Principal revelação do Vitória-BA nos últimos tempos, Dudu Cearense é hoje uma das estrelas do futebol russo. No CSKA desde 2005, ele conquistou títulos e virou ídolo do clube. Chegou a ser convocado pelo técnico Dunga, logo no começo da passagem do tetracampeão mundial pela seleção brasileira, mas depois perdeu espaço. Aos 25 anos, ele sonha em voltar a vestir a camisa amarela com a qual foi campeão mundial Sub-20, em 2003, e venceu a Copa América, em 2004, mas não faz disso uma obsessão. Em entrevista exclusiva e bastante descontraída à FOLHA, ele fala como leva a vida na fria Rússia e de seus planos para o futuro:
Folha: Como foi a adaptação à cultura russa?
Dudu Cearense: ''No começo foi muito difícil, pois quando cheguei a Moscou, em abril de 2005, logo de cara peguei um inverno muito rigoroso. Pra mim foi tudo muito estranho, sair daquele calor de 30 graus do Ceará foi a parte mais complicada. Além do frio, a língua também dificultou muito minha adaptação e com certeza a cultura e costumes russos. Mas, felizmente, já consegui superar tudo isso''.
Folha: Acredito que o idioma tenha sido um de seus principais obstáculos aí. Como se virou no começo? Já sabe falar bem?
Dudu: ''Esse foi o principal, sim. No começo até tentei estudar, mas só consegui ir a cinco aulas e depois acabei desistindo, não só pela dificuldade, mas também pela comodidade que tinha dentro do clube. Contamos com um intérprete para os jogadores 24 horas por dia e ainda mais cinco companheiros brasileiros. Mas, com tudo isso, depois de dois anos comecei a entender a língua deles e passei a me interessar pelo idioma. Hoje até já falo bem. Claro que não fluentemente, mas não tenho problemas no dia-a-dia''.
Folha: Pagou muitos micos por isso?
Dudu: ''No começo paguei vários micos. Quando comprava alguma coisa no mercado, tinha que explicar tudo na base da mímica. Agora, imagine você comprar uma coxa de frango sem falar russo... Imagine a cena! (risos). Era assim que eu me virava, mas hoje fico feliz por conseguir me comunicar sem problema algum.''
Folha: Você estava acostumado com o calor do Nordeste brasileiro. Já se acostumou ao frio russo?
Dudu: ''É difícil se acostumar. Não sei como suportei tanto tempo. Mas isso tudo se chama superação. Graças a Deus isso está acabando, falta pouco.''
Folha: O que faz para matar as saudades do Brasil?
Dudu: ''Fico muito na internet. Tenho vários DVDs musicais, de filmes. Falo com amigos no MSN e ainda assinei a Globo Internacional. Mas tudo isso não supera totalmente a saudade do meu país.''
Folha: E a culinária? Sente falta do feijão com arroz?
Dudu: ''Olha... Todos falavam sobre a culinária russa, mas nunca tive problema algum aqui. Eles servem sempre antes da refeição uma sopa e, por sinal, entrei nesse costume também. Toda vez antes da refeição, mesmo em casa, tomo minha sopa. Sobre o feijão com arroz, claro que não pode faltar. Toda vez que vou ao Brasil eu e minha esposa trazemos uma mala cheia de feijão e outras coisas do Brasil que não encontramos aqui facilmente. Mas com certeza meu feijão com arroz é lei! É o nosso combustível, sem ele falta algo a mais no campo.''
Folha: O futebol russo não tem muita visibilidade aqui no Brasil. Isso o deixou um pouco mais longe da seleção brasileira, apesar de ter sido convocado no começo da Era Dunga. Isso te incomoda? Você pensa em voltar ao Brasil com o objetivo de aparecer para o técnico Dunga ou você acha que ele, pelo menos pelo que demonstrou até agora, está de olho em todos os lugares?
Dudu: Sei e tenho convicção que o futebol russo é zero em visibilidade, apesar de o professor Paulo Paixão (preparador físico da seleção e do CSKA) estar com a gente e passar todas as informações para o Dunga. Mas tenho certeza que irei para algo melhor brevemente e voltar para a seleção será questão de tempo. Jamais me incomodei sobre não ter sido mais convocado, cada um teve sua oportunidade e Dunga está olhando para todos os lugares. Ele é sincero e não faz questão de agradar ninguém. E ele está corretíssimo em usar o bom senso. Claro que a minha vontade de voltar ao Brasil é grande, mas também não descarto a hipótese de ir para um centro mais importante do futebol mundial.''
Folha: Como é o convívio com os brasileiros que moram aí, seus parceiros de clube e seus rivais?
Dudu: ''Melhor impossível. Todos se dão bem e quando temos oportunidade fazemos um churrasco ou saímos para jantar todos juntos. Sobre os jogadores dos outros clubes também temos amizade, mas o encontro é mais complicado devido à diferença de agenda e outros compromissos, mas a legião de brasileiros aqui é bem unida, sim.''
Folha: Conte-nos alguma história interessante vivida por você aí na Rússia. Engraçada, embaraçosa.
Dudu: ''Pô, tem várias... Por exemplo, na Rússia, a carteira de identidade é o seu passaporte e o registro que comprova que você mora e trabalha. Se você não estiver com ela pode até ser preso. Então, certo dia, estava indo para a casa do Vágner Love. Peguei um trânsito infernal e quando estava a uns 500 metros da casa dele, para chegar de carro poderia demorar quase uma hora. Aí eu tive a idéia de deixar o carro na esquina e fazer o restante do caminho a pé. Só que não tinha quase ninguém nas calçadas e logo uma viatura policial apareceu. Como eu estava sem a identidade, comecei aumentar meus passos e já estava quase correndo, mas os policiais no carro continuaram me acompanhando. Quando já estava bem perto da casa de Vágner, eles encostaram do nada e eu pensei na hora: ou corro ou vou preso, seja o que Deus quiser! Mas eles saíram do carro e perguntaram 'você é o Dudu?'. Imagine o sorriso que eu dei na hora! (risos). Aí falei para eles 'pô, por que vocês não me pararam logo? Me fizeram suar e tudo! (risos)' Essa foi uma das situações mais embaraçosas que vivi, mas tudo faz parte do aprendizado.''
Folha: Tem sondagens de equipes brasileiras?
Dudu: ''No começo do ano tive sondagens de grandes times do Brasil, como São Paulo, Santos, Palmeiras e Grêmio. Claro que seria um sonho poder voltar ao Brasil e jogar em uma dessas equipes, mas as negociações não foram em frente devido ao presidente do CSKA, que é muito complicado para fazer negócio. Mas isso faz parte da vida. Quem sabe em um futuro próximo...''

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