Duas paixões em branco e preto
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de dezembro de 2002
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Nos Estados Unidos é o Superbowl o superevento que é muito mais que a final do futebol americano. Na Europa, é a final da Liga dos Campeões, o confronto interclubes mais badalado do futebol mundial. No Brasil, é a final do Brasileirão.
O esporte é capaz de fazer a população de países e continentes se prostar diante da TV, entregar a sorte do seu humor em um embate que faz a mesma adrenalina correr simultaneamente por uma corrente de milhares de quilômetros.
Corinthians x Santos decisão da 32 edição do Campeonato Brasileiro. Quando a bola rolar às 17 horas, no Morumbi, as emoções vão tomar conta dos norte-paranaenses, quase sempre seguidores do futebol paulista.
A reportagem da Folha conversou com dois deles. Torcedores comuns que não entoam cantos de guerra nas arquibancadas, não depredam ônibus para dar vazão a frustrações e não resolvem no braço suas divergências clubísticas. Mas, possivelmente estarão mais tensos que os jogadores dentro de campo, embora não admitam.
''Nem sei se vou assistir ao jogo. Vou estar muito nervoso'', admite o santista Édeson Eimori, 48 anos, dono do Reimori, bar e lanchonete localizado no Jardim dos Bancários, zona oeste.
Na Avenida Higienópolis, Parque Guanabara, zona sul, a postura é diferente. ''Eu sou um torcedor muito alegre, fico tranquilo antes e durante o jogo'', garante Antonio Kanashiro, 66 anos, o Baiano (segundo ele, o apelido surgiu porque ''quem é bom de batida é baiano'').
Famoso por seu coquetel de morango com vinho, servido no ''O Rei das Batidas'', Baiano já se programou para esta tarde. O bar, que já ostentou por muitas vezes o pavilhão corinthiano hasteado, estará fechado, mas seu clima vai migrar para uma festa particular.
Churrasco, cerveja, televisão, uma dúzia de amigos corinthianos e confiança: está montado o esquema antipessimismo para a final em que o Corinthians precisará de dois gols de diferença para se sagrar campeão brasileiro pela quarta vez. ''Domingo passado, o Timão foi irreconhecível. Mas, com certeza, vamos reverter'', aposta Kanashiro, que há seis décadas intercala alegrias e tristezas por causa do seu time do coração. ''O Deivid vai resolver'', diz o comerciante, com ares premonitórios,
Colegas de profissão e pertencentes à mesma etnia, Kanashiro e Eimori têm formas diferentes de torcer. O santista não dá favoritismo a seu time. ''O torcedor do Santos é diferente do corintiano. Em um modo geral, é mais humilde. Não tem esta de já ganhou'', avalia. ''Já foi surpreendente estar entre os oito finalistas. Imagina ganhar o título? Vai ser uma emoção muito grande''.
O Reimori também estará fechado hoje. O dono estará em casa, mas deve promover um ''churrasquinho'' no caso de um resultado favorável e do fim do jejum de quase duas décadas sem títulos importantes. ''É claro que temos uma grande chance. Até porque temos um Pelezinho no time'', compara o comerciante, referindo-se a Robinho, o atacante que novamente fez a camisa santista ser associada a arte do futebol. ''Ele é excepcional'', diz Eimori, extasiado.


