Paulo Briguet
O café da manhã chega junto com a notícia: Maradona está internado. Problemas cardíacos. Pelo rádio, a informação vem seca – e isso é o pior. O acontecimento parece ter perdido o impacto, por não ser a primeira vez. De quando em quando, o craque argentino adentra hospitais. No épico passado, Dom Diego era perseguido pelos zagueiros furiosos, que não aceitavam o talento incomensurável do homem e às vezes o mandavam para a enfermaria. No melancólico presente, o craque se transformou na sua própria caça. Ontem ou hoje, Maradona nunca teve um marcador mais duro do que Maradona.
Como já comentei certa vez, não existem ex-craques. Seria o mesmo que falar em ex-reis, ex-gênios, ex-clássicos. Quem alguma vez conquistou o título, jamais irá perdê-lo, não importa o que acontecer depois. Assim, Elvis sempre será o Rei do Rock, por mais que eu prefira os Beatles (aliás, Bach). Einstein sempre será um gênio da física, mesmo que a Teoria da Relatividade seja superada no futuro milênio. Tolstói sempre será um clássico da literatura, mesmo que um eventual leitor deteste ‘‘Guerra e Paz’’.
O impacto de Maradona na história do futebol só pode ser discutido em comparação com as grandes descobertas da física, com as explosões da música e do comportamento, com os melhores romances da biblioteca. Maradona não é o Rei do Futebol (o cargo já tem dono), mas seu papel na trajetória do esporte certamente lhe reserva uma vaga de titular na Seleção dos Sonhos, aquele time etéreo que reuniríamos se fosse possível domar a ingratidão do tempo; aquela equipe que escalaríamos se nos fosse dado condensar a história em apenas 90 minutos, do Gênesis (apito inicial) ao Apocalipse (apito final); aquele escrete que, paciência, existe apenas no gramado da mentira. (Quando menino, já fui técnico e cartola. Contratei Maradona para o Mundo Futebol Clube. Era um time de botão invencível.)
Passo os olhos sobre a ficha dos jogadores da Seleção Brasileira que disputará o Pré. Eram todos moleques quando Maradona assombrou o mundo com sua atuação na Copa de 86. Devem ter odiado (e admirado) aquele baixote argentino, como todos nós odiamos (e admiramos). Os jogadores dessa equipe do Brasil cresceram acompanhando a ascensão e queda de Diego Maradona nos estádios. Se pudessem, também o escalariam para o futebol de botão, ou para uma pelada na várzea. Jamais para adversário, claro.
Os craques, no entanto, são feitos de carne, osso e miséria, como todos nós. O velho Freud, lá no começo do século, falava no instinto de vida (Eros) e no instinto de morte (Tanatos) que coabitam, gêmeos, a alma de todo homem. Maradona driblou o planeta todo com seu impulso vital, mas ainda não conseguiu fintar o perigoso Tanatos que vigia dentro dele mesmo. Hoje o craque está no hospital. Desejamos a Maradona uma boa recuperação, e principalmente a paz que ele jamais concedeu aos zagueiros.

EXCRACHADO
O credenciamento definitivo de jornalistas para a cobertura do Pré-Olímpico ainda não foi concluído, mas os serviços deste setor já causam reclamações. No dia da chegada da Seleção a Londrina, a frase mais comum foi: ‘Tem mais policiais que jogadores’. Ontem, ela havia mudado para ‘tem mais gente da imprensa que policiais’. Na pista ao lado do gramado do VGD, local exclusivo para o pessoal da imprensa, é fácil detectar não-jornalistas com o crachá expedido pelo credenciamento. Anteontem, até o chefe da assessoria de imprensa da CBF, Carlos Lemos, foi vítima da situação: Pela falta do crachá definitivo, que o identificará como funcionário da CBF, foi barrado na porta do vestiário do VGD após o treinamento. ‘‘Só entrei depois de chamar o chefe da segurança’’, conta Lemos.
LIGADOS
É uma mania talvez só comparada aos bonecos do Pokémon entre as crianças. Os jogadores da Seleção – nota-se de longe – são fissurados por relógios. Tênis, meias, calções, camisetas e... relógios. É como se eles já fizessem parte do uniforme oficial, inclusive durante os treinamentos. Eles normalmente são grandes, bonitos, tipo esportivo, e de marcas famosas. Em um dos treinamentos, os únicos que não usavam relógios eram o volante Baiano – talvez porque as pessoas da ‘Boa Terra’ não têm muita pressa – e o atacante Denílson, talvez por motivo de fuso horário e pela dúvida se volta ou não à Espanha.