Diário do Pré
Paulo Briguet
Tempos atrás, poucas eram as mulheres que gostavam de futebol. Deixo a análise dos motivos aos sociólogos, mas o fato é que aumenta cada vez mais o número de mulheres que têm time, vão ao estádio, discutem o esporte em profundidade.
Felizmente, passou a época em que bola na rede era assunto de homem. Outro dia vi uma foto da torcida no Pacaembu, na década de 40. Só havia homens (boa parte de terno e gravata, como o general Luxa). Mesmo nas inesquecíveis imagens do Canal 100 de Carlos Niemeyer, que víamos antes dos longas-metragens no cinema, raramente aparecia uma garota. O contraste com os estádios atuais é óbvio. Os homens ainda são maioria, mas o público feminino parece crescer a cada jogo. Que bom.
Como já disse, não pretendo descobrir as causas, mas apenas registrar o fenômeno. No passado recente, a presença de uma jornalista na cobertura de futebol chamava a atenção, por inesperada. Hoje, as repórteres são numerosas, livraram-se do rótulo de exceção e trabalham de um modo que dispensa comentários demagógicos ou paternalistas. Elas já se incorporaram à realidade do jornalismo esportivo, da mesma forma que as torcedoras conquistaram lugares nas arquibancadas. Seria impensável, há pouco tempo, a existência da comentarista Soninha, elogiada por Tostão. (Quando brilhava nos gramados, Tostão jamais poderia imaginar que viria a ser colega de alguém como Soninha no mundo do futebol.) Há também o desenvolvimento do futebol feminino, reconhecido pela Fifa e pelo Comitê Olímpico. É o reflexo de uma mudança cultural: nas escolas, futebol não é mais exclusivamente jogo dos meninos.
Mas vamos com calma, rapaziada. Deixo as porcentagens aos estatísticos, mas ainda há uma considerável legião de mulheres que detesta futebol. Daquelas que dormem em final de Copa do Mundo (com o Brasil em campo!). Essa brava turma da Luluzinha odeia história de meia defensivo, Portuguesinha Londrinense, a zaga bateu cabeça, Malutrom, carrinho, uuuuh, avanço de lateral, o cara é o maior pipoqueiro, inversão de jogo, retranca, tô indo pro Café, catimba, contra-ataque e acima de tudo impedimento.
Cuidado, malandragem. Há mulheres que repudiam tudo isso, igualzinho à época em que o futebol era chamado de violento esporte bretão. Para elas, o esporte não passa de 22 marmanjos correndo atrás de uma bola.
O amigo e jornalista Ranulfo Pedreiro, sempre um gentleman, emprestou-me dia desses o livro Chic Homem Manual de Moda e Estilo, da consultora Gloria Khalil, na esperança de que eu me emendasse. Não adiantou continuo me vestindo mal , mas a leitura é bastante agradável. O texto não se limita a falar sobre moda e estilo: também dá dicas sobre comportamento em relação às mulheres. Essa parte, eu aproveitei. Aos torcedores, Gloria Khalil alerta: Entendo que o futebol seja uma paixão nacional, mas isso não deveria fazer você virar um louco alucinado que exija de quem está ao seu lado o mesmo fervor religioso aos objetos de sua devoção. Paixão não se transfere, meu caro.
Note-se que a perspicaz Gloria não diferencia mulheres que gostam e que não gostam de futebol. A regra de bom senso, dirigida aos homens torcedores, deve ser observada em qualquer companhia feminina. Convém, portanto, moçada, segurar aquele palavrão, gritar alguns decibéis abaixo do insuportável, suar menos, socar o ar apenas durante os gols, não preferir aquele VT do União Barbarense a um jantar a dois, não falar cinco horas seguidas sobre a estratégia do Luxa.
Há alguns anos, no período de universidade, estava com algumas amigas em São Paulo, quando começamos a falar sobre futebol (assunto do qual elas, na época, nada entendiam) e moda (assunto do qual eu nada entendo). Com uma das garotas, combinei:
á Você me explica algum termo de estilismo, e eu explico algum termo de futebol.
Ela definiu tweed, parka, camisa de chambray, street wear, barra italiana...
Eu comentei impedimento, cobertura, apronto, primeiro combate, zagueiro...
A garota em questão é a jornalista Rosângela Vale, que hoje aplica seus amplos conhecimentos de moda, estilo e comportamento em especiais textos aqui na Folha. Eu não arriscaria escrever duas linhas sobre moda. Mas tenho certeza de que Rosângela tiraria de letra uma cobertura da Seleção no Pré.
Até porque o futebol, em momentos de plena realização, é um fenômeno da arte, do estilo e da elegância. Bem-vindas sejam as mulheres.





