Durban - Dunga não aceita as críticas recebidas no comando da seleção porque nunca foi técnico. Acha que todos devem agitar a bandeira do Brasil num gesto único, de amor e patriotismo, e seguir atrás da equipe. Para ele, o massacre que sofre por ter mudado a maneira de trabalhar do time em relação à 2006, por não ter nenhum tipo de relacionamento com jornalistas e por não ter levado para a África atletas cujo clamor popular era grande no País deviam ser inerentes ao posto. Uma vez na África, todos deveria apoiar o seu trabalho. O treinador ainda acredita sofrer algum tipo de perseguição remanescente da era Dunga, quando fracassou com o Brasil na Copa de 1990, nas oitavas de final, e acabou injustamente sendo apontado como único culpado. Chora o tratamento recebido.
Até esta quinta-feira Dunga apresentava-se uma rocha contra tudo e todos, indiferente às provocações que pudessem tirar o seu foco do trabalho na Copa, incapaz de dizer bom dia, boa tarde, boa noite para quem quer que fosse que não estivesse no seu círculo de convivência, ou seja, membros da comissão e jogadores.
Mas a rocha cedeu. Foi 1 minuto e 51 segundos em que ele tirou sua armadura e mostrou-se de carne e osso. Fez isso para responder sobre o problema de saúde de seu pai, Edelceu Verri, de 71 anos, jogador como ele, mas menos famoso que o campeão do mundo de 1994. O pai de Dunga sofre há oito anos de Alzheimer, com idas e vindas frequentes aos hospitais. Até esta quinta ele permanecia internado em Ijuí (RS) em situação gravíssima, entre a vida e a morte.
A mãe de Dunga, dona Maria, tem acompanhado o marido à beira do leito do hospital. É para ela que o treinador liga diariamente da África do Sul. ''Não é a primeira vez que ele está nessa situação desde que cheguei à seleção. Pra mim, é só mais uma oportunidade de mostrar para o meu pai tudo o que ele me ensinou. Que homem para ser homem tem de ter virtude, posição, coerência, dignidade, transparência, e saber pedir desculpa quando erra, mas fazer as coisas que quer''.
Com os olhos vermelhos, pesados e fixos, também contou o drama de sua mãe para chegar ao seu próprio. ''Ela talvez me deu o maior exemplo ao dizer que o que estão fazendo para o filho dela não é para se fazer para um ser humano. Ela me ensinou a levar tudo até o final. Me ensinou que temos de ser patriotas, por mais que não gostem. Temos de lutar porque as adversidades só vão fazer com que a gente cresça''.
Desculpas
Nos 15 minutos em que falou aos jornalistas, o treinador mostrou-se tranquilo. Não alterou o tom da voz a não ser quando ela embargou para se referir à doença do pai. Ele pediu desculpas ao torcedor brasileiro pela deselegância cometida domingo ao xingar e provocar o jornalista Alex Escobar, da TV Globo. O som de suas palavras, pesadas e proibidas, foram captadas pelos microfones da sala de entrevista da Fifa. Não pediu desculpas ao desafeto. ''Peço desculpa ao torcedor pela forma que me comportei. Ele não tem nada a ver com os meus problemas pessoais. Como todo brasileiro, só quero trabalhar. Só quero que me deixem trabalhar''. (A.E.)

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