Paulo Briguet
No domingo, Zeca abriu os olhos e descobriu que tinha perdido a memória. Sozinho no quarto, não se lembrava de nada: nome, endereço, parentes, amigos, profissão, idade, religião, cidade, estado, país. Boas lembranças, más lembranças, memória remota, memória recente, nada para ele fazia diferença. Zeca não tinha a mínima idéia do que acontecera na noite anterior, e em todas as outras. Pensou em telefonar para alguém. Mas como – se não sabia nenhum número e nenhum nome, se até mesmo a agenda estava em lugar incerto e não sabido? Não saiu da cama. Ficou olhando para o teto liso e branco, oceano da amnésia, procurando um pedaço de madeira para se agarrar. Um longo tempo vazio se passou, e de repente veio uma luz em formato de bola. Talvez fosse um caminho.
Ao lado de Zeca, um velho e um homem de meia-idade caminhavam rumo ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo. No portão de entrada, Zeca pediu ao homem mais novo:
– Paiê, posso comprar uma bandeira pra mim? É baratinha.
O homem concordou e Zeca ficou feliz da vida, pois tinha uma bandeira como todo mundo e talvez os jogadores percebessem que ele também era um torcedor.
Depois, Zeca se enfureceria quando viu Marcelo, um menino de 4 anos que não sabia de nada, gritar no meio da rua, na Copa de 78:
– O Brasil é campeão! É campeão!
Alguém tinha que explicar para o Marcelo que o Brasil só tinha vencido a decisão de terceiro lugar, droga.
Zeca viu as veias saltadas do pescoço de Falcão em 82, comemorando o empate com a Itália. Pena que o Paolo Rossi acabasse com a festa minutos depois. Zeca encontrou um garoto chorando muito, como se houvesse morrido alguém. Depois, no quintal, o garoto ficou jogando bola sozinho, jurando que iria vingar aquela derrota quando fosse gente grande.
Em 1950 – o avô de Zeca relembrava – as pessoas choravam nas ruas, incapazes de acreditar no título do Uruguai.
Zeca havia acabado de chegar à praia. Foi escolhido para goleiro numa pelada de areia. Na primeiro lance, aos 4 segundos de partida, tomou um frangaço numa bola batida da intermediária. Ficou arrasado.
O Corinthians foi campeão paulista depois de 23 anos. Os primos Alfredo e Laércio, alvinegros roxos, vestiram Ringo, um baita boxer, com a camisa do Corinthians. Desfilaram com o cachorro pelas ruas da cidade. Eles, cantando; Ringo, latindo. Enquanto isso, a tia Sandra preparava a grande surpresa do dia: pipoca.
Em 86, Vanda, paixão secreta de Zeca, chorou muito quando Sócrates perdeu aquele pênalti. Um pouco por tristeza e um pouco por ter descoberto naquele dia as propriedades do rum com chocolate.
Luisinho, ex-desafeto de Zeca, foi subornado para apitar o jogo do time do bairro. Mas roubava tão descaradamente que os próprios corruptores pediram para ele maneirar.
O Palmeiras foi campeão paulista depois de 17 anos. A cada gol alviverde, Zeca e Serginho saíam correndo pela pracinha, e depois voltavam para ver o jogo na TV. Quando a final terminou, eles foram correndo até a avenida, esgoelando sem critério para o vento – felizes, felizes, como toda a nação palmeirense.
Contaram para o Zeca: a Débora ficou cuidando da menina doente enquanto o Rodrigo assistia ao jogo do São Paulo no bar. Que absurdo!
Sílvia nem ligou quando o Brasil perdeu a chance de ir para a Olimpíada de Barcelona. Preferia ver Cesinha tocando aquela música do João Bosco e do Aldir Blanc no violão: ‘‘Tá lá um corpo estendido no chão/ Em vez de rosto uma foto de gol’’. Zeca entrou na sala, viu Sílvia e Cesinha olho-no-olho e saiu de mansinho para não atrapalhar.
Foi só o Gonçalves entrar no campo naquele sábado à tarde para sentir a puxada no joelho direito. Nunca mais pôde jogar no time da firma. Zeca sentiu pena dele.
Esse Nilton! Chegando pra jogar bêbado! Não saiu uma vez do impedimento... Por isso é que o time do Zeca perdeu de 7 a 0 daquela vez.
Zeca estava na sala, roendo os dedos no Brasil x Argentina, Copa de 90. Susana e Pedro, mesmo adorando futebol, preferiram ir namorar no quarto. Torceram contra o Brasil, porque não queriam dar força para o Lazaroni e muito menos para o Collor. Zeca, mesmo anti-Collor e anti-Lazaroni, revoltou-se com o casal. O Brasil perdeu, Susana e Pedro se arrependeram de torcer contra, tempos depois terminaram o namoro.
Enquanto o Brasil decidia a Copa de 94 nos pênaltis, Zeca olhou pela janela e percebeu que as margaridas se ajoelhavam diante da televisão. Quando a Seleção conquistou o tetra, Zeca saiu caminhando pelas ruas, observando a festa do povo. Quatro anos depois, comeu uma pizza sem nenhum gosto, ao lado dos amigos. Todos perguntavam: o que deu no Ronaldinho? O que deu no resto do time?
Olhando para o teto, Zeca notou que era igual a mim, igual a você, igual a todo mundo. O futebol entra na vida sem pedir licença. Sabendo que era simplesmente mais um torcedor chamado Zeca, ele saltou da cama, pegou sua bandeira e foi ao estádio para ver Brasil x Colômbia.
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