa. Ganhamos de 2 a 1 com um gol meu e um do Paquito'', lembra Tião, que ganhou a Bola de Prata da revista Placar, como melhor centroavante do Brasileiro daquele ano. ''Aí surgiu o apelido de dupla caipira'', completa.
Os dois são amigos até hoje. Paquito é técnico de futebol e mora em Cambará, no Norte Pioneiro, com a família. Tião é dono de casa lotérica em Ribeirão do Pinhal, também no Norte Pioneiro. ''Somos comprades. O Abatiá é padrinho de batismo do meu filho'', ressalta Paquito. ''Falo com ele toda semana'', diz Tião.
Antes de ir para o Coxa, Tião teve passagem curta pelo São Paulo. ''O União pediu muito dinheiro, senão eu teria ficado lá'', conta.
Tião chegou a ser até personagem do gibi do papagaio de Walt Disney, Zé Carioca. O personagem dos quadrinhos tinha um amigo que se chamava Tião Abaterá. ''Acho que pensaram que eu iria processá-los e mudaram o nome. Eu gostei, pois foi uma homenagem'', comenta.

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