Paulo Briguet
Olha, tentei a filosofia. Cheguei até a começar o curso, em São Paulo, com 17 anos. Mas quando percebi que Ortega y Gasset não era um dupla de pensadores, vi que não tinha jeito para a coisa e desisti. Da filosofia, não por acaso, guardei apenas o ‘Só sei que nada sei’, parece que dito por Sócrates e escrito por Platão.
Um leitor de Maringá ligou para a Folha outro dia reclamando da má qualidade de minhas crônicas sobre futebol e dizendo que elas eram muito inferiores à média dos textos publicados neste caderno. Encaminhei a reclamação ao meu chefe, com a secreta esperança de não ser demitido, pois o que o leitor afirmou é a pura verdade. Só tem um problema: ser comparado com a seleção de repórteres aqui da Folha Esporte é covardia, pô. O pessoal debulha na informação sobre o Pré-Olímpico; eu vou apenas pincelando aqui e ali umas linhas, até quando me deixarem.
Só sei que nada sei. A frase também se aplica a este jornalista se o assunto é futebol, esporte que acompanho mais como torcedor do que como analista (embora todos autênticos torcedores sejam analistas), mais como apreciador do que como crítico (embora todos verdadeiros apreciadores sejam críticos). Fico à beira do gramado, sabendo que nada sei, e depois arriscando escrever diante da própria ignorância. Aliás, acho que só sei mesmo a lista dos 22 jogadores convocados pelo Telê Santana na Copa de 82. Segura aí: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior, Cerezzo, Falcão, Sócrates, Zico, Serginho, Éder, Paulo Sérgio, Edevaldo, Juninho, Edinho, Pedrinho, Batista, Paulo Isidoro, Renato, Roberto Dinamite, Dirceu e Carlos. Não é a toa que o capitão desse time se chamava Sócrates.
A bola também tem os seus pensadores. Não me refiro às cabeças e pés que revolucionaram a arte da bola dentro de campo (Leônidas, Puskas, Pelé, Beckenbauer, Maradona...) ou do banco de reservas (Rinus Mitchell, Osvaldo Brandão, Telê...). Falo dos que traduzem o idioma da bola para o idioma das palavras. Aqueles sujeitos que transformam a arte do futebol em pensamento escrito.
O Brasil é o país do futebol, mas também é o país da crônica. Do casamento das duas primazias, surgiu através dos tempos uma imbatível seleção de pensadores da bola.
Sinto vergonha de escrever sobre futebol quando penso que o Brasil já teve Nelson Rodrigues atuando na crônica esportiva. Além de grande autor teatral, Nelson deixou nas páginas de jornais algumas preciosidades sobre o esporte que merecem entrar em qualquer antologia da literatura nacional. Para o velho tricolor, um lance banal poderia ser pretexto para um parágrafo de dimensões épicas ou cômicas, posições do gramado linguístico que ele percorria com igual desenvoltura.
E pensar que Nelson, no final da vida, com sérios problemas de visão, fazia suas crônicas quase sem enxergar o que se passava em campo. Ia ao Maracanã para sentir o clima dos jogos; perguntava aos amigos como haviam sido as partidas; ouvia a galera. E no dia seguinte, brindava os leitores com um primoroso texto. O Maracanã que ele tanto adorava, aliás, leva o nome de seu irmão, Mário Rodrigues Filho, outro grande cronista e entusiasta do futebol.
O escritor e jornalista Ruy Castro, autor da biografia de Nelson (‘O Anjo Pornográfico’), foi responsável pela seleção e publicação das crônicas do autor, pela Companhia das Letras. ‘À Sombra das Chuteiras Imortais’ e a ‘Pátria em Chuteiras’ são golaços imperdíveis. Mas Ruy, com estilo elegante e abundância de informações, também marcou o seu: ‘Estrela Solitária’, a definitiva história do mito, craque e homem Mané Garrincha.
É claro que posso esquecer alguém, mas me vêm à mente alguns craques da crônica que transformaram bola em palavra.
Décio de Almeida Prado, mais conhecido como crítico de teatro, esteve na ribalta do esporte. É autor de memorável trecho sobre o final da carreira de Didi. Ao narrar um lance em que o veterano jogador foi derrubado no campo, Décio disse que ali caíra um atleta e se levantara um senhor.
Luís Fernando Veríssimo, em atividade, leva seu humor sutil para o gramado e dá banho de bola. Como sentenciou um colega de Veríssimo, ‘‘ele é tão bom que deveria ser proibido de tirar férias’’.
Paulo Mendes Campos colocava angústia e poesia à serviço da bola, em sua coluna ‘O gol é Necessário’.
João Saldanha, além de técnico excepcional, era um homem da palavra certa que se sentia em casa no mundo dos boleiros. Daí, suas tiradas: ‘‘Se xadrez fosse esporte, São Jorge sairia na página de turfe’’.
Desde que saiu da Globo, há 11 anos, Armando Nogueira resolveu ser unicamente um exímio estilista do papel-jornal. Nunca apreciei o trabalho de Nogueira como chefe do Jornal Nacional; como cronista esportivo, a história é bem outra.
Sandro Moreyra foi o maior contador de casos do esporte brasileiro. Mas às vezes exagerava em histórias sobre Garrincha, por exemplo.
Os cronistas do futebol deram – e continuando dando – uma enorme contribuição à cultura do País. O mérito dessa turma foi sempre usar um tema de interesse do povo para renovar a língua portuguesa no dia-a-dia. Eles ajudaram a tornar nosso idioma mais claro, mais preciso, mais rico, mais bonito. Um brinde aos pensadores da bola. Diante deles, essa coluna fica ainda menorzinha do que geralmente é. Só sei que nada sei – mesmo.

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