Diário da Copa
TERMO DE COMPROMISSO
Paulo Briguet
Nunca direi que o time saiu correndo atrás do prejuízo. Do prejuízo, foge-se.
Prometo não comentar que o gol veio na hora certa. Por Deus, como bem alertou meu amigo Cláudio Osti, quando é que o gol vem na hora errada?
Juro que não usarei a retórica para fingir saber o que não sei.
Procurarei não encher linguiça em páginas do jornal. Tentarei escrever menos besteiras que chavões; e menos chavões que raciocínios.
Se algum dia surgir um Sindicato dos Goleiros, ele não me processará, porque me negarei a repetir que goleiro brasileiro não sabe sair do gol.
Evitarei observar que futebol é assim mesmo; muito menos abrirei a caixinha para constatar que dela (bidu) saem surpresas.
Cederei ao Conselheiro Acácio os direitos de exclusividade sobre o slogan ‘‘Quem não faz, toma’’.
Dos jogadores, não cobrarei poesia, nem música, nem filosofia. Só artes plásticas.
Não farei previsões e não afirmarei que já esperava ontem pelo que aconteceu hoje.
Vou apontar pênalti ou impedimento claro somente depois de conferir o replay.
Que os céus me livrem de marcar algum jogador porque não fui com a cara dele; e de elogiar um atleta pelo motivo contrário. Neurônios, tornai-vos objetivos.
A par da objetividade, não cairei na ilusão de que estatísticas explicam todos os mistérios da bola.
Usarei a palavra craque apenas para designar excelentes jogadores. Guardarei a palavra gênio para ocasiões muito, muito especiais, dessas que ocorrem de dez em dez anos.
Assistirei mais uma vez ao filme ‘‘Boleiros’’ para conferir o absurdo, o ridículo e a suprema beleza do futebol – e de tudo que o cerca.
Jamais deixarei de ter em vista a linha que separa malandragem e mau caráter, dentro e fora do campo.
Mesmo de folga e depois da quarta cerveja, não chamarei o juiz de fdp. O mesmo vale para chamar o técnico de burro. Se for muito necessário, será apenas em pensamento.
Farei perguntas quando tiver dúvidas, e não para expressar comentários.
Quando for ao campo, cumprimentarei os colegas, rabiscarei anotações num bloquinho e secretamente rezarei aos deuses da modéstia para que me acompanhem sempre.
Procurarei medir as palavras antes de escrevê-las, do mesmo modo que o batedor encara o pênalti antes de convertê-lo; do mesmo modo que o bandeirinha flagra o impedimento antes de apontá-lo; do mesmo modo que o treinador pensa na substituição antes de fazê-la. Mas sei que será difícil: tantos pênaltis são perdidos; tantos impedimentos são ignorados; tantas substituições dão em nada. Um erro mora em cada lance do jogo das palavras. -

MANDA NO GRITO
Às vezes amável com as funcionárias que trabalham na equipe de apoio à Seleção, de longe o treinador Wanderley Luxemburgo parece ter parado no tempo em que futebol não era ‘coisa’ para moças. No treino de ontem à tarde, na AFML, algumas senhoras se mostraram surpresas com a rispidez que ele tratava os jogadores que erravam as jogadas ensaiadas. As broncas foram dadas em alto e bom tom, com frases carregadas de palavras chulas e de baixo calão. Os jogadores sequer esboçam uma reação no olhar e repetem, à exaustão, os lances orientados pelo técnico. Na seleção de Luxemburgo continua valendo a velha máxima popular: ‘‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’’.
MARCAÇÃO CERRADA
O centroavante Fábio Júnior foi aprovado ontem no teste de popularidade que todo político gostaria de ter. Depois do almoço e da entrevista coletiva, ele resolveu sair do Hotel Crystal para dar um passeio a pé, sozinho pelo Calçadão da Avenida Paraná. Mas não conseguiu ir muito longe. A cada dois ou três metros, um novo grupo de torcedores – notadamente moças e crianças – o parava para autógrafos e fotografias. Talvez por estar acostumado com a marcação pesada dos zagueiros, Fábio Júnior não perdeu o bom humor e se mostrou muito amável e simpático com todos os fãs.
VISUAL AFINADO
Os poucos sócios da Associação dos Funcionários Municipais de Londrina (AFML) que puderam assistir ao treino da Seleção, na tarde de ontem, se mostraram confusos na hora de identificar os jogadores. Tudo por culpa do visual adotado por grande parte deles, com a cabeça completamente raspada ou cabelo cortado bem curtinho, no estilo militar. ‘‘Tá difícil saber quem é quem. Os caras estão todos com os cabelos podados’’, disse um estudante, referindo ao corte de cabelo dos atletas. ‘‘São muitos negros carecas. Aí, a identificação fica ainda mais complicada.’’
MUITA MORDOMIA
Entre os torcedores que foram ontem à AFML, poucos vestiam a camisa amarela da Seleção Brasileira. Boa parte ainda usava as camisas dos times de futebol, com destaque para os admiradores do Palmeiras e do Londrina, em maior número. Alguns torcedores notaram as boas condições de trabalho da seleção e consideraram exagerado, por exemplo, funcionários da CBF cortar as unhas e enfaixar os pés dos jogadores antes do treinamento. ‘‘É muita mordomia; deste jeito, estes caras têm a obrigação de jogar bem’’, comentou um funcionário municipal aposentado.
TÉCNICO É INTERNADO
O técnico da Seleção Sub-23 do Peru, Teddy Cardama, teve uma internação de emergência na madrugada de segunda-feira por causa de uma infecção estomacal. O treinador teve cancelada uma viagem que faria ao Chile. O gerente de seleções da Federação Peruana garantiu que Cardama passa bem e está sob repouso. ‘‘O problema foi gástrico, mas o resultado exato vai depender dos exames finais. O problema existe há vários dias, mas Teddy começou a sofrer fortes dores, o que obrigou seu internamento imediato’’, disse o gerente.

EM FOZ DO IGUAÇU
Técnico uruguaio critica data do
Pré e cobra calendário ‘racional’
Para ele, melhor seria jogar depois de abril, quando não haveria tantos prejuízos para clubes e jogadores
Ney de SouzaEQUÍVOCOVictor Púa: ‘A época é errada. O torneio acontece depois do Natal e Ano Novo, quando treino não rende’Fernando Tupan
De Foz do Iguaçu
O técnico Victor Púa criticou a realização do Pré-Olímpico no mês de janeiro, período de muito calor e quando os campeonatos europeus começam a se definir. Púa defende um calendário racional para competições desse nível. O treinador acredita que a melhor época é depois de abril. Ele espera que no futuro os problemas sejam corrigidos para que clubes e atletas não sejam prejudicados. Com relação à forma de disputa, Púa admite não ter o que reclamar.
‘‘A época é totalmente errada. Acontece logo depois do Natal e Ano Novo, período em que os treinamentos não rendem. Nesse período, os jogadores gostam de estar ao lado da família. Somente o sonho de disputar uma Olimpíada é que mantém o espírito da equipe. Para aumentar nossos problemas, o sol de janeiro prejudica os atletas. Somos obrigados a compensar o desgaste com uma alimentação balanceada’’, detalha o técnico do Uruguai.
Os jogadores da Seleção Sub-23 do Uruguai não esperam encontrar moleza nos próximos dias. Após vencer o Foz por 2 a 0, no estádio do ABC, numa partida com duração de 100 minutos, o treinador colocou os garotos uruguaios no campo do Estádio ABC para continuarem os preparativos para o Pré-Olímpico. A manhã de ontem foi de folga. Para descontrair, toda a delegação foi ao Paraguai para compras. Os jogadores gostaram dos preços de CDs para carros e abriram as carteiras. Na volta tiveram problemas para voltar ao Brasil. A ponte estava congestionada e levaram uma hora para atravessá-la. No período da tarde o trabalho aconteceu um treino tático às 18h, no Estádio do ABC.
Para os atletas entrarem no ritmo da competição que vale uma vaga para Sidney, Púa programou dois jogos nos próximos dois dias. O primeiro será hoje, às 18 horas, desta vez contra os juniores do Foz do Iguaçu. Amanhã acontecerá um novo encontro com os profissionais do Foz, desta vez mais cedo, às 17 horas, com ingressos a R$ 3,00 (mulheres e crianças) e R$ 5,00 (arquibancadas).
O local da partida de hoje e amanhã não está definido. Ontem o presidente do ABC, Ademir Flor, e o presidente do Foz, Luiz Obregón, tiveram uma discusão nas sociais do Estádio. Obregón pretende agora realizar essas partidas no Estado Pedro Basso, pertencente a outro clube amador da cidade, o Flamengo. A Seleção Brasileira chegou a treinar no local durante a última Copa América.
O técnico uruguaio pretende chegar à formação ideal durante a realização dessas duas partidas. Púa ainda tem dúvidas na meia-cancha e no ataque. No jogo de hoje ele deve alternar duas diferentes equipes. Uma no primeiro tempo e outra no segundo. Para amanhã, a intenção do treinador é escalar o provável 11 que iniciará a competição contra o Peru, dia 18, em Cascavel.