Paulo Briguet
Converso com um casal de amigos sobre as touradas. Eles já estiveram na Espanha; ela confessa que ficou profundamente chocada com o sangrento espetáculo na plaza de toros. O sangue, em geral, é o do touro, vítima da tradição, animal furioso e ferido pelas espadas. Mas há também as tragédias para o lado dos toureiros, mais raras, porém marcantes.
Mesmo descendente de espanhóis, só conheço as touradas pelos contos e romances de Ernest Hemingway, um americano que sabia misturar a aventura da vida com a aventura da tauromaquia. Lembro-me particularmente do conto em que um toureiro decadente vai procurar emprego e vê a cabeça empalhada do animal que matou seu irmão. O conhecimento sobre a tradição espanhola, porém, não fica apenas nos livros. Está entranhado na cultura e na linguagem de todos nós. No dia-a-dia, não é difícil ouvir dizer que alguém ‘toureou’ problemas.
Por falar em dificuldades e tradições, Brasil e Argentina se toureiam hoje na Plaza do Café. O clássico latino-americano sempre me pareceu o momento em que o futebol mais se aproxima de uma tourada. Com uma diferença: o jogo das duas seleções é totalmente imprevisível. Inútil tentar adivinhar a vítima e o algoz desta vez. Quem, o toureiro? Quem, o touro?
O torcedor Zeca, filósofo popular e colaborador informal desta coluna, costuma ficar meio nervoso e estranho antes de um Brasil x Argentina. Ele repete o dia inteiro:
– Esse jogo é coisa de louco, rapaz. É coisa de louco.
Sábio Zeca. Com seu refrão, ele aponta algo de insano dentro da partida. Se a lógica do futebol é uma grandeza extremamente relativa, a incoerência de Brasil x Argentina supera todas as pranchetas, estatísticas e palpites. A goleada de ontem não quer dizer nada. Coisa de louco.
Trotsky certa vez disse que a revolução é o excesso da história; Zeca diria que Brasil x Argentina é o excesso do futebol. Brasileiros e argentinos, tradicionalmente, sabem apresentar o que há de mais autêntico na arte da bola. Mas, em conflito, revelam-se capazes de fúria e crueldade, ódio e absurdo. Quando as camisas amarelas e as camisas azuis se enfrentam, o futebol ultrapassa seus próprios limites, nega a sua própria natureza, trunca-se, violenta-se, agride-se. E nós, insanos torcedores, platéia da tourada, assistimos à barbaridade, cúmplices.
Espero que a bola não seja substituída pela espada hoje à noite. Mas que, ao final, o melhor grite olé.
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EM VERSO E PROSA
‘Repente do Otimismo’, enviado à Folha, ontem, por um leitor:
Luxemburgo inteligente
Tá com o time titular
Sabe que a garotada
Passou no vestibular
Estamos em outra fase
Que é o quadrangular
A torcida tem certa
O Brasil vai triunfar
O otimista tem nome: Jurandir P. do Carmo.
DOPING ZERADO
Na primeira fase do Pré. Foram coletadas entre 5 e 100 mls de urina de 64 jogadores para detectar possíveis amostras de substâncias entorpecentes ou medicamentos proibidos. Todos os exames deram negativo.
MUY AGRANDADOS
A foto de torcedores brasileiros exibindo no Estádio do Café um cartaz onde se lê ‘Queremos a Argentina’, publicada na capa da Folha de segunda-feira, mereceu comentários do Cronica de ontem. O correspondente do diário portenho assinala que o massacre de 9 a 0 sobre a Colômbia naquele domingo deixou os ‘aficionados’ locais ‘muy agrandados’ (não há tradução literal, pelo menos no dicionário Michaelis, mas, pelo contexto, parece ser algo do tipo ‘convencidos’, ‘metidos’).
ATÉ 19
A Comissão Organizadora do Pré contesta a informação de que o placar numérico do Estádio do Café não comporta dois dígitos. Segundo o secretário de Obras da Prefeitura, José Righi de Oliveira, o placar foi planejado para comportar até o número 19. Se a Seleção Brasileira resolver sair do sério novamente, como fez na goleada de 9 a 0 sobre a Colômbia, o torcedor pode ficar tranquilo.