Paulo Briguet
Então é verdade.
Estavam dizendo que a goleada de 9 a 0 sobre a Colômbia foi pouco para convencer o Praxedes Ribamar. Os boatos surgiram logo que terminou o jogo. No começo eu não acreditei, mas depois o amigo e jornalista Nelson Capucho, aqui da Folha, encontrou o Praxedes na rua e me garantiu que o homem não estava nem um pouco satisfeito com o resultado de domingo.
Praxedes Ribamar é o torcedor mais exigente do Brasil, talvez do mundo. Do tipo que não se levanta na olla. Comparado a ele, Zagallo não seria ranzinza. Sempre de cara amarrada, Praxedes puxa quase todas as vaias e torce para o time adversário, caso o Brasil ou o Londrina errem um passe. Pessimista de carteirinha, consta que ele jamais comemorou um gol. Após a vitória de 4 a 1 que deu o tri à Seleção em 70, Praxedes usou uma de suas frases prediletas:
– O time não fez mais que a obrigação.
Resolvi telefonar para o Praxedes. Afinal, não é sempre que o Brasil ganha de 9 a 0.
– Alô, Praxa? É o Briguet, da Folha. Tudo bem?
– Levando, levando. Apesar do Luxa.
– Mas e a goleada de domingo, hem?
– Contra aquela Colômbia morta em campo, sem defesa? Até o time aqui da firma goleava. E vou te falar: só o Alfredinho da manutenção fazia 12 neles, apesar de ser um perna-de-pau.
– Mas a torcida vibrou, Praxa!
– É um povo que nunca viu futebol na vida. Foram pro campo porque o Belinati cortou a TV a cabo. Aliás, o Belinati, eu vou te contar... Cada vez que os homens marcavam um gol, ele ia correndo abraçar os chilenos. Acho que queria aparecer na televisão.
– Você pelo menos admite que 9 a 0 foi um resultado histórico.
– 8 a 0, Briguet. 8 a 0 porque gol de pênalti não conta. E que papo é esse de ‘‘histórico’’? Pra mim, histórico é o Danton, é o Zumbi, é o Lênin, é o Luiz Carlos Prestes.
(Esqueci de dizer que o Praxedes é comunista.)
– Ô, Praxa, mas você estava pedindo espetáculo e veio espetáculo. Será que não valeu o preço do ingresso?
– Olha, rapaz, eu só me lembro de um ingresso que valeu mesmo na minha vida: foi num show do Nelson Gonçalves. E, cá pra nós, acho que a Seleção deu mancada.
– Como assim?
– Tinha que parar nos 5 a 0. Esse time precisa jogar com a cabeça, pô. Com 9 gols (aliás, 8), acabaram classificando quem? O Chile! Você lembra do caso do Rojas e da fogueteira que depois posou na Playboy? Pois eu não perdôo o Chile. Já não perdoava desde o golpe do Pinochet. Goleada! Só pro Luxa ficar balançando aquela gravata dele na beira do gramado.
– Praxedes, o jogo deu um novo ânimo à equipe.
– Isso é o que você escreve na primeira página do jornal. Comigo não, violão. Anota aí: a goleada vai deixar a Seleção de salto alto. E tenho certeza que os boleiros ainda saíram comemorando na noitada. Vão estar quebradinhos da silva pra pegar a Argentina. E os chilenos, lá, felizes da vida. Posso até ouvir a voz deles ligando pra Santiago: ‘‘Ola, madrezita, yo no puedo volver ahora a nuestra casa!’’
– Você acha que nós temos chances no quadrangular?
– Como você viu no domingo, milagre às vezes acontece. Mas dois milagres no mesmo torneio, acho meio difícil.
– A gente pode criticar o Luxa, mas ele nunca disse que seria fácil.
– O Luxa é gozado. Falou que a torcida era bairrista, que só vaiava a equipe porque o Lucas estava no banco. Primeiro, ele não conhece Londrina: a gente morrer de amores por um jogador do Atlético? Absurdo. Depois, ele é obrigado a colocar o Athirson, o Edu e o Lucas. O Brasil ganha o jogo e todo mundo esquece as besteiras que o Luxa fez antes. Não é à toa que dizem que o povo brasileiro não tem memória. Nem pra semana passada.
– Calma, Praxa.
– Escreve aí no teu jornal: eu quero é ver esse time do Luxa contra a Argentina e o Uruguai! Aí o bicho pega! E tchau, Briguet, que hoje eu tô cheio de serviço.
Confesso que desliguei o telefone meio pensativo. Esse Praxedes...
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