Discretamente, campeão mundial
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sábado, 22 de junho de 2002
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
Das peladas em Piracicaba à fazenda em Bandeirantes, o ex-lateral-direito do São Paulo e da seleção brasileira Nílton De Sordi, campeão mundial na Suécia, escolheu a discrição como modo de vida
Aos 71 anos, Nílton De Sordi tem tempo de sobra para relembrar o que foi, mas gosta de guardar as recordações em seu íntimo. É um homem recluso na zona rural de Bandeirantes, sem vaidades e necessidades de paparico.
Campeão mundial na Copa da Suécia, em 1958, o ex-lateral-direito do São Paulo e da seleção brasileira admite que há imagem de multidão e de presidente da República reverentes, de aeroportos lotados, de medalhas e troféus, em sua memória. Mas, o inesquecível não contaminou sua personalidade.
Vive hoje em uma bela propriedade de 82 alqueires, chamada Fazenda Santa Clara, onde tem plantio de soja, milho, alfafa, cana-de-açúcar, e onde tem tanques de piscicultura e uma bela sede, com três salas e quatro suítes. É pai de prefeito Nílton De Sordi Júnior, o Juba, tucano que governa Bandeirantes e compadre do todo-poderoso usineiro Serafim Meneghel, seu concunhado que ficou conhecido no futebol como o manda-chuva do União Bandeirante.
O conforto merecido é produto de uma vida regrada seu primeiro carro (um Fusca comprado apenas em 1961, três anos depois do título mundial) foi comprado nove anos depois de seu primeiro imóvel , de talento e regularidade profissional. De Sordi foi pai quatro vezes, avô 11 vezes, e até agora, bisavô uma vez.
O que De Sordi é hoje começou a ser desenhado há quase seis décadas, na terra dos campos de várzea de Piracicaba, cidade paulista onde nasceu descendente de italianos, filho de pedreiro e costureira. Ele jogou no Palmeirinha e logo foi se destacando como meia-direita. Chegou ao XV de Novembro, o alvinegro local que era uma das equipes mais temidas do interior naqueles anos dourados. Em um ano estava jogando de zagueiro no time de cima. Era fins da década de 40.
Em 1952, aportou no São Paulo, de onde saiu apenas em 1965. Está entre os jogadores que mais vestiram a camisa tricolor, com 501 apresentações. Ajudou o União Bandeirante a ascender à divisão de elite do futebol paranaense no ano seguinte, apenas para agradar a família da esposa Celina, muito ligada ao clube. Trabalhou de técnico no alvinegro de Bandeirantes. Foi vice-campeão por três vezes nas décadas de 60 e 70. Eu ia e voltava. Fiquei nesta situação por 15 anos, recorda. Fez também a função de supervisor no clube e no XV de Piracicaba.
No São Paulo, levou uma temporada inteira para se adaptar. Foi campeão em 1953 e 1957, numa fase em que um título são-paulino era comparado à chance de uma moeda cair em pé. Começou como zagueiro central, posição em que atuava no XV (de onde saiu como um dos jogadores mais caros do interior). Depois se firmou na lateral-direita. Naquela época, lateral era zagueiro, conta.
Era um jogador que marcava muito bem, tinha ótima impulsão e senso de antecipação. Em 1956, chegou à seleção com Osvaldo Brandão. Excursionou pela Europa e começou a trilhar o caminho da titularidade para a Copa que ocorreria dois anos depois.
Viu Djalma Santos jogar as Eliminatórias. Mas, a legenda bobeou e lá foi ele vestir a Amarelinha e atuar em quatro dos cinco jogos da Copa da Suécia. Ficou fora da final, mas entrou para a história. Quase foi bicampeão no Chile, mas sem condições físicas foi dispensado do Escrete às vésperas da Copa do Mundo de 1962.


