Diário do Pré
Paulo Briguet
Fama. [do lat. fama] s. f. 1. Voz geral; voz pública. 2. Renome, nomeada, nome, celebridade, notoriedade; glória. 3. Reputação, conceito. 4. Notoriedade, publicidade. (Dicionário Aurélio)
Nesta semana, estive mais uma vez na chamada janela da Seleção Brasileira para a imprensa. O processo é o seguinte: os 20 jogadores e a comissão técnica são colocados dentro de um amplo salão. Durante 15 minutos, marcados no cronômetro, os jornalistas podem entrevistá-los.
Quando a porta do salão se abre, ocorre uma cena meio cômica. Os jogadores, perfilados em suas cadeiras, esperam o batalhão de repórteres se aproximar. E começa o tiroteio de microfones, gravadores, câmeras de TV, máquinas fotográficas, luzes. Alguns profissionais são apressados e aguerridos na artilharia da notícia. Outros, mais tranquilos, revelam-se abruptamente habilidosos franco-atiradores. Tendo como arma apenas um bloquinho (comprado na papelaria da esquina), eu era o mais inofensivo soldado do front. Tanto que resolvi não atirar. Fiquei apenas pulando de trincheira em trincheira, de entrevista em entrevista, observando o campo de batalha.
Mas a metáfora bélica não me parece a mais apropriada para definir uma janela da Seleção. A imagem mais precisa foi dada pelas colegas Janaína Tupan Frare e Lucilia Okamura, aqui da Folha:
Isto aqui é um baile!
Elas têm razão. É muito engraçado ver aquela fila de boleiros sentados, como se esperassem convites para a valsa da informação. A diferença é que, em vez de Quer dançar? ou Permita-me a honra desta contradança, os jornalistas dizem Ô, Alex, fala pra gente sobre a experiência de ser capitão ou Mozart, é verdade que os homens andaram procurando negociar teu passe?.
E a partir dessa metáfora o baile a gente pode estudar um pouco a natureza da fama, palavrinha mágica que move milhões (de pessoas e de dólares) no globo.
Vivemos no Planeta Fama, um baile onde poucos dançam e os restantes ficam a observar. Não pretendo aqui fazer juízos de valor sobre uma civilização que dança em torno da notoriedade, mas devo observar que a fama não corresponde à essência das coisas. No futebol ou em qualquer outro universo humano.
O pior é que, automaticamente, todos nós repetimos a lógica da fama, e às vezes esquecemos a lógica da essência.
No baile da informação, quem são os mais procurados pelas câmaras, microfones e bloquinhos? Alex, Ronaldinho Gaúcho, Fábio Júnior. Recentemente, Mozart. E o general Luxa, é claro.
A maioria dos jogadores, na janela, toma chá de cadeira. São os menos notórios, os menos famosos, os menos procurados. Concedem uma entrevista aqui, outra ali, mas podem bater papo à vontade entre eles, sem grandes incômodos e livres do calor dos holofotes. Mas, talvez, naquela parte silenciosa do baile, more a essência que levará à medalha de ouro em Sydney.
Fama e essência, que fique bem claro, não são incompatíveis. Podem fortalecer uma à outra (um marxista chamaria isso de relação dialética). Alex, Ronaldinho, Fábio Júnior e a turma do chá de cadeira têm hoje o desafio de dançar entre a notoriedade e o talento, entre a guerra e a paz do futebol.
Talvez ajude um pouco deixar para a Seleção os seguintes versos de Boris Pasternak, traduzidos por Augusto de Campos, os quais procuro observar antes de escrever qualquer coisa:
Ser famoso não é bonito
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O fim da arte é doar somente,
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda gente.
Cumpre viver, sem impostura,
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Pasternak escreveu o poema para quem vive do jogo das palavras. Mas, para a Seleção, não custaria muito aplicá-lo à linguagem dos gramados.
Cesar AugustoFã conversa com segurança no Nóbile: acesso bem mais fácil
CONTRASTE
Os hotéis em que estão concentradas as seleções do Brasil e Equador, adversárias no próximo domingo, são separados apenas por uma pequena praça, a Presidente Vargas, no centro de Londrina. No lado brasileiro, na rua Quintino Bocaiúva, a movimentação de torcedores é intensa no Hotel Crystal. No lado equatoriano, na rua Prefeito Hugo Cabral, o movimento no Hotel Nóbile começa apenas depois da saída do ônibus da Seleção Brasileira para o local de treinamento.
PELA TANGENTE
Devido ao grande movimento em frente ao Crystal, a pequena torcedora Suellen Furini, 12 anos, desistiu de tentar chegar perto dos brasileiros. Quando os jogadores apareciam, entravam umas dez pessoas maiores na minha frente e eu não via nada. Aqui está menos concorrido, explica.
ATRAÇÃO FATAL
Mas é o jogador Ivan Kaviedes, 21 anos, que está fazendo as fãs londrinenses atravessarem a praça. Ele tem os olhos lindos, diz Julianne Chaves, 17 anos. Dayara Sales, 13, resolveu mudar de time quando viu o jogador pela TV. Ele é muito lindo. Mas enquanto Kaviedes não aparece, é o segurança do hotel, Leandro Urrutia, 27 anos, que faz sucesso. Aproveitamos o tempo para ficar conversando com ele, diz Edilene Preti, 12.





