Diário do Pré
Paulo Briguet
Uruguai, eu me lembro.
Ainda não tinha nascido, mas estava no Maracanã naquele dia. Não sei por quê.
Todos nós estávamos. Decididamente, o Gighia estava.
Uruguai, quem imaginava tanto estrago provocado por uma ex-província? Tanta melancolia, profundo lamento, gente chorando nas ruas?
O silêncio, Uruguai. Nunca se ouviu um silêncio tão grande no país. O minuto de nada pela morte de uma certeza.
Hoje você não é mais aquele, Uruguai. Veja só, que vexame no quadrangular do Pré. Depois de uma bela primeira fase, a Celeste Olímpica falhou.
Esse é o Uruguai de hoje, com dificuldade até mesmo para conseguir classificações para a Copa do Mundo. Vencê-la, então, é um sonho distante. A Olimpíada? Já era.
Por um segundo que seja, Uruguai, confesso: todos nós lembramos daquele jogo antes de enfrentar a Celeste. A tragédia Édipo, Hamlet, Gighia mora no quarto dos fundos chamado consciência. Se apurarmos o ouvido, ainda ouviremos aquele silêncio.
No fundo, é necessário. O escritor José Cardoso Pires dizia que a vida sem memória equivale à morte branca. A única forma de vencer a memória: olhando-a de frente. Dizer a ela: Estou aqui.
Vinte anos depois daquela tarde no Maracanã, o Brasil despachou seus fantasmas, desclassificou os antigos vilões, partiu para a glória do tri no México.
Vingança. Não sejamos hipócritas de negar que isso existe no futebol.
Apenas por um segundo, Uruguai, nós lembraremos. Depois, a história poderá ser outra. É dia de festa.
Em 50, você estragou a festa. Mas tudo bem. Aqui não é o Maracanã. É o Café.
Aquilo faz meio século, Uruguai. De lá para cá, eu até mesmo nasci.
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