Diário do Pré
Paulo Briguet
Muita gente acha que arte é pura inspiração. Se fosse verdade, o poeta escreveria um belo verso só quando provocado pela musa da literatura; o ator faria uma bela interpretação só quando abençoado pelos fantasmas do teatro; o músico criaria uma bela partitura só quando movido pelas vozes do silêncio; o pintor produziria um belo quadro só quando incentivado pelo enigma das cores; o craque marcaria um belo gol só quando iluminado pelos deuses do futebol.
Tudo muito bonito, mas não se iluda: a inspiração é apenas meia-verdade da arte. Talvez, em algum lugar, existam as musas da literatura, os fantasmas do teatro, as vozes do silêncio, o enigma das cores, os deuses do futebol. Mas esses personagens da arte não existiriam sem um fator decisivo: a técnica.
Inspiração, qualquer um pode ter de vez em quando. O desafio do artista é transformá-la em algo além do esperado. A traição amorosa que inspira Shakespeare e o poeta de W.C. é a mesma. A fome de gol que impulsiona Rivaldo e o meia do Barrigudos F.C. é a mesma. Os resultados em campo ou no verso é que são diferentes.
Sozinha, a técnica também não sobrevive: torna-se um amontoado de regras frias e inúteis. Não basta ao poeta conhecer literatura; não basta ao músico dominar a escala ocidental; não basta ao ator desenvolver uma dicção perfeita; não basta ao jogador conhecer a sua função dentro de campo. É preciso algo mais.
A técnica só tem valor quando abre espaço para a criação, para o senso de oportunidade, para a mudança real, para o admirável, para a antevisão da realidade. O artista faz uma viagem de ida e volta. Para ele, a técnica deve trabalhar a serviço da inspiração; e a inspiração deve buscar apoio na técnica. Em algum ponto entre as duas, vive o talento.
Esta coluna já disse que não gastaria inutilmente a palavra craque. Às vezes é necessário dizer o óbvio, para que ele não seja preterido pelas circunstâncias: Alex e Ronaldinho são jovens senhores da inspiração e da técnica, e portanto artistas da bola, e portanto craques. Os três gols de Ronaldinho e o gol de Alex na vitória contra a Argentina derrubaram (pelo menos uma vez!) a tese de que o futebol corrompe a sua própria natureza no clássico latino-americano.
Ronaldinho, depois de fazer aquele gol antológico na Copa América de 99, passou por um período difícil, mas sempre manteve o equilíbrio e jamais revelou deslumbramento pela fama subitamente adquirida. Tem disciplina e grande versatilidade, do lançamento à conclusão, da boa visão de jogo à bola parada. Apegado à família de boleiros e formado na escola da várzea, Ronaldinho conquistou a simpatia da torcida e destaque no futebol brasileiro.
Alex, cujo principal defeito, sempre citado, é desaparecer em campo, nos faz esquecer seus pequenos exílios quando resolve decidir a partida. O gol contra a Argentina foi importante, não apenas por igualar o placar numa hora dificílima, mas pela consciência do jogador e a beleza do lance. Naquele momento, Alex elevou o ânimo da equipe (e da torcida) à estratosfera. E o meia palmeirense, desta vez, pouco ou nada dormiu no gramado.
Infelizmente, como dizia o pensador, não há nada mais antigo que um jornal de ontem. E nada mais remoto que um jogo de anteontem. Ao torcedor, resta esperar que a dupla AlexRonaldinho reencontre a dupla técnica-inspiração hoje à noite contra o Chile.
Que o Brasil chame o enigma, as musas, os deuses, os fantasmas, as vozes e, principalmente, o talento.
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INDISCIPLINADOS
Em 22 partidas disputadas pelo Torneio Pré-Olímpico de Futebol, 110 cartões amarelos foram distribuídos, perfazendo uma média de cinco cartões por jogo. Brítez, do Paraguai, é o mais advertido com três amarelos. Houve ainda 14 expulsões na competição (média de 1,57 expulsão por jogo). O uruguaio Callejas é o único atleta que recebeu dois cartões vermelhos suspenso, ele não enfrenta a Argentina hoje.
FÁBIO AURÉLIO
O médico da seleção, José Luiz Runco, explicou ontem que no exame de ressonância magnética feito no lateral são-paulino Fábio Aurélio realmente não apareceu a fratura por stress, motivo que levou o jogador a ser cortado da seleção. Segundo Runco, outros exames ainda serão feitos no atleta e como o diagnóstico da lesão foi feito ainda no começo, o jogador poderá voltar a jogar em breve.





