Dinheiro não tirou os craques do País
Correio BrazilienseMau exemploNilton Santos: Fiz contratos em branco no auge da carreira. Depois é que me toquei que isto acabava prejudicando os outros profissionais.Quanto vocês deveriam receber se jogassem hoje, no milionário futebol em que o Barcelona paga US$ 2 milhões anuais ao Ronaldinho?
Nilton Santos Ä Eu fui um cara que fez três contratos em branco no auge da carreira. Depois é que me toquei que fazia mal para os outros jogadores. Os dirigentes chegavam e diziam: Pô, o Nilton, campeão do mundo, assinou em branco! Claro, eu fazia o que gostava e ainda me pagavam... Metade do que ganha o Ronaldinho hoje, tava bom pra mim.
Pelé Ä Eu nunca joguei por dinheiro. Entre 1959 e 1960, o (Giani) Agnelli, dono da Fiat, ofereceu ao Santos US$ 2,5 milhões para levar o Pelé para a Juventus, de Turim. E dava US$ 1 milhão para o Pelé. Então seriam três milhões e meio. Isso em 1959 ou 60, depois da Copa do Mundo. Você faz uma avaliação de quanto seria esse dinheiro hoje. Com respeito a ordenado, até 1964, quando já era bicampeão mundial, eu era o quarto ou quinto salário do Santos. O primeiro era o Zito, depois o Mauro, o Gilmar, o Pepe. O primeiro contrato, de dois anos, eu tinha de 16 para 17 anos. Aí, em 1958, voltamos campeões do mundo. Mas até 1960, 1961, eu tava com o mesmo contrato, o mesmo ordenado. E naquela época não ficava pressionando. Não queria sair. Nessa época foram para a Itália o Nenê, o Sormani, o Del Vecchio. Depois, o Germano, o Dino Sani, o Evaristo, o Didi.
Vocês não quiseram deixar o Brasil por qualquer dinheiro?
Pelé Ä Eu não quis sair do Brasil. Em 1965 e 66, antes da Copa da Inglaterra, eu tive outra proposta, desta vez do Real Madrid, da Espanha. Depois, em 1969, na véspera da Copa do México, o Inter e o Milan também fizeram propostas de mais ou menos US$ 4 milhões. E quando eu fui pro Cosmos (EUA), por três temporadas de cinco, seis meses, foi um total de US$ 6,8 milhões. Então, só fui ganhar mesmo quando fui pro Cosmos.
Nilton Santos Ä Eu tive várias propostas. Um dia, o Heleno (de Freitas) foi com o presidente do Milionários, de Bogotá, no meu apartamento e me perguntaram quanto queria para assinar com o time da Colômbia? Ai eu disse que não iria para lá. Então, por que dizer o valor? Eu não queria ir mesmo!
Pelé Ä Acho que naquela época era outro conceito, porque o Zito também teve proposta, o Pepe teve e nenhum quis sair. O Coutinho, logo no começo, também teve e não saiu. Era uma época diferente, porque o dinheiro que a gente recebia dava pra viver. Era melhor que o nível atual. Eu passei a ser arrimo de família com 16 anos. Eu era reserva do Santos e ganhava mais que meu pai, que era funcionário.
Nilton Santos Ä Naquela época, os clubes estrangeiros não compravam muitos jogadores de defesa.
Pelé Ä Mas teve uma corrida ao Brasil de times da Colômbia, que ofereceram uma grana pra você, para o Bellini e para o Zito.
Nilton Santos Ä É, mas eu nunca me interessei por isso, não.
Mas atualmente os jogadores não pensam mais assim...
Pelé Ä Hoje o jogador faz contrato por uma temporada. Joga, acaba o Campeonato Brasileiro, e o cara já tá querendo armar pra ir pra outro time, tudo no mesmo ano. Perde até o vínculo. Aí até o torcedor fica confuso, não sabe se o Túlio é do Botafogo, do Corinthians...
Nilton Santos Ä Na nossa época não precisava nem de passe. Era só fugir, ir pra lá (exterior) e ganhar dólar.
Pelé Ä Não tinha empresário. Mas eu me lembro, não com muita alegria, o Pepe Gordo, que foi meu empresário e teve todo aquele problema (falência de algumas empresas), era espanhol e chegava pra mim e falava: Pelé que haces? Tu tens que ir pra Europa, ganhar dinheiro. Os diretores do Santos incentivavam para que eu fosse, porque eles também iam pegar a grana. Eles falavam: vai. Eu dizia: não quero, tô bem aqui, tô ganhando bem.
Se os tempos são outros, os valores também.
Pelé Ä O Paulo Rink (atacante do Atlético Paranaense) fez um campeonato, um só Ä porque ele apareceu no ano passado. Os caras tão pedindo US$ 6 milhões.
O mesmo preço pelo qual o Flamengo vendeu o Zico, em 1983, para a Udinese, da Itália. Mas para ser um fenômeno como Pelé é melhor jogar só com fera, como você no Santos e na Seleção, ou sozinho, como única estrela, sem ninguém mais para incomodar? Em outras palavras: em terra de cego quem tem um olho é rei?
Pelé Ä É isso. Hoje é muito mais fácil ser craque, porque um jogador bom não tem como não aparecer. Por exemplo, eu gosto do Ronaldinho. Agora, o Dadá Maravilha (Dario, centroavante do Atlético-MG e do Internacional-RS) era igual, tão útil como o Ronaldinho para o time e fez muitos gols.
Nilton Ä Depois de você deve ter sido ele quem marcou mais gols...
Pelé Ä Eu não me lembro. Acho que foi o Flávio, do Corinthians, aquele gaúcho.





