Dirigentes de clubes do Interior divergem sobre transformação em S. A.
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quinta-feira, 06 de maio de 1999
Por Brás Henrique 
Ribeirão Preto, 07 (AE) - O Botafogo de Ribeirão Preto deu um grande passo para transformar-se em clube-empresa - funciona como tal, com bom gerenciamento. Acertou um esquema de parceria com o Consórcio Futinvest, formado por Brunoro Sports (de José Carlos Brunoro, ex-homem forte da Parmalat no Brasil), Banco Axial e NetMarketing, e vai associar-se ao Banco Ribeirão Preto. A criação do Botafogo Futebol Clube S. A. foi planejada há mais de um ano e meio. O presidente do clube, Ricardo Christiano Ribeiro, acredita que toda a documentação estará pronta em até dois meses.
Como preparou-se e encaminhou, com calma, todo o processo, Ribeiro aposta que os pequenos clubes dificilmente se adequarão à Lei Pelé. "Eles terão que pautar atuações em suas regiões e não pensar só em futebol", explica ele. "Os grandes estão protegidos e os intermediários, como o Botafogo, terão dificuldades, mas podem superá-las." Friamente, ele lembra que seu clube tem um bom patrimônio e uma estrutura que permite ter outras rendas além do futebol. "O Estádio Santa Cruz, por exemplo, será multiuso", diz ele, pensando em explorar shows e eventos.
Ao lado do estádio, uma terreno será destinado à área de entretenimento e lazer. Mas Ribeiro teme que o futebol brasileiro possa ser invadido por oligopólios, com algumas empresas administrando clubes e emissoras de televisões, inviabilizando o investimento em pequenos times. "É preciso ter cuidado com isso", diz ele.
O São Caetano, timidamente, sem muito alarde, também caminha para a modernidade. "Estamos cuidando da documentação para que, em 2.000, o clube se torne empresa", afirma o presidente Nairo Ferreira de Souza. Nos últimos três anos, o futebol do clube é administrado no sistema de co-gestão, com a Datha Representações
numa relação parecida à existente entre Palmeiras e Parmalat.
A Datha capta, mensalmente, entre R$ 100 mil e R$ 130 mil com várias empresas. Depois de um ano de aprendizagem, o resultado está aparecendo: em 1998, o São Caetano conquistou dois títulos (Série A3 do Campeonato Paulista e Série C do Campeonato Brasileiro) e hoje é um dos mais fortes times da A2. Souza pretende buscar alguns investidores no pólo industrial do próprio ABC, como a General Motors, por exemplo. "É difícil, mas vamos buscar mais recursos", avisa ele, otimista. A transformação em S. A. não significa que a co-gestão será encerrada. "Podemos continuar com o sistema; só não admito vender o clube ou arrendá-lo", informa Souza.
EXPECTATIVA - Os times de Campinas estão em situações diferentes em relação à Lei Pelé. A Ponte Preta tem parceiros definidos em sua sociedade anônima, já possui seu CGC e na terça-feira (11) passará pelo crivo final do Conselho Deliberativo. O Guarani, num processo mais lento, aguarda a resposta da alemã Bayer para dar sequência ao seu projeto.
Os bancos Liberal e Fibra fizeram um auditoria minuciosa na Ponte - que será Ponte Preta Esportes S. A. - para injetarem, num contrato de dez anos, entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões. Esses parceiros, como no Botafogo, foram acertados antes do início do processo. O clube tem uma torcida exigente e apaixonada, o que torna o investimento viável. O presidente do Conselho Deliberativo da Ponte, José Armando Abdalla Júnior, acredita que os pequenos times vão encontrar parceiros no mercado. "Eles detêm uma parcela da comunidade, que possibilita o engajamento", diz Abdalla Júnior.
O presidente do Guarani, Luiz Roberto Zini, no entanto, é mais cauteloso. "É difícil encontrar parceiros", afirma ele, argumentando que Vasco e Corinthians são os poucos que conseguiram esse objetivo.
Sua meta é acertar com o laboratório Bayer, que administra o time de Leverkusen, na Alemanha. Para isso, o clube campineiro estreitou o relacionamento com o Bayer, que comprou o passe do atacante Robson Ponte. "Podemos acertar um patrocínio e, depois
a compra do futebol", diz Zini.
"Em Portugal, a Bayer comanda o Vitória de Guimarães e aqui pode ser o Guarani", comenta Zini, acreditando que a maior dos dirigentes do Interior estão preparados para assumir uma S. A.. Porém, concorda com Ribeiro, do Botafogo: os grandes clubes têm mais facilidade em arrumar parceiros. "Sem parceiros não dá mais; ficamos como meros coadjuvantes", destaca Zini.
Em Jundiaí, a situação é mais tranquila. O grupo Parmalat assumiu, há um ano, o futebol da cidade através do Etti Jundiaí Futebol Ltda., já com uma mentalidade empresarial. Nesse caso, foi uma empresa que procurou e assumiu um time por 30 anos. Os dirigentes prometem usar toda a experiência adquirida pela Parmalat no País e também do Parma italiano.
TERCEIRIZAÇÃO - Com dívidas acumuladas, muitos clubes do Interior partiram para a terceirização (ou arrendamento do departamento de futebol). Alguns dos acordos são fechados incluindo porcentagens de passes de jogadores. A transformação em empresa é comentada pelos dirigentes, mas alguns clubes podem ser prejudicados. O Noroeste, por exemplo, foi assumido por empresários de São Paulo que nem aparecem no clube, enquanto o time está em decadência na Série A2 paulista.
Garça, Taubaté e Olímpia, que disputam a Série A3, optaram pela terceirização. A American Sport, presidida por Luiz Antonio Duarte Ferreira, que mora no Rio de Janeiro, administra o futebol profissional e amador do Garça desde o início do ano passado - o contrato encerra em 2000. Com boa campanha na competição, nenhum problema surgiu até agora.
No Olímpia, a empresa Brazilian Soccer, uma franquia de escolinha de futebol, pediu revisão do contrato (até 2000). "Não é problema pessoal, mas financeiro", diz o presidente do Olímpia, Francisco Correia, afirmando que o esquema é a única alternativa para a sobrevivência do clube. Essa é a terceira experiência de parceria. Em 1997, a Careca Sport Center, ainda sem o Campinas, salvou o Olímpia, mas, em 1998, outra empresa abandonou o clube depois de duas semanas.
"Sem parceria é pior", afirma Correia.
"Em pequeno ou grande clube, o trabalho é o mesmo, guardadas as devidas proporções", garante o presidente do Taubaté, Antonio Luís Ravani, que terceirizou o futebol pela segunda vez. A Conexão Sport, que tem como um dos sócios o técnico Eduardo Amorim (atualmente na Grécia), iniciou o trabalho neste ano, mas Ravani não sabe ainda como será a mudança para se adequar à Lei Pelé. "Se a Conexão vai participar do processo, só vamos falar mais à frente", comenta Ravani. O vice-presidente do Sãocarlense, Sergio Roberto de Almeida, está otimista. "Não temos contatos, mas também não teremos dificuldade para transformar o clube em empresa", afirma ele.
Os dirigentes dos clubes que estão adiantados no processo não querem ouvir as palavras terceirização ou arrendamento. "É muito perigoso, pois pode respingar no clube", diz Ricardo Christiano Ribeiro, do Botafogo. "Alguns clubes estão se precipitando, sou contra isso", afirma Nairo Ferreira de Souza, do São Caetano. "Não deve-se delegar todos os poderes para outros." O Comercial, de Ribeirão Preto, também tentou duas parcerias: uma com o empresário Oliveira Júnior e dirigentes do próprio clube, a outra com o bicheiro Ivo Noal.
Fracassou nas duas. O clube continua sem perspectivas para o futuro e caminhando para mais um quadrangular da morte.


