Paulo Briguet
Esta coluna assinou ontem um termo de compromisso no qual prometeu buscar a objetividade. Entretanto, por sua natureza, ela vive entre entre os fatos concretos e imaginários. Trata-se de uma crônica, gênero do jornalismo que transita entre a notícia e a ficção, da mesma forma que o sacoleiro transita entre Brasil e Paraguai. O importante é não confundir os territórios distintos. A boa crônica deixa sempre claro ao leitor quando o fato realmente aconteceu ou quando poderia ter acontecido. O relato imaginário também tem sua objetividade própria e, em certos casos, ilumina aspectos da realidade.
Marcos, por exemplo, é um personagem de ficção. Mas poderia existir. Ele tem 20 e poucos anos; foi há alguns dias assistir ao treino da Seleção Brasileira no VGD. (Vejam que tudo é concreto: a Seleção, o VGD, o treino. Tudo, exceto Marcos).
Ele tomou um ônibus nos Cinco Conjuntos, desceu no Terminal Urbano de Transporte Coletivo e foi caminhando pela Avenida Leste-Oeste, sob o impiedoso Sol de verão, suando muito. (São reais o ônibus, os Cinco Conjuntos, o Terminal, a Leste-Oeste, o Sol, o verão, até mesmo o suor. Só Marcos não existe.)
Na frente do VGD, comprou uma lata de refrigerante para amenizar o calor. Viu que a diretoria do Londrina Esporte Clube estava chegando para assistir ao treino. Escutou o grito da galera e percebeu que os jogadores acabavam de entrar em campo. Notou que o ônibus reserva da Seleção, aquele que sempre anda sozinho, estava parado ali perto, com seus motoristas perplexos. (O VGD mais uma vez, a lata de refrigerante, o calor, o LEC, seus diretores, a galera, o grito, os jogadores, o ônibus reserva, os motoristas, todos vivos da Silva. Apenas Marcos, coitado, é pura imaginação.)
Márcia, 19 anos, é outra personagem que não existe em carne e osso; apenas em papel de jornal. Depois de economizar uma grana, tomou um táxi lá na Zona Sul para ver de perto (bem vestida, bem penteada e bem perfumada) os ídolos da Seleção. Não falarei da cor dos cabelos de Márcia para não suscitar especulações. Deixarei isso por conta da imaginação do leitor. (O dinheiro contado, o táxi, a Zona Sul, os ídolos, a Seleção, o bem vestir, o bem perfumar, o bem pentear, a cor dos cabelos e o leitor que a imaginou, todos são estritamente verdadeiros. Márcia é que fica do lado de fora da vida.)
Do lado de fora da vida, mas não do lado de fora do estádio. Márcia postou-se bem perto do alambrado, até onde o esquema de segurança permitia. O vestido preto realçava suas formas. O salto, a despeito das circunstâncias, era alto. Entre o Monumento aos Viajantes, que vigia a trezentos metros do Estádio, e Márcia, muitos torcedores não hesitavam em escolher a segunda opção. E manifestavam sua preferência com assobios e apupos. (Preciso dizer? Alambrado, esquema de segurança, vestido preto, salto alto, Monumento aos Viajantes, assobios, apupos, nada é mentira. Unicamente ela, Márcia, não pertence ao mundo real.)
Enquanto Luxa fazia gestos bélicos no centro do gramado, ordenando repetição de jogadas, Márcia e o resto do estádio observavam atentamente o treino. Em Márcia, havia uma fixação no olhar, uma tentativa de sedução à distância, uma esperança de que suas formas, seu perfume e seu penteado chegassem ao conhecimento dos atletas. Ela nada dizia, mas era como se dissesse:
– Athirson, eu tô aqui. Alex, olha pra cá. Fábio Júnior, vem mais perto.
Em todo o VGD, apenas uma pessoa, naquele lapso, tinha os olhos voltados a um ponto fora do gramado. Marcos se esquecera completamente do treino. Era ela, era ela. A garota dos sonhos. Deixou escapar:
ᖠEssa mulher não existe!
Marcos tomou coragem. Era um galanteador com certa quilometragem, e bem-apessoado. Mas nunca estivera tão submisso ao poder de uma garota. Aproximou-se de Márcia. Sentiu seu perfume, admirou seu penteado, apreciou seu vestido, delineou cada centímetro de suas formas. Não era tímido, mas a voz saiu com o timbre de um congregado na missa de domingo:
– Moça...
O olhar caloroso que Márcia direcionava aos jogadores do Brasil passou por repentina transformação. Ela voltou o rosto, não 90, mas apenas 30 graus, e cravou os olhos mais gélidos de toda a história do futebol no rosto de Marcos. Ficou assim por dois segundos. O rosto de Márcia refez a trajetória de 30 graus; o olhar acalorou-se; a atenção retornou ao gramado e aos ídolos.
Para ela, Marcos também não existia.

ESCOLA
A convivência com o prefeito Antonio Belinati (PFL) tem afetado o comportamento do superintendente de negócios da Caixa, Claudemir Desto. Ontem, quando pegou o microfone para falar no lançamento dos ingressos do Pré, Desto não se intimidou e lançou um ‘‘Bommm Diaaa’’, típico do ex-radialista Belinati. Em seguida, repetiu a dose, com mais força, igualzinho ao prefeito. ‘‘Booommmm Diiiaaaaa’’, esgoelou. Pouca gente deu atenção.
SUSTO
Por essa o craque Ronaldinho não esperava. Distraído, levou um susto quando ouviu o apresentador da solenidade dizer ‘‘agora, com a palavra, Ronaldinho Gaúcho!’’. Sem graça, o jogador coçou a cabeça e improvisou. ‘‘A gente está aqui porque sabe que todos os torcedores vão comprar os ingresso e ajudar a gente.’’ Alex, mais escolado, manteve a tranquilidade. ‘‘A expectativa é que os jogos estejam todos lotados e que o povo de Londrina seja o 12º jogador da Seleção.’’
TIME PREFERIDO
Quando o assunto é assédio, o atacante Ronaldinho Gaúcho, do Grêmio, é sempre o mais procurado. Ontem de manhã, na Agência Centro da Caixa, não foi diferente. O jogador, a cada passo que dava, era parado por dezenas de fãs, loucos por um autógrafo e alguns segundos de atenção. E eram fãs de todas as idades: crianças, jovens e até senhoras. Paciente, Ronaldinho atendia a todos. Alex não ficou atrás: ouviu o prefeito Antonio Belinati dizer, orgulhoso, que é torcedor do Palmeiras.
FOTOS TROCADAS
Na festa de ontem na CEF, Alex e Ronaldinho se divertiram com a ‘pisada na bola’ da Folha, que na página 2 da edição de ontem do Caderno especial do Pré-Olímpico trocou as fotos do goleiro Sílvio Luís pela do zagueiro Fábio Bilica e a de Álvaro (Goiás) pela de Luís Alberto. A mania dos jogadores – que vem desde a Copa da França – de raspar os cabelos faz torcedores (e jornalistas) confundirem os atletas, principalmente os menos famosos.

mockup