Dizem que meu time é o Vasco
Arquivo FolhaMenino reiO jovem Pelé, que teve medo de sofrer castigo divino diante do topless das avançadas garotas suecasVocê vê o que é cultura. Eu saí de Bauru com 16 anos, fui para o Santos, estourei em Copa do Mundo, na Suécia, em 1958. Na época não tinha imigração. Então, dificilmente tinha negro naquele lado. Eu era muito rígido no comportamento, porque minha família é muito católica. E minha mãe achava ruim a mulher que usasse calça comprida, que fumasse na rua. Quando cheguei em Santos (em 1956), já tinha movimento de praia, o biquíni. Eu botava um calção e minha mãe reclamava. Na véspera de viajar para a Suécia, minha mãe orou e falou: Olha, cuidado, se não Deus vai te castigar.
Com 15, 16 anos, naquela época não dava para namorar como a garotada de hoje. Pegar na mão era o máximo. Chega na Suécia, aquela liberdade, as meninas iam lá ver a gente treinar. E tinha um lago onde as meninas tomavam banho de topless e eu virava pra não olhar. Eu pensava: Deus vai me castigar, tem a Copa do Mundo chegando aí...Mas os crioulos é que mandavam lá. O Moacirzinho (o meia Moacir, do Flamengo) ficava depois do treino com um monte de garotas.
Depois veio o título, o primeiro mundial para o Brasil. Em um ano aconteceu tudo isso na minha vida. Dentro do campo eu já tinha uma experiência. Meu pai, Dondinho (João Ramos do Nascimento), foi profissional, era um exemplo para mim. E eu já tinha confiança, já era titular do Santos.
Quando eu fui para a Seleção foi a chamado do Pirilo (Sylvio Pirilo). Mas, até hoje existe uma confusão sobre as minhas origens. Dizem que meu time de coração é o Vasco, não é o Santos. É uma confusão muito grande. Isso não é verdade. Vou explicar: teve um combinado Santos-Vasco, que viajou para jogar no exterior. Um dia, faltou gente para completar o time do Vasco, num torneio latino que teve aí, com Boca Juniors, Santos, uns cinco ou seis times, lá no Maracanã (em julho de 1957). Como os titulares estavam viajando, pegaram uns três ou quatro garotos do Santos para completar o time do Vasco. Nós ficamos concentrados no estádio de São Januário e também jogamos com a camisa do Vasco. Foi quando o Pirilo viu os garotos do Santos, no meio do combinado, e conheceu o meu jogo. Aí ele falou: Vou chamar aquele crioulinho.
Assim, como nós jogamos com a camisa do Vasco e ficamos concentrados em São Januário, quase todas as fotos do começo da minha carreira foram com a imagem do Vasco. Tinha eu, o Pepe, o Urubatão, que era meia. Eu não era nem torcedor vascaíno. Naquele tempo, eu torcia pelo Atlético Mineiro, porque meu pai passou por esse time. Depois, ele se machucou e foi para Bauru, no interior de São Paulo e foi lá que eu comecei a me projetar, saindo direto para o Santos.





