São Paulo - Para um tenista chegar ao topo do ranking mundial precisa de doses cavalares de sacrifício. Treinar de sete a nove horas por dia, disputar uma quantidade enorme de torneios por temporada em superfícies diferentes (de 20 a 30, dependendo do jogador), enfim, dedicação total. O problema é que, cedo ou tarde, o posto mais almejado do tênis acaba por cobrar o seu preço.
Nos últimos 10 anos, a maioria dos atletas que atingiram o número 1 do ranking mundial sofreu com lesões crônicas que abalaram suas carreiras. Nesta semana está sendo disputado o Torneio de Dubai, um dos mais ricos do circuito, com premiação em torno dos R$ 5 milhões.
O torneio conta com alguns dos principais astros. Mas o atual número 1, Rafael Nadal, ficou de fora. Sofre com dores no joelho direito que já o afastaram da Masters Cup e da final da Copa Davis, no ano passado, e o impediram de lutar pelo título em Roterdã há uma semana. ''É resultado de uma combinação de coisas, desde cansaço até a mudança de superfície de jogo. Há poucos tenistas que entram em quadra sem sentir algum tipo de dor'', disse o espanhol.
Aos 22 anos, Nadal é o quinto de nove tenistas que ocuparam o posto de número 1 do mundo desde 2000 a sofrer com lesões crônicas. Preocupado, pediu recentemente que a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) repense o calendário e opte por promover menos torneios em quadras duras, que são mais prejudiciais às articulações. ''Gostaria de envelhecer jogando tênis, mas, do jeito que as coisas estão, fatalmente logo não terei mais condições''.
O russo Marat Safin chegou ao auge no fim de 2000. Permaneceu lá por nove semanas e, desde então, luta para recuperar a antiga forma. Conheceu seu melhor condicionamento aos 20 anos, teve alguns picos de performance - venceu o Aberto da Austrália em 2005 - e hoje, depois de uma série de lesões (as mais graves no ombro e no joelho), briga para ficar entre os 30 melhores do circuito. Entre os ex-número 1, pode se considerar um sortudo.
A tendência de desgaste físico atingiu nomes importantes do esporte como Gustavo Kuerten, Lleyton Hewitt e Juan Carlos Ferrero. O brasileiro se aposentou no ano passado, aos 32 anos, desgastado após longa luta contra um problema no quadril que surgiu em 2003 e lhe acarretou duas cirurgias. ''Não é que eu não queira mais jogar, eu simplesmente não consigo'', declarou, emocionado, na partida de despedida no Brasil.
Já o australiano travou duelos duríssimos contra Guga, tomou o posto de número 1 do catarinense no fim de 2001, mas sucumbiu a uma lesão semelhante à do brasileiro. Hoje, às vésperas de completar 28 anos, é apenas o 103.º. E o espanhol segue o mesmo dolorido caminho (o ombro lhe obriga a parar de jogar com frequência). Campeão de Roland Garros, atualmente é o 93.º do ranking.
Com táticas específicas para evitar o desgaste das articulações, talvez apenas Pete Sampras e André Agassi tenham passado incólumes pelo triste pedágio da condição de número 1. Mantiveram seus postos jogando menos torneios, tendo ótimo aproveitamento na maior parte deles e descansando mais. Eram de outra escola.
Roger Federer, atual número 2, manteve-se como o top 1 por 237 semanas, mas sucumbiu, no ano passado, à potência física de Nadal e a problemas de saúde, como uma mononucleose. O suíço também desistiu de jogar em Dubai. Ninguém sabe se ele conseguirá recuperar a majestade do tênis. Talvez as lesões de Nadal o ajudem. Mas a tendência é que novos nomes do ''jogo físico'' prevaleçam. Andy Murray, o 4.º, parece ser o candidato mais apto hoje em dia a desbancar o espanhol. Desde que se mantenha imune às lesões.

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