Paulo Briguet
Perguntei no jornal:
– Qual é o gol que vem na hora errada?
– O gol contra.
A resposta, do amigo Samuka Lopes, me fez pensar.
O gol contra é tão constrangedor que chega a ser penoso falar no assunto.
Ele é uma aberração na natureza do futebol. Maldição que persegue, em geral, zagueiros que querem salvar o time. No afã de evitar a morte, matam. No tentativa desesperada de afastar a bola para longe da defesa, tornam-se artilheiros indefensáveis. São os heróis que (Bandeira me perdoe) poderiam ter sido e que não foram.
Que vexame tragicômico! Bolas infelizes, que seguiriam céleres para o tiro de meta, são desviadas por canelas inoportunas, bicos de chuteiras desastrados, cabeçadas que eu vou te contar, joelhadas penetras, carrinhos desgovernados – e acabam no fundo da rede.
Nem sequer atacantes estão livres do fardo do gol contra. Lembra aquele gol do palmeirense Oséas contra o Palmeiras? Foi de cabeça, na conclusão de um cruzamento. Ouso dizer que foi um belo gol. Às vezes, por uma razão freudiana não plenamente explicada, atacantes usam o faro e o instinto de gol neste haraquiri futebolístico. Oséas não deixa de ser um bom atacante por conta daquele gol, mas poderia ter passado sem essa.
O mais horroroso gol contra que já vi foi feito em 1983, numa partida do Ordem e Progresso, time do Espírito Santo, contra a Desportiva. Naquela época, o goleiro ainda podia pegar com a mão as bolas atrasadas pela defesa. O goleiro do Ordem e Progresso bateu pifiamente um tiro de meta. O companheiro, na linha intermediária, resolveu devolver a bola. E o fez mal, muito mal. O goleirão do Ordem estava adiantado e a bola morreu no fundo do gol, fazendo até Auguste Comte tremer na sepultura. Um jogador da Desportiva, ao lado do infeliz artilheiro negativo, consolou o adversário. O Brasil inteirou viu o gol, e uma obscura partida do Campeonato Capixaba entrou de maneira torta na história do bizarro esportivo. Nunca uma atrasada de bola justificou tão bem o próprio nome.
O gol contra é uma tragédia no contexto da partida, mas que às vezes ultrapassa as fronteiras do campo. Na Copa de 94, o zagueiro colombiano Escobar fez um gol contra seu time. Pouco tempo depois, foi assassinado na Colômbia. Pode ter sido uma coincidência, mas até hoje não ficou esclarecido se alguma vingança ou briga motivou o crime.
Quando ocorre algum gol contra, não costumo olhar para o autor. A reação do artilheiro negativo é previsível: cabeça baixa, mãos sobre o rosto, um eventual palavrão. Na hora H, prefiro observar os jogadores do time adversário. A comemoração é um tanto constrangida. Os jogadores, por um instante, ficam na dúvida sobre quem abraçar. Acabam optando pelo último companheiro que tocou na bola antes do verdadeiro autor do gol. É a lógica singular do futebol: o gol de placa de Pelé no Maracanã valeu, dentro dos 90 minutos, o mesmo que milhares de gols de canela, gols de barriga, gols de cara e – pesa-me dizer – gols contra ao longo da história.
Há também um inevitável componente de sadismo em todo esse drama. A torcida vibra sem dó diante dos gols feitos pelo lado errado. Errado, saliente-se, apenas para quem sofre o gol (como, aliás, ocorre sempre). Diante de um tento às avessas, a gozação sobre os torcedores adversários será muito maior. Sobretudo no dia seguinte, na hora de comentar o jogo com os colegas de trabalho.
Em nome de espetáculos sem constrangimento ou sadismo, esta coluna faz votos para que não haja nenhum gol contra no Pré-Olímpico de Futebol. Mas, se tiver que acontecer, que ele ajude a Seleção Brasileira.
Para os beneficiados, meu caro Samuka, o gol contra nunca vem na hora errada. Ele sempre é a favor de alguém.

CARLINHOS LETÁRGICO
A crônica ‘‘O pior time do mundo’’, publicada no dia 14 (sexta-feira), saiu com um erro. Na descrição do meio-campista Carlinhos Repouso – aquele que vivia dormindo em campo – o autor disse que ele sofria de ‘‘catatonia futebolística’’. O termo correto, no entanto, é ‘‘letargia futebolística’’. Uma leitora psicóloga, colega de profissão de Suzi Fleury, alertou para a diferença entre as duas expressões. Mas o que nem Freud, nem Jung, nem Skinner, nem Lair Ribeiro explicam é o seguinte: Carlinhos Repouso continua jogando e dormindo ao mesmo tempo!
MINISTRO NA ABERTURA
O ministro do Esporte e Turismo, o paranaense Rafael Greca de Macedo, estará em Londrina para a abertura do Grupo A do Torneio Pré-Olímpico, dia 19, no Estádio do Café. A informação é do prefeito Antonio Belinati, que formulou convite diretamente ao ministro. Ambos são correligionário do PFL e podem vir a disputar a indicação do PFL para a sucessão do governador Jaime Lerner. Ainda de acordo com o prefeito, o presidente da Confederação Brasileira de Fytebol (CBF), Ricardo Teixeira, também estará na cidade na ocasião. Teixeira vem de Cascavel, onde acompanha a abertura oficial do Pré-Olímpico, na véspera.
CHILE CORTA VOLANTE
O Chile, adversário de estréia do Brasil no Pré-Olímpico, dia 19, perdeu um de seus principais jogadores para a competição. O volante Jaime Valdés foi cortado da seleção, depois que ficou constatada a fratura no seu pé esquerdo, sofrida na vitória de 3 a 2 sobre o Peru, na última quarta-feira. O ‘Passarinho’, como é conhecido Valdés, por seu porte físico, é um habilidoso jogador de criação e no fim de 99 foi contratado pelo Bari, da Itália. O seu substituto é o zagueiro Alex Von Schwedler, do Universidad do Chile.
ESTRELA PARAGUAIA
Principal jogador da seleção sub-23 do Paraguai, o atacante Roque Santa Cruz só se juntou à delegação ontem, quando estava previsto o amistoso contra um combinado paranaense, no Estádio 3 de Fevereiro, em Ciudad del Este. O jogador chegou acompanhado de um representante do Bayern de Munique, que exige sua volta à Alemanha no dia 25, tão logo o Paraguai encerre sua participação na primeira fase do Pré-Olímpico. Hoje, deve chegar mais um jogador, Diego Gavilán, que está acertando sua transferência para o Newcastle, da Inglaterra.