Rio - A guerra contra o doping é como briga de gato e rato. E os ratos estão vencendo. Na luta para limpar o esporte, os mecanismos de controle são ineficazes e cheios de brechas que permitem aos atletas trapaceiros escaparem de punição. Tal constatação é feita por dois relatórios, um da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) e outro da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), aos quais a reportagem teve acesso.
Se o combate ao doping é um problema mundial, no Brasil o cenário é ainda mais grave. Um censo com os sete mil atletas de alto rendimento brasileiros beneficiados com o Bolsa Atleta, realizado pela ABCD, traz dados alarmantes. Em um questionário sobre o tema, 83% responderam que jamais foram submetidos a qualquer tipo de exame antidoping.
E se os cortes se aprofundam, os números são ainda mais preocupantes. Apenas 11% afirmaram que foram alvo de controle durante períodos fora de competição, quando a probabilidade de os desportistas estarem utilizando substâncias ilícitas é maior. Outra questão é a falta de informação e educação. Assustadores 92% dos atletas entrevistados disseram que não sabem da existência de uma lista de substâncias e métodos proibidos.
"É um problema grave que temos que atacar imediatamente", diz Marco Aurélio Klein, diretor executivo da ABCD, órgão independente ligado ao Ministério do Esporte, que foi criado no fim de 2011 para implementar um protocolo unificado para o País.
A ABCD começou efetivamente a funcionar apenas neste ano. E sua criação foi um compromisso brasileiro com o Comitê Olímpico Internacional (COI), relativo aos Jogos do Rio em 2016, para a implantação de uma agência nacional que centralizasse o controle antidoping.
Mais do que o baixo número de pessoas testadas, a qualidade do testes é o principal problema verificado pelas autoridades. As confederações e federações muitas vezes realizam exames apenas para apresentar números, sem que eles estejam efetivamente vasculhando as substâncias certas.
"Não adianta você testar um atleta de maratona ou ciclismo, provas de resistência, e não verificar a presença de EPO (Eritropoietina) no organismo", aponta Eduardo de Rose, brasileiro que é membro fundador da Wada e também trabalha como médico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). "Mais do que a quantidade, temos que melhorar a qualidade do controle antidopagem."

Dinheiro
As confederações não têm verba para arcar com os altos custos dos exames, sendo que, para captar substâncias mais elaboradas, o valor é ainda maior. Dessa forma, muitas vezes o controle é frouxo, "para inglês ver".
Nesse sentido, todo o controle de doping no Brasil será subsidiado pela ABCD a partir do ano que vem. O órgão já tem orçamento aprovado de R$ 12,2 milhões, dois quais R$ 8 milhões serão utilizados com a realização de testes e na melhoria do sistema de inteligência. A exceção é o futebol, pois a CBF tem dinheiro e estrutura suficientes para arcar com as despesas.
"Pela primeira vez o governo brasileiro elabora uma política pública de combate ao doping. Com os custos sob nossa responsabilidade, a quantidade e qualidade dos testes será muito maior", argumenta Marco Aurélio Klein.

Problema mundial
Um relatório da Wada, apresentado em abril deste ano, também traz dados interessantes. Desde da criação da agência, em 1999, o número de testes aumentou de 150 mil/ano para 250 mil/ano. Apesar disso, a quantidade de casos positivos não acompanhou proporcionalmente tal crescimento. Na verdade, desde 1985, quando o controle antidoping era muito rústico, as amostras adversas respondem por cerca de 1% do total de análises feitas. "Há evidências de que deveriam ser uns 5% de casos positivos. Estamos deixando escapar quatro pontos porcentuais", diz Eduardo de Rose.
O estudo é assinado, entre outros, pelo canadense Richard Pound, ex-presidente da Wada, que identifica uma infinidade de problemas no controle antidoping, mas cita que a principal questão não é científica ou monetária. "A razão prioritária para a falta de sucesso nos programas de testes (...) são fatores políticos e humanos. Não há apetite para investir em um esporte livre de doping, nem por parte de atletas, organizações esportivas, comitês olímpicos nacionais e governos", escreve.

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