Rio - O técnico da seleção brasileira parece um pouco mais maleável e disposto a trabalhar com zelo a sua imagem, desgastada pela irregularidade da equipe na temporada e por um humor até então indomável. Nesta entrevista exclusiva à Agência Estado, Dunga analisou o período em que dirige a seleção e admitiu que às vezes não mede as palavras e, por isso, cria situações embaraçosas. Ele ainda fez um alerta: a classificação para o Mundial de 2010 será tensa e complicada. Amanhã, o Brasil joga pela última vez no ano - um amistoso contra Portugal, no Distrito Federal.

Agência Estado - Você chegou à seleção em agosto de 2006 com um discurso claro da CBF: mudança de atitude dos atletas depois de alguns excessos na Copa da Alemanha. Conseguiu isso? Aproximou-se do objetivo?

Dunga - Não posso falar como era antes. Mas posso dizer que na seleção não houve nenhuma polêmica nestes dois anos e três meses. Os jogadores comportando-se em altíssimo nível.

AE - Qual foi seu melhor momento até agora como técnico da seleção?
Dunga - A conquista da Copa América (em 2007, na Venezuela). Era nossa primeira competição oficial, tivemos duas semanas para trabalhar, organizar tudo direitinho e fomos crescendo dentro da competição.

AE - E a fase mais difícil?
Dunga - Aquela sequência contra Venezuela (0 a 2), Paraguai (0 a 2) e Argentina (0 a 0) (em junho deste ano) - foi bem delicada. A gente já sabia que ia ter problemas, talvez nem tanto naquela proporção. Mas sabia que ia encontrar dificuldades, com jogadores que estavam sem jogar havia 30 dias.

AE - Como você convive com a pressão de treinar a seleção?
Dunga - Nós planejamos, fazemos reuniões. Temos que jogar, ver se a equipe vai ganhar ou não. Não pode se preocupar com o que fulano fala. As pessoas que falam, em sua maioria, nunca comandaram time, seleção. Tem que acreditar no trabalho e ir em frente.

AE - A pressão tem sido razoável, aceitável? Existe ou existiu em algum momento campanha orquestrada pela sua saída?
Dunga - Com todos os ex-treinadores da seleção ocorreu a mesma coisa. Quando tinha o Pedro, havia um grupo que era mais chegado ao Pedro. Quando saiu o Pedro e entrou o João, aqueles que estavam com o Pedro ficaram revoltados. E os outros não. Então é normal. Vou fazer meu trabalho e vamos jogar. É o jogo, não tem essa de vou ganhar antes, vou perder. Mas tem gente que fica falando mal, orquestrando. O que vale é o campo, é o jogo.

AE - E qual o jogo mais difícil, o da bola rolando ou o ''outro''?
Dunga - O outro é mais difícil, mas não é só por culpa alheia. É por culpa minha também, a minha personalidade, minha forma de ser, de como pensar que as coisas são. Posso ser um sonhador, um cara maluco, mas é preciso tratar todo mundo no mesmo tom, respeitar todos.

AE - Você costuma refletir sobre o seu trabalho, as cobranças com as quais têm de lidar?
Dunga - Não me preocupo muito com que pensam de mim, me preocupo muito comigo: de ser um cara honesto, que respeita cada um na sua profissão. Eu não gosto é que invadam meu espaço. Pressão vai ter, cobranças, essas coisas. Agora não adianta me botar contra a parede...

AE - Esperava que seria assim, que teria de passar por essas dificuldades quando assumiu a seleção?
Dunga - A cobrança, algumas situações, eu esperava. Às vezes, nos momentos mais difíceis, eu paro para pensar: ''Mas o Felipão, o Zagallo, o Parreira não passaram por isso?'' Só que, quando eu analiso isso, eu me lembro da pressão, das cobranças sobre eles, mas eu não sabia como era feita. Agora estou vendo como as coisas acontecem.

AE - E surpreende a forma como essa pressão é feita?
Dunga - Ah! Surpreende, alguma coisa me surpreende, sem dúvida nenhuma... Fico meio assim e penso: ''Será verdade? Não é possível! Mas o que vou fazer?'' Tenho que trabalhar, ter convicção.

AE - No auge das críticas e dos protestos da torcida, chegou a pensar em pedir demissão?
Dunga - De forma nenhuma. Naquele momento eu já estava entendendo como funcionavam as coisas. A seleção não pode ir para um jogo e uma semana antes você ver publicado que aos 10 minutos o time vai ser vaiado. Então você já vai vacinado. Aí começa a entender como é esse outro jogo. Se jogar mal, a vaia é normal. Agora, se já se sabe com 10 dias de antecedência que vai haver vaia, isso não é estranho?

AE - A classificação para o Mundial pode se tornar menos tensa agora no returno das Eliminatórias?
Dunga - Vai ser sempre tensa para o Brasil. Quando joga fora, você é vaiado, xingado no aeroporto, no hotel; as dificuldades são imensas. Vamos jogar com Uruguai fora e Bolívia, na altitude, uma guerra. Mas estamos em segundo lugar.

AE - O que mudou do Dunga de 1994 para o Dunga 2008?
Dunga - Meus conceitos básicos não mudaram. Agora sou um cara mais maduro. Em 94, era um tipo de liderança, de postura, e a responsabilidade de controlar tudo cabia ao Parreira. Hoje, essa atribuição é minha. Fui até mal interpretado quando falei que era bem resolvido. Teve gente de coração malicioso que achou que falei isso pelo lado financeiro. Mas não. É profissionalmente. Se amanhã tiver que cortar capim, com a enxada, cortar grama, não tem problema. Eu vou começar do zero. Nunca me preocupei com emprego, mas com trabalho. É nesta questão que sou bem resolvido. Eu quero trabalho. Tem gente que se preocupa muito com emprego e acaba não fazendo nem uma coisa nem outra.

AE - O Brasil não vence Portugal há quase 20 anos. É um atrativo a mais para o amistoso de quarta-feira tentar quebrar essa escrita?
Dunga - O Brasil tem a obrigação de vencer, é sempre assim. Esse dado demonstra a importância da partida e é motivação a mais para os jogadores. E vai ser o primeiro amistoso contra uma seleção européia, no Brasil, depois de vários anos.

AE - O que espera do confronto Kaká x Cristiano Ronaldo?
Dunga - Kaká é o atual melhor do mundo e Cristiano Ronaldo está bem cotado para a eleição do fim de ano da Fifa. O atacante português deixou de ser um jogador só de drible. Agora, é mais objetivo, aliou força e velocidade à vontade de fazer gol. Vai ser bom vê-los em ação, mas há outros que podem elevar o nível do jogo.

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