"Esse é meu pensamento, a filosofia que eu tento implantar. Mas, atualmente é muito difícil. Nós, treinadores, sofremos com o imediatismo do resultado", comentou o treinador
"Esse é meu pensamento, a filosofia que eu tento implantar. Mas, atualmente é muito difícil. Nós, treinadores, sofremos com o imediatismo do resultado", comentou o treinador | Foto: Kin Sato/CBF



Jogar para frente, apresentar um futebol vistoso e vencer. Essa é a filosofia de Rogério Micale, o único treinador brasileiro a conquistar o ouro olímpico, que lançou na última quinta-feira (5), em Londrina, o livro "Quando oportunidades se transformam em ouro", do escritor Alexandre Morango, que conta como o técnico chegou até a seleção e conquistou o título mais aguardado do futebol nacional, em pleno Maracanã, na Rio-2016.

Em entrevista à FOLHA, Micale falou sobre a importância de Londrina no seu início de carreira, o amor pela cidade e, principalmente, sobre a necessidade de reavaliação do nosso futebol. Na opinião dele, os técnicos precisam de mais tempo para implantar um sistema de jogo ofensivo, mas são pressionados em busca dos resultados imediatos sob a ameaça de perder o emprego com pouquíssimo tempo de trabalho. Foi exatamente o que aconteceu com Micale à frente do Atlético Mineiro, onde foi bem sucedido na equipe de base do Galo. Mas, no time profissional, o técnico foi demitido no final de setembro com apenas dois meses no comando. "Vejo que o momento do nosso futebol precisa ser reavaliado, analisado para não perder a magia, a essência do nosso jogo. Acredito muito nisso, no futebol ofensivo, no futebol bem jogado, para frente, mas competitivo", afirmou.

Na seleção olímpica, Micale revelou que após um início difícil – dois empates com times sem tradição na fase de grupos – os jovens craques entenderam a forma de jogo, que "encaixou" na reta final rumo ao sonhado ouro. Confira a entrevista na íntegra:

Como é voltar para Londrina, onde você jogou e começou a carreira como treinador?

Sempre é bom retornar. Na verdade, Londrina como uma cidade natal, onde eu tenho raízes. Tenho muitos familiares aqui. Então, uma ou duas vezes por ano eu volto para Londrina. Gosto muito de rever os amigos e a cidade. Só não retorno para morar em Londrina por causa do trabalho, o deslocamento que faz parte da vida do treinador. Mas, considero aqui uma casa.

Quais trabalhos você destacaria como importantes, que o levaram ao comando da seleção olímpica?

Eu costumo dizer tenho muito carinho por três clubes. Em um deles, eu acabei de trabalhar, que foi o Atlético Mineiro. Mas, saí recentemente. Além dele, têm o Londrina e o Figueirense, clubes que tenho muita identificação e carinho por causa das oportunidades que me foram dadas no início da minha carreira como jogador e depois como treinador. Então, sempre que houver uma oportunidade e um chamado, vou estar sempre atento, pois são lugares que tenho um carinho muito grande.

Como você vê esta fase vencedora do LEC?

O Londrina está muito bem servido com o Tencati, um multicampeão. Fiquei muito feliz com o título do Londrina na Primeira Liga. O clube está muito bem servido pelo profissional que ele é.

Como você avalia a sua trajetória na seleção e nas Olimpíadas do Rio ao se tornar o primeiro técnico a conquistar a medalha de ouro?

Foram peças que se mexeram e me levaram até a grande oportunidade da minha vida. Esse livro mostra exatamente isso. Existe início para tudo. Muitas vezes não é o início dos sonhos. Tem que batalhar muito, tem que estudar, correr atrás dos objetivos e se preparar, porque a gente não sabe o que Deus tem nos preparado ali na frente. E essa oportunidade veio quando eu estava na seleção sub-20. Como todos sabem, houve uma desclassificação da principal na Copa América (2016) com saída do Dunga. E me foi dado a chance de comandar a seleção olímpica, uma grande oportunidade de trabalhar com jogadores de imensa qualidade e de renome mundial. Fizemos ali uma grande família com cumplicidade naquele momento, que resultou no título inédito e muito importante para todos nós.

Na seleção olímpica, você implantou uma forma ofensiva de jogar com um futebol mais bonito. Você acha que isso é importante para valorizar o futebol brasileiro, que sempre teve essa marca?

Eu acredito muito nisso. Esse é meu pensamento, a filosofia que eu tento implantar. Mas, atualmente é muito difícil. Nós, treinadores, sofremos com o imediatismo do resultado mesmo com pouco tempo de trabalho. E o futebol ofensivo requer tempo de trabalho. O futebol que propõe o jogo, propositivo, ele requer uma demanda maior de tempo para ter domínio em todas as vertentes que faz um jogo como esse. Hoje, a gente vê como o nosso futebol é mais voltado ao reativo. Você transfere a bola para o adversário, se fecha, espera e trabalha em uma ou duas bolas no contra-ataque. E que dá um resultado imediato. Esse tipo de futebol, com essas características, dá uma condição melhor de você permanecer no clube com resultados para se manter no emprego. Então, eu vejo que o momento do nosso futebol precisa ser reavaliado, analisado para não perder a magia, a essência do nosso jogo. Acredito muito nisso, no futebol ofensivo, no futebol bem jogado, para frente, mas competitivo. Na Olimpíada do Rio, nós fizemos gols, mas tomamos um gol apenas, contra Alemanha, uma potência mundial. Acredito neste jogo, mas isso demanda tempo. E precisamos de uma avaliação naquilo que estamos fazendo do nosso futebol para não perder a essência do jogo bonito, do jogo ofensivo, mas competitivo.

Nesta filosofia, existem treinadores ou times que podem ser considerados referências?

Tem alguns treinadores que eu procuro ler e acompanhar para extrair algo. Eu gosto muito, sem citar nomes, dos treinadores italianos na concepção do jogo defensivo, na recomposição eficaz. Mas, gosto muito também dos treinadores do futebol holandês, na parte ofensiva (três atacantes, ponteiros abertos e um centroavante). É minha referência porque isso é cultural na Holanda. Não é um treinador. Isso vem da escola do Ajax de anos. E a nossa referência atual é o técnico Pep Guardiola, que tem um modelo de jogo prepositivo, que valoriza a posse de bola. Mas, eu prefiro me identificar com a escola holandesa. São essas referências que eu tenho voltadas para a minha filosofia de jogo e meu trabalho.

Você acha que a medalha de ouro mostrou que é possível jogar bonito e vencer?

Eu acredito que com bons jogadores é possível. Eu tinha bons jogadores, extremamente competitivos, intensos e de qualidade. No início, com 14 sessões de treinos, nós tivemos algumas dificuldades para entender o jogo. Mas, depois que entendemos, realmente encaixou e chegamos ao título. Na primeira fase, tivemos mais dificuldades, o que é natural. Depois disso, a sequência foi bonita e culminou na medalha.

mockup