Imigrantes querem uma boa campanha das duas seleções para ‘empurrar’ a opção derradeira para a decisão
Ney de SouzaUnidos pelo futebolAlunos do colégio público São Alberto Magno, parte dos 300 mil brasileiros e descendentes que vivem no Paraguai: escolha difícil quando as duas seleções se enfrentamValmir Denardin
Enviado a San Alberto, Paraguai
Para um grupo de brasileiros, a Copa América reserva um dilema. Na hora de torcer, os brasiguaios - brasileiros que emigraram para o Paraguai a partir dos anos 70 - terão que optar entre as seleções do país onde nasceram ou do país que os acolheu. Segundo o Consulado do Brasil em Ciudad del Este, há atualmente 300 mil brasileiros e descendentes vivendo no país vizinho.
O regulamento do torneio favorece o coração brasiguaio. Se Paraguai (Grupo A) e Brasil (Grupo B) ficarem em primeiro lugar na primeira fase e vencerem os jogos das quartas-de-final e semifinais, só têm chance de se enfrentar na final, em 18 de julho. Com mau desempenho de ambos - caso fiquem em segundo já na primeira fase -, os dois países poderão disputar vaga já nas quartas-de-final.
Em visita a San Alberto - um enclave brasileiro na região de fronteira -, na semana passada, a Folha pôde constatar que os brasiguaios e seus descendentes, já nascidos no Paraguai, estarão divididos entre as duas seleções. A maioria torce mesmo para que Brasil e Paraguai façam boa campanha e a opção derradeira fique apenas para a final.
‘‘Quando Brasil e Paraguai se enfrentam, é uma escolha difícil. Em outras situações, torcemos para os dois’’, resume a professora primária Salete Holnik Schnorr, de 29 anos. Filha de um pioneiro de San Alberto, Salete só nasceu no Brasil - em Foz do Iguaçu - porque, na época, não havia hospital na região.
Na Copa América, Salete já resolveu o dilema: ‘‘No Grupo B, torço para o Brasil, mas, no geral, torço para o Paraguai. Afinal, sou paraguaia’’, afirma a professora, que é casada com um brasiguaio e tem dois filhos. Ciente da superioridade técnica da equipe brasileira, ela emenda: ‘‘Mas, se o Brasil ganhar, também vou comemorar.’’
Dos 20 alunos de Salete na 4ª série, apenas quatro são filhos de paraguaios natos. Os outros 16 - filhos de imigrantes brasileiros - repetem a dupla torcida que divide seus pais. Josiane Martens Griep, de 10 anos, filha de agricultores, diz que optou pelo Paraguai porque se orgulha do país onde nasceu. Rogério Libércio Daniel, de 12 anos, prefere o Brasil. Na escola onde os dois estudam - o Colégio San Alberto Magno, público -, 80% dos 750 alunos são filhos de brasileiros.
Indecisões à parte, há um grupo de brasiguaios que já fechou questão com a seleção comandada por Wanderley Luxemburgo. ‘‘Isso é pergunta que se faça?’’, responde, indignada, em português sem sotaque, a comerciante Maria Fonseca, de 37 anos, catarinense de Blumenau. ‘‘Mesmo fora do País, temos que ser patriotas’’, afirma ela, que há 12 anos abriu uma loja de confecções em San Alberto.
O mecânico de máquinas agrícolas Vito Antônio Ames, de 37 anos, que migrou de Guaíra há quatro anos, também não tem dúvida. Segundo ele, quando o assunto é futebol, a paixão pelo país natal predomina entre os brasiguaios. ‘‘Na Copa da França, torcemos também para o Paraguai, porque eles estavam indo bem.’’ Os paraguaios foram eliminados pelo time da casa - campeão -, na morte súbita, nas quartas-de-final.
A paixão pelo futebol brasileiro se reflete nas modestas vitrines de lojas das cidades paraguaias habitadas por brasiguaios. Em San Alberto, elas expõem camisas não-oficiais e de tecido barato dos principais clubes brasileiros - como Corinthians, Palmeiras, Grêmio e Flamengo. Nas mesmas vitrines, a Folha não encontrou sequer uma única camisa de time paraguaio.
O comerciante Jorge Spinola, dono da Rouperia Paraguaya, encomendou 200 bandeiras brasileiras de pano para vendê-las durante a Copa América. Na Copa da França, Spinola, um dos raros paraguaios de San Alberto, vendeu 500 dessas bandeiras. Sua loja vende 20 camisetas de times brasileiros por mês.

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