DOBRADINHA
E FUTEBOL
Paulo Briguet
Oito horas e trinta minutos no restaurante da concentração. O jantar será servido. Silêncio.
O goleiro odeia frango com beringela. O lateral-direito rejeita carne de porco. O zagueiro não gosta de cebola. O volante joga ainda mais recuado só de pensar em fígado. Os atacantes se entendem quando o assunto é repúdio a estrogonofe. O técnico tem pânico de ovo frito. O roupeiro abomina vagem desde a infância. O meia finge rezar antes da refeição, mas tem um pensamento recorrente: ‘‘Dobradinha, não. Dobradinha, não’’.
Um segundo antes de chegar o prato principal, copos e talheres tilintam. Os garçons entram no restaurante.
O meia está de olhos fechados. Mas longo sente o cheiro inconfundível.
- É dobradinha! - grita.
Todos o olham com espanto e reprovação. Principalmente o técnico.
- Desculpe, escapou.
Lembra-se de uma ocasião em que teve de comer dobradinha no quartel. O sargento o forçara a limpar o prato. O jogador parece sentir aquele gosto outra vez.
A dobradinha está diante dele. Ele olha para o técnico, depois para a dobradinha. Pensa na taça do campeonato. Taça, técnico, dobradinha. Dobradinha, técnico, taça. Técnico, dobradinha, taça. Tacénico, dobradiça, tecninha.
O meia se levanta. Está decidido a fazer as malas.
O cardápio de amanhã é estrogonofe. Os atacantes palitam os dentes.

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